Por Sérgio SpagnuoloNúcleo Jornalismo

A República, esfarelada via WhatsApp

Repetidas vezes ao longo da última década, a República do Brasil enredou-se em uma teia de escândalos e maquinações de pessoas extremamente ricas e poderosas. No meio de tudo, o WhatsApp – ferramenta que o brasileiro usa para se comunicar, fazer negócios, dar boa noite para os parentes e planejar surubas com presença de autoridades.

Um dos motivos pelos quais sabemos da relação de Daniel Vorcaro, do banco Master, com os ministros do STF Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, com o candidato à presidência Flávio Bolsonaro, com o senador Jacques Wagner, com o deputado-influencer Nikolas Ferreira, entre muitos outros, foi porque o banqueiro era um verdadeiro operador de WhatsApp. Tem um monte dessas conversas no site MasterWhats.

Foi pelo Zap que soubemos da “festa suíça”, com 120 mulheres e 20 homens, organizada por Vorcaro e pelo ex-ministro Fabio Faria (da época Bolsonaro), trazida à tona pela revista piauí nesta quinta-feira (10.set.2026).

Não é de agora que o WhatsApp tem sido um grande repositório de informações de autoridades expondo suas tramoias. Em 2020, o então ministro da Justiça Sergio Moro apresentou mensagens de WhatsApp para acusar Jair Bolsonaro de interferência na Polícia Federal, ao passo que Bolsonaro mostrou suas próprias mensagens para acusar Moro de mentiroso.

A investigação da rachadinha de Flávio Bolsonaro, também em 2020, veio a partir da apreensão de celulares do Fabrício Queiroz (lembra dele escondido em Atibaia?), que tinham conversas no WhatsApp sobre o escândalo de corrupção.

Ainda mais consequentemente, a apreensão das conversas de WhatsApp do ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro, Mauro Cid, trouxe luz para diversas tramoias do ex-presidente, desde falsificação de certificados de vacina até a venda contestada de joias recebidas de presente e, claro, a trama golpista que culminou na depredação do Congresso, do STF e do Palácio do Planalto.

Tivemos também o vazamento de diálogos no qual o filho do presidente Lula, o Lulinha, é acusado de praticar tráfico de influência para ajudar os amigos.

Seja por vazamentos, hacks ou quebras de sigilo, há muitos mais exemplos por aí se você tiver a disposição de procurar (caso Covaxin, Carla Zambelli e hacker, Vaza Toga, Abin paralela, áudio de 14 minutos de Michel Temer enviado por engano [?!]).

Verdade seja dita, trata-se de uma questão mais associada à forma como o brasileiro se comunica do que ao aplicativo em si. Muitos de nós utilizamos o WhatsApp como nosso banco de dados: guardamos endereços, dados pessoais, senhas, documentos, mensagens sensíveis, discussões de relacionamentos, nudes e queremos manter essas informações sempre disponíveis pra gente. A barra de busca do Zap é um grande Google de nossas vidas pessoais.

Mas não é só o Zap. Por exemplo, a Vaza Jato – vazamento de conversas exposto pelo Intercept Brasil entre membros do Ministério Público Federal que mostrou o conluio entre Justiça (ironicamente, Sergio Moro), polícia e MPF para condenar Lula na Operação Lava Jato – foi toda exposta via Telegram. Procuradores mantiveram anos e anos de conversas entre eles e outras autoridades, e foi possível saber um monte de detalhes que provavelmente nem eles se lembravam.

Ambos os aplicativos (Telegram e WhatsApp) possuem a opção de criptografia ponta a ponta, o que garantiria que as mensagens não seriam interceptadas em rota. Mas não há criptografia de ponta a ponta que salva um aplicativo de seu elo mais exposto: o ser humano do outro lado.

No caso da Vaza Jato, o hacker conseguiu acesso pelo número de telefone de procuradores, provavelmente via clonagem de chip. No caso de Vorcaro, a PF confiscou o aparelho. A partir daí, tem-se acesso a mensagens de várias outras pessoas com as quais o alvo conversou.

Em escândalos futuros o aplicativo de escolha pode até mudar, mas o mesmo elemento norteador deve estar lá novamente: a confiança de que rastros digitais jamais virão à tona.

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Fonte: Núcleo Jornalismo

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