A peste totalitária bate à nossa porta: a atualidade de Albert Camus

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Por RedaçãoJornal Opção

A peste totalitária bate à nossa porta: a atualidade de Albert Camus

Salomão Sousa

Especial para o Jornal Opção

Entre os anos 1943 e 1947, Albert Camus escreveu o romance “A Peste” (Record, 288 páginas, tradução de Valerie Rumjanek), para denunciar o nazismo, que na época era um manto negro a cobrir a Europa. Por ser uma fábula atemporal, o livro contribui para reflexão sobre todas as formas de totalitarismos e autoritarismos como é o caso da extrema direita atual, que vai escurecendo o céu da política de vários países do mundo.

Nesse período em que Camus escrevia “A Peste”, a França passava por grande efervescência política e cultural. Em 1944, a Alemanha nazista teve de desocupar o país, mas deixou para trás um caldeirão onde fervia a resistência e o debate sobre os destinos dos franceses, bem como o enfrentamento da guerra e a atuação dos intelectuais para compreensão do Homem enquanto existência presente na realidade.

Os intelectuais tiveram de criar redes clandestinas para escaparem da censura — fundaram editoras subterrâneas para publicação de suas obras. A execução do escritor fascista Robert Brasillach dividiu os intelectuais. Albert Camus foi um dos escritores a defender a liberdade de expressão. Outros foram exilados ou presos sob acusação de colaboração com o nazismo, como Louis-Ferdinand Céline e Lucien Rebatet. Albert Camus estava tão envolvido nesse processo que não conseguia concluir a redação do romance.

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Jean-Paul Sartre e Albert Camus: ambos de esquerda, mas divergentes | Foto: Reprodução

Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir dominavam a cena cultural e política. Sartre publica o livro “O Ser e o Nada” (1943) e profere a conferência “O existencialismo é um humanismo” (1945).  Surge o conceito de intelectual engajado pelas vozes de Sartre, Beauvoir e Maurice Merleau-Ponty por meio da revista “Les Temps Modernes”, fundada em 1945.

O Partido Comunista Francês estava fortalecido em razão de sua efetiva participação na resistência ao nazismo, atraindo intelectuais como Louis Aragon e Pablo Picasso.

Camus é de uma esquerda honesta, na qual os fins não justifiquem os meios: se rejeita a ser cínico a tal ponto de aceitar campo de concentração. Hoje, incluiria o Oeste como “perigo” a pairar com sua figura pestilenta sobre as nações

Dentro desse caldeirão, Albert Camus permanece ocupado com a escrita de “A Peste” em meio às atividades jornalísticas. Redigiu editoriais antológicos sobre a reconstrução da Europa, a ética política e a necessidade de enfrentamento dos totalitarismos, e condenava moralmente o uso de bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki.

Enquanto não botava ponto final no romance, Camus ia alterando os personagens para ajustar a compreensão dos rumos que precisavam ser adotados contra a presença dos totalitarismos e autoritarismos, fossem eles de direita ou esquerda (nazismo, fascismo, franquismo, comunismo).

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Como lembra Olivier Todd no livro “Albert Camus — Uma Biografia”: ele entendia como André Malraux que “o principal perigo provém não do Oeste, com os Estados Unidos, mas do Leste e da URSS”. 

Abre-se o dissenso entre Sartre e Camus, que se compreende de esquerda, mas de uma esquerda honesta, onde os fins não justifiquem os meios, pois se rejeita a ser cínico a tal ponto de aceitar campos de concentração (da URSS comunista). Hoje, inevitavelmente, incluiria o Oeste como “perigo” a pairar com sua figura pestilenta sobre as demais nações.

O romance “A Peste” foi para as livrarias em 5 de junho de 1947 numa edição de 22 mil exemplares. Em dez dias, exigiu-se nova edição com mesmo número de exemplares. Até setembro, além das edições anteriores, foram vendidos mais de 52 mil exemplares. Com o livro, Camus levou o Prêmio dos Críticos, ganhando notoriedade rapidamente.

Charge de Belmonte

Dos personagens, destaque para as figuras do dr. Bernard Rieux, que combate a peste mesmo diante da dura incerteza dos resultados do seu trabalho; Cottard, que enriquece fazendo negócios no mercado negro e, com o fim da peste, termina louco atirando contra a multidão; a presença de Jean Tarrou na organização do trabalho voluntário; do padre Paneloux, que tem a fé abalada diante da morte da criança, que vai sendo estraçalhada lentamente pela lâmina da peste a infiltrar-se em seu organismo como uma língua sem pressa de sugar todos os poros; a figura do jornalista Raymond Rambert, que abandona os esforços de encontrar a esposa jovem que está no exterior, pois entende que o enfrentamento da peste é trabalho que exige envolvimento voluntário de todos.

Os regimes totalitários, à direita e à esquerda, são gerados pela irresponsabilidade humana e devem ser evitados e combatidos através de permanente prontidão visando inibi-los e combatê-los, sobretudo, com resistência ideológica

Como argelino, filho de uma analfabeta e viúva de guerra, Albert Camus pesquisou o comportamento de várias pestes que assolaram a Argélia ao longo de sua história. Para elaboração de seu livro inspirou-se, sobretudo, na epidemia de cólera de 1849, que atingiu Orã, cidade em que instalou a trama do seu romance.

Posteriormente, Roland Barthes criticaria Camus por ter usado esse formato de fábula, pois entende que numa peste biológica as causas são naturais, que não envolvem responsabilidade dos homens, e exige solidariedade ao ser combatida.

Já os regimes totalitários são gerados pela irresponsabilidade humana e devem ser evitados e combatidos através de permanente prontidão visando inibi-los e combatê-los, sobretudo, com resistência ideológica.

André Malraux e Albert Camus: restrições a Sartre | Foto: Reprodução

Mesmo diante dos conflitos construídos pelas interpretações do romance, da leitura podemos sacar mais esperança do que desânimo — há no homem um poder de reação, de desejo de existir, com Deus ou sem ele, que até Deus duvida. No momento em que sobrevivemos à epidemia do coronavírus e que a estocada totalitária da extrema direita assola o mundo, a leitura de “A Peste” é, obviamente, proveitosa e, diríamos, obrigatória. O livro articula o tema de forma atemporal. Denuncia o nazismo (sem nomeá-lo, pois o que há é a peste) bem como seus malefícios são metaforizadas, de tal forma que possamos reconhecer no futuro — no símbolo da peste — as reabilitações dos totalitarismos e autoritarismos.

Ao falarmos sobre o livro, quando há adoecimento social, precisamos colocar diante do ser totalitário — para que ele se veja no espelho — o que de pior o nazifascismo deixou de exemplo para a política. Mas há uma grande dificuldade para que a figura totalitária assim se reconheça. É preciso que alguém bem próximo dele seja desfigurado para que ele compreenda que a violência da peste, em algum momento, atingirá todos. Seja ele político, magistrado, magnata do agronegócio ou das inatingíveis fintechs e big techs. O filho com os gânglios expostos, a mãe com as virilhas vazadas pelo bisturi para esvaziamento das pústulas. “O homem morto só tem significado se o vemos morrer.”

Como está inoculada em todos nós, Camus alerta que a peste não dorme definitivamente. Sua derrota é temporária. Sempre despertará e voltará a montar a máquina de morte. Alimento da peste são homens e instituições

Só insistirá na defesa da peste aquele que faz negócios durante o império do caos. Só os criminosos Cottards, que veem seus crimes relegados ao esquecimento para que continuem lucrando com a miséria dos outros. Só os Cottards, ainda que deformados pela peste, terão saudade desse tempo de céu enegrecido. E são muitos os Cottards a preservarem o vírus da peste para reabilitá-la na primeira porta de oportunidade que for aberta. Não podemos colocar nossas banquinhas ao lado das montadas pelos Cottards para lucrarmos com a peste.

Se são 6 milhões cadáveres, esses se esfumaçam na imaginação, pois não têm significado nenhum para quem se esvazia de “simpatia”, disse Camus. Hoje damos o nome de empatia ou de alteridade. Não interessa se a peste suprima o futuro desde que alguns continuem preparando viagens, fazendo negócios e tendo as opiniões que lhe interessam e possam suprimir a opinião do outro.  “Julgam-se livres e jamais alguém será livre enquanto houver flagelos.”

Há uma advertência à altura do final da terceira parte do romance. Em algum momento da peste não podemos nos enganar mais valendo-nos da abstração. Isto é, julgar que a peste não recairá sobre nós e fazermos de conta que nada está sendo destruído ao nosso redor. Hoje diríamos: não podemos ser resilientes com a peste, julgarmos que estamos condenados e que não adianta mais lutar contra. Habituarmo-nos à clausura, adaptarmo-nos, compactuarmos com o Mal. Temos de lutar para evadirmos da prisão. Temos de enxergar que a peste extenua até a primavera destinada às nossas ruas (… as pétalas amontoavam-se nas calçadas poeirentas).

Quando a peste se instala até “as autoridades são suplantadas” e arrastadas para dentro redemoinho, que destrói, derrota, derrui, delimita, elimina. Passa a faltar material e homens para combatê-la. A peste é um desvio do amor. Tem de ser enfrentada sem brincar de ser herói, com solidariedade — exposição ao risco.

A peste suprime os juízos de valor. Suprime também a lei, suprime a participação de uma confiança divina. Não há mais como definir o que é crime. Não se sabe mais o que é verdade. E também tem de ser enfrentado também sem amor e sem perdão. Basta a lembrança da novela “O Visconde Partido ao Meio”, de Italo Calvino, para manter presente essa compreensão. No conflito entre o Bem e o Mal, ao Bem recai a maior carga de sofrimento. O Bem sairá derrotado se insistir em encontrar um convencimento que possa converter o Mal.

A história diz respeito a todos nós.” A civilização deve se preocupar em ser “harmônica” para não se ver dizimada. Temos de recusar, “até a morte, amar esta criação em que as crianças são torturadas”. Torturadas em razão dos muros, dos ICEs, da fome, da falta de ensino e, consequentemente, de futuro. Não há futuro onde foram destruídas as condições de sobrevivência. Ar para respirar. Água para construir os corpos. Temos de enfrentar aquele que traz a mão pesada e prega que “Aquela cabeça deve cair.”

Se não quisermos ser atacados pela peste, temos de nos interessar pela justiça. Temos de recusar a cair com o flagelo, sem ceder à mínima distração. Temos de “respirar na cara do outro e transmitir-lhe a infecção”. Estamos assistindo as mortes no conforto de nossas casas tem termos os cadáveres ao nosso lado. Não é suficiente a esperança. A peste mata a esperança e mata também durante a esperança. Temos de desejar sempre (e obter algumas vezes e oferecer sempre) a ternura humana.

Como está inoculada em todos nós, Albert Camus nos alerta que a peste não dorme definitivamente. A sua derrota é temporária. Sempre despertará e voltará a montar a máquina de morte. O alimento da peste são os homens e as instituições. Precisamos de esforço harmônico, contínuo, para travar a porta que insiste em se abrir para acolhê-la.

Neste instante, há acampamento em nossa porta. Os Cottards esmurram nossos umbrais e disfarçam-se nas redes sociais para forçar a acolhida da peste.

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Fonte: Jornal Opção

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