A maldição dos governadores mineiros
Por Leonardo Miazzo — Carta Capital
Menu
Repórter especial na ‘Repórter Brasil’, venceu diversos prêmios por reportagens, entre eles o Vladimir Herzog. Dirigiu o documentário ‘Relatos de um correspondente da guerra na Amazônia’ e participou da Rainforest Investigations Network, do Pulitzer Center.
A derrota simultânea de Zema, Aécio e Simões reforça uma sina da política mineira: governar o estado raramente abre caminho para algo maior
Minas Gerais conseguiu neste domingo uma façanha difícil de repetir: derrotou, numa única eleição, três homens que já ocuparam a cadeira de governador. Romeu Zema (Novo) tentou chegar à Presidência da República e terminou em sexto lugar. Aécio Neves (PSDB) quis voltar ao Senado e ficou em sétimo. Mateus Simões (PSD) disputou o governo sentado no cargo e chegou em quarto.
Zema produziu o tombo mais vistoso. Passou oito anos vendendo Minas como vitrine de um modelo que pretendia oferecer ao País e recebeu 326,5 mil votos para presidente, apenas 0,27% dos válidos. Foi menos de um oitavo dos 2,7 milhões obtidos por João Amoêdo, primeiro presidenciável do Novo, em 2018. Quatro anos antes, mais de 6 milhões de mineiros haviam lhe dado um segundo mandato no primeiro turno; agora, mesmo em Minas, Zema ficou com 0,82%.
Antes, já tinha providenciado a imagem que resumiria a campanha. Foi votar em Araxá e levou o celular para dentro da cabine, onde o aparelho é proibido. Flagrado, explicou que anda com ele o dia inteiro, “quase como se fosse um dedo”, e que ninguém o lembrou de deixá-lo com os mesários. Para quem passou anos oferecendo eficiência e gestão como credenciais para governar o País, encerrar a campanha explicando que ninguém o avisou de uma regra básica é uma ironia difícil de superar.
Mateus Simões descobriu no domingo que o cargo se herda e o eleitor, não. Assumiu o governo em março, quando Zema saiu para disputar a Presidência, e chegou à eleição com a máquina estadual nas mãos e quase oito anos de gestão de seu grupo para apresentar. Recebeu 530 mil votos, 4,65%, e terminou em quarto, atrás inclusive de Flávio Roscoe (PL), estreante em eleições. Cleitinho (Republicanos) liquidou a disputa no primeiro turno, com 55,4% e mais de 6,3 milhões de votos.
A derrota também oferece a Simões uma oportunidade de rever a maneira como exerce o poder. Em setembro, durante uma sabatina de O Tempo, interrompeu a jornalista Tatiana Lagôa, chamou-a de “desleal”, acusou-a de defender uma “tese política” e sugeriu que disputasse uma eleição. Simões tem 45 anos e tempo para tentar novamente, mas talvez precise aprender a conviver melhor com perguntas, críticas e contrariedades se quiser reconstruir a carreira pelo voto.
Aécio Neves conhece essa descida há mais tempo. Em 2014, recebeu 51 milhões de votos para presidente e perdeu para Dilma Rousseff (PT) na disputa mais apertada desde a redemocratização. Quatro dias depois, o PSDB pediu ao TSE uma auditoria da eleição para responder às suspeitas que circulavam sobre as urnas. Após meses de análise, o próprio partido concluiu que não havia encontrado evidência de fraude ou adulteração.
Em 2017 veio a conversa com Joesley Batista, da JBS, na qual Aécio pediu 2 milhões de reais, segundo a gravação entregue pelos delatores. Ele sempre sustentou que se tratava de um empréstimo, mas a Procuradoria-Geral da República pediu sua prisão, negada pelo STF, e Aécio chegou a ser afastado temporariamente do Senado.
Em 2022, a Justiça Federal o absolveu da acusação de corrupção passiva, e o TRF-3 manteve a decisão no ano seguinte por considerar que não havia sido demonstrada relação entre o dinheiro e o exercício da função pública. A absolvição encerrou aquele processo, mas não devolveu a Aécio o tamanho político que tinha antes do escândalo.
Neste domingo, ele tentou recuperar a cadeira de senador que havia ocupado quando ainda sonhava com o Planalto. Recebeu 836.595 votos, 4,08%, e terminou em sétimo, enquanto Domingos Sávio (PL) e Marília Campos (PT) ficaram com as duas vagas. Aécio entrou na Câmara dos Deputados em 1987, aos 26 anos, e passou quase toda a vida adulta ocupando algum mandato eletivo.
O placar de domingo me fez lembrar de Maria Papuda e de uma maldição bem mais antiga. Antes de as urnas começarem a maltratar governadores, Belo Horizonte já tinha um fantasma encarregado do serviço. A lenda diz que Papuda vivia num rancho próximo ao lugar onde seria erguido o Palácio da Liberdade e teria amaldiçoado os governantes depois de ser expulsa para a construção da nova capital.
A fama da assombração cresceu com as mortes de governadores mineiros. Silviano Brandão, João Pinheiro, Raul Soares e Olegário Maciel acabaram incorporados pela lenda à lista de vítimas de Maria Papuda, embora a história real seja menos organizada. Silviano já havia deixado o governo quando morreu, João Pinheiro morreu durante o mandato e Raul Soares e Olegário Maciel morreram no Palácio da Liberdade. Para uma capital ainda jovem, havia material suficiente para transformar coincidência em maldição.
A versão moderna dessa sina pode ter como marco Tancredo Neves. Ele deixou o governo de Minas em agosto de 1984 para tentar o único salto político que ainda lhe faltava, venceu Paulo Maluf no Colégio Eleitoral e foi internado na véspera da posse. Morreu em 21 de abril de 1985 sem assumir a Presidência. O último governador mineiro a deixar o cargo, vencer uma eleição presidencial pelo voto popular e chegar ao Planalto continua sendo Juscelino Kubitschek, eleito em 1955.
Os sucessores também descobriram que o governo de Minas costuma ser mais teto do que trampolim. Fernando Pimentel (PT), eleito governador no primeiro turno em 2014, terminou em terceiro ao tentar a reeleição e, em 2022, recebeu 37 mil votos para deputado federal e ficou como suplente. Antonio Anastasia deixou o governo, elegeu-se senador, tentou recuperar o Palácio Tiradentes em 2018, perdeu para Zema e nunca mais disputou uma eleição. Em 2022, renunciou ao Senado para assumir uma cadeira de ministro do Tribunal de Contas da União.
Eduardo Azeredo perdeu a reeleição para Itamar Franco em 1998, ainda passou pelo Senado e pela Câmara e renunciou ao mandato de deputado em 2014. Newton Cardoso tentou voltar ao governo em 2002 e terminou em terceiro; quatro anos depois, perdeu também uma disputa para o Senado. Nenhum conseguiu recuperar nas urnas o protagonismo que tivera no governo. A cadeira mais importante do estado acabou sendo também o ponto mais alto de suas carreiras eleitorais.
O fantasma de Maria Papuda, portanto, pode descansar. Faz tempo que a própria política se encarrega do serviço. Desde Tancredo, chegar à cadeira de governador de Minas não tem sido o problema, mas o perigo começa quando resolvem levantar dela.
Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.
O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.
Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.
Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.
Desenvolvido por OKN Technology Agency
Fonte: Carta Capital