A Lava Jato foi feita para desarticular o Brasil, afirma Robson Farinazzo

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Por RedaçãoGGN

na Rede Lawfare Nunca Mais

Do lawfare à intervenção militar

por Laura Coutinho

              A Constituição de 1988, proclamada como a Constituição Cidadã, pela voz de seu presidente, o deputado Ulisses Guimarães, foi uma verdadeira celebração da democracia, da liberdade e da soberania do país que recém saíra de vinte e um anos de ditadura militar.  Foram inúmeras as mudanças visando o fortalecimento das instituições democráticas e sociais em favor do povo brasileiro. No que se refere às Forças Armadas, Aeronáutica, Exército e Marinha, o seu papel na sociedade ficou estabelecido no Título V. “Da defesa do Estado e das Instituições Democráticas”, capítulo II. “Das Forças Armadas,” nos artigos 142 e 143. São instituições permanentes orientadas para a defesa do país e subordinadas à autoridade do Presidente da República, escolhido por meio de eleições democráticas.

              Segundo o comandante Robson Farinazzo, que conversou com a Rede Lawfare Nunca Mais sobre as novas formas de guerra em curso no país e no mundo, há um profundo desconhecimento, por parte da imensa maioria dos brasileiros, dos objetivos, das funções e das relações das Forças Armadas com a sociedade e os três poderes constituídos, o executivo, o judiciário e o legislativo.

              Robson Farinazzo, nascido em Catanduva (SP), é Capitão de Fragata da Marinha do Brasil, entrou para a reserva em 2016. Serviu durante muito tempo no Corpo de Fuzileiros Navais, exerceu diversas funções em várias bases e batalhões. Foi Chefe do Departamento de Aviação da Diretoria de Sistemas de Armas da Marinha, exerceu essa função por oito anos consecutivos. É autor do livro “As Leis de Sucesso dos Pilotos de Guerra”, disponível na Amazon.  Atualmente, dirige o Canal “Arte da Guerra”, um veículo de mídia voltado a análises de assuntos militares e geopolíticos com quinhentos e oitenta mil seguidores e cento e oitenta e sete milhões de visualizações.

              Existe um desconhecimento profundo de questões fundamentais, na sociedade, entre os militares e nas forças armadas também. Parece que todo o país foi enganado, nos últimos oitenta anos, e segue acreditando e repetindo a máxima de que “o que bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”. Existe o pensamento muito forte de que é o ocidente, os Estados Unidos que vão levar o Brasil ao progresso e ao desenvolvimento. A sociedade brasileira não acordou ainda para os riscos que representa aquele país para o Brasil e para a América Latina. Uma das coisas que o comandante Farinazzo preconiza é a necessidade de um dialogo nacional abrangente, com pessoas capazes de promover o debate nacionalista, desenvolvimentista e soberanista, terminologia que criou para tratar a questão da soberania.

              Um dos aspectos fundamentais, que o comandante destaca, para constar desse debate nacional, é o lawfare, um dos aspectos da guerra híbrida, operado por meio da Lava Jato, e os males que causou ao Brasil. Vendida pela mídia convencional como a salvação da pátria, hoje já são amplamente conhecidos os males que essa operação causou. A Lava Jato desarticulou a economia brasileira. Antes dela havia uma indústria de construção civil que fazia grandes obras em todo o mundo, havia uma indústria naval pujante, expressiva, que, hoje, não há mais. A indústria petrolífera também sofreu bastante. E, com relação à defesa, a Odebrecht estava criando um setor na área de produção de mísseis, quando veio o turbilhão que destruiu o país e acabou tudo isso. A Lava Jato foi feita para desarticular o Brasil. Hoje, com o juízo que o tempo traz, e muitas pesquisas e estudos, como o de Brian Mier, que demostra a participação dos Estados Unidos nos bastidores daquela operação, é possível analisar melhor as coisas. Os fatos já se decantaram permitindo entender melhor o que realmente aconteceu. Houve um desmonte do país, o Brasil regrediu. Por meio de uma caça às bruxas, houve um macartismo à brasileira, muitas vítimas tombaram. Algumas coisas que o país perdeu, não se recupera mais. Esses fatos precisam vir a debate público para que a população brasileira possa ter conhecimento, além de estabelecer um diálogo sincero com a caserna, no sentido de conscientizar os militares sobre quais são os verdadeiros perigos que ameaçam o Brasil.

              Segundo formadores de militares estadunidenses, a guerra agora é muito mais barata, não precisa derramar uma gota de sangue. No entanto, as guerras convencionais continuam, seguem destruindo lugares, militares e população civil. Recentemente, o comandante Robson Farinazzo, junto com outros jornalistas brasileiros e latino americanos, foi convidado para uma missão, no Irã, por ocasião dos funerais do aiatolá Ali Khamenei, Líder Supremo da República Islâmica do Irã, morto em 2026, e outras vítimas dessa absurda guerra que os Estados Unidos deflagraram contra aquele país. Essa missão foi, particularmente, importante para que os brasileiros pudessem ter uma informação mais isenta sobre os fatos, sem as lentes da mídia corporativa que sempre apresenta a perspectiva estadunidense.

              O que a comitiva de jornalistas pôde ver, segundo Farinazzo, foram basicamente duas coisas: normalidade e dignidade. Os iranianos são um povo muito digno, com uma grande preocupação com os menos favorecidos, muito gentis com os estrangeiros. A imprensa convencional não fala, mas trata-se de um povo que se veste e se apresenta muito bem, tanto os homens quanto as mulheres. As pessoas continuam levando a vida com dignidade, vão ao mercado, trabalham, levam as crianças à escola, e estão preocupadas com o futuro de seu país, que é um lugar maravilhoso, com uma cultura milenar. O grupo de jornalistas, durante dos dias do funeral, pude visitar alguns lugares que foram bombardeados. A caminho de Minab, uma cidade histórica próxima do estreito de Ormuz, onde houve um bombardeio, a viagem foi interrompida, pois havia receito de um atentado contra a integridade das pessoas. Constatado que não era possível chegar em Minab, pois o sul do país estava sendo atacado, foram para Lamerd, a vinte quilômetros do litoral, com 30 mil habitantes, que é outra cidade atacada pelos Estados Unidos e lá foi possível ver os horrores da destruição. Não havia instalação militar, atingiram uma quadra de esporte com munição estilhaçante, a rua ficou coberta de buracos, as casas foram atingidas, em uma zona quente do semiárido onde não havia alvo militar. Mataram trinta pessoas e feriram cento e cinquenta, inclusive crianças. Lamed acabou se tornando a Guernica dos tempos modernos. Tudo que os nazistas fizeram em Guernica, em 1937, os EUA fizeram em Lamerd e em Minab. Uma guerra covarde, com puro interesse em causar terror e barbárie.

              Para enfrentar os ataques anunciados e já em curso no Brasil, vai ser necessário muito empenho do governo e da sociedade. Falta ao país uma maturidade estratégica, não só aos militares, também aos diplomatas, aos políticos, aos empresários, ao judiciário. O país não se encontrou ainda como uma nação de futuro, ainda está muito fragmentado. É muito importante se criar espaços de debate para colocar a limpo os fatos acontecidos, quando meia dúzia de espertalhões se transvestiram de defensores da pátria, no judiciário, na procuradoria e que enriqueceram, existem procuradores milionários, que isso venha à tona, ao conhecimento de todos, para que possam ser punidos e que fatos como a Lava Jato nunca mais aconteçam.

              Aqui no Brasil, uma boa parte dos militares desconhecem essa guerra jurídica e midiática, precisam ser conscientizados e só existe uma saída que é o diálogo. Se o Brasil tiver um exército que sabe porque está lutando, mesmo que perca cem batalhas, vai ganhar a guerra. Foi o que aconteceu no Vietnã. Os vietnamitas sabiam porque estavam lutando. Perderam a maior parte das batalhas, sofreram derrotas táticas sucessivas, mas ganharam a guerra, porque os soldados americanos não sabiam porque estavam lutando, ganharam a maior parte das batalhas e perderam a guerra. O mais importante, na guerra, é o vai na cabeça e no coração do soldado. Qual é problema estratégico do Brasil hoje? O Estado que vai se instrumentalizar contra o Brasil são os Estados Unido, é preciso olhar bem para isso. É preciso olhar para os genocídios que os americanos cometeram agora em Minab e em Lamerd, no Irã, e também no Vietnã, no Iraque, no Afeganistão, em Guantánamo; é uma excrecência jurídica, o que aconteceu na guerra da Coreia, que é um trauma até hoje. Isso precisa ser visto. A Coreia foi o maior desastre para os Estados Unidos, no século XX. E isso os militares brasileiros não sabem, conhecem a guerra pelos filmes de Hollywood, que passam uma visão completamente fantasiosa da realidade, e acham que aquilo é a guerra.

              As soluções para o Brasil podem estar nos anos 1960, é preciso olhar para as ideias de Darcy Ribeiro, por exemplo, porque as ideias desenvolvimentistas daquela época nãos se concretizaram, foram interrompidas, e são válidas até hoje. As ideias de independência, de autonomia, de nacionalismo desenvolvimentista, pareciam afirmar que o Brasil iria dar certo, e esse discurso e essas políticas foram abandonadas. A sociedade está carente de informações e de motivações. O governo, talvez, tenha medo de fazer um discurso mais nacionalista, mas cabe nacionalismo no discurso progressista. No momento atual da história não se pode renegar o nacionalismo, é preciso assumi-lo com coragem e determinação

              Segundo Farinazzo, o que precisa ser feito, no Brasil, é uma mudança de mentalidade, é preciso ter uma mentalidade mais voltada para os valores nacionais, e entender as ameaças que pairam sobre o país. E o país está bastante atrasado. O governo Lula tem falhado em entender a guerra e também no aspecto da comunicação. Uma campanha de publicidade fundamental foi a de “O Brasil é dos brasileiros”, que ficou em uns poucos bonés, mensagens na mídia e depois deixaram morrer. Farinazzo afirma que esta é a campanha ideal para o momento em que existe um ataque real contra o Brasil. Parece que existe uma miopia na comunicação. Parece que o atual governo tem vergonha de dizer que é preciso amar Brasil, ser nacionalista. Parece que a esquerda tem vergonha desse discurso. Não se pode perder a esperança, é preciso levar adiante os debates sobre esses temas. O governo precisa melhorar a comunicação, e enfatizar o nacionalismo desenvolvimentista do país. Parece que o governo Lula não quer colocar o povo na rua e se o povo não for para as ruas para exigir as mudanças, o país não vai sair do buraco. Há um problema de comunicação, um problema de discurso e a necessidade de congregar todas as forças da sociedade para um grande debate nacional. Os tempos atuais e os que vêm aí são tempos difíceis e é preciso ganhar esta guerra.

Laura CoutinhoDiretora de Comunicação e Projetos da Rede Lawfare Nunca Mais

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Fonte: GGN

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