A inteligência artificial e o desafio de quem está começando
A Gazeta
Redes Sociais
Esqueci minha senha
Acesse aqui
Acesse aqui
Artigo de Opinião
Publicado em 11 de Outubro de 2026 às 14:00
Publicado em
Pergunte a qualquer profissional com vinte anos de estrada como foi o primeiro emprego e a resposta costuma vir com um sorriso meio sem graça. Eram tarefas repetitivas, relatórios refeitos, horas conferindo números. Ninguém sonhava com aquilo, mas foi ali que muita gente aprendeu a trabalhar, a errar sem grandes consequências e a entender como uma empresa funciona por dentro. É justamente essa etapa que a inteligência artificial começa a redesenhar.
Os primeiros sinais já aparecem nos dados. Um estudo da Universidade Stanford mostra que, nos Estados Unidos, jovens de 22 a 25 anos em ocupações muito expostas à IA têm nível de emprego cerca de 19% abaixo do que teriam se acompanhassem colegas da mesma idade em funções menos expostas. O mais revelador é o mecanismo. Ninguém está sendo demitido em massa. As vagas para iniciantes simplesmente deixam de ser abertas, enquanto os profissionais experientes seguem empregados.
Do ponto de vista de quem contrata, a lógica é clara. Resumir documentos, organizar planilhas, escrever rascunhos e revisar dados eram tarefas típicas de estagiários e analistas juniores, e são exatamente as que a IA faz bem e rápido. O profissional sênior continua necessário porque sabe quando a resposta da máquina está errada, negocia, decide e responde pelo resultado. O mercado parece estável nos indicadores gerais, mas a porta de entrada vai se estreitando sem fazer barulho.
Quando a porta abre, a exigência também mudou. Cada vez mais se espera do novato capacidade de julgamento, autonomia e visão do negócio, qualidades que antes eram construídas justamente nos primeiros anos de trabalho. O jovem precisa chegar pronto para uma etapa que ninguém teve a chance de ensinar a ele.
O assunto não é coisa do Vale do Silício. Segundo a Fundação Getulio Vargas, quase 30 milhões de brasileiros trabalham em funções com algum grau de exposição à IA generativa. A maior parte está em atividades administrativas, de atendimento e de serviços financeiros, justamente as que absorvem muitos jovens em busca do primeiro emprego formal.
Aqui o desafio é maior porque o ponto de partida já era difícil. O desemprego entre jovens é alto e muita gente começa a vida profissional na informalidade. Se as vagas de escritório para iniciantes encolherem, o risco é empurrar ainda mais jovens para trabalhos precários, sem formação e sem perspectiva de carreira. Por outro lado, a tecnologia pode ser uma chance de pular etapas, desde que haja acesso a formação de qualidade.
A IA não atinge todas as profissões da mesma forma. Ela substitui com mais facilidade o trabalho de roteiro previsível, como atendimento telefônico, cobrança e conferência de documentos. Já nas funções que exigem presença, responsabilidade e decisão em contexto, como as de professores, médicos, advogados e gestores, ela tende a funcionar como apoio, tirando o trabalho repetitivo e liberando tempo para o que realmente importa.
Veja Também
Na saúde, a IA ajuda a ler exames, mas a conversa com o paciente continua humana. No direito, acelera pesquisas, mas a responsabilidade pela tese é do advogado. Na fábrica, câmeras inteligentes fazem a inspeção de qualidade e sistemas preveem falhas nas máquinas, mas alguém precisa interpretar os dados e decidir o que fazer. O que perde espaço é a rotina. O que ganha valor é o julgamento.
Na indústria brasileira, o problema não é falta de tecnologia, mas de gente preparada para usá-la. A CNI estima que o país precisa qualificar cerca de 14 milhões de profissionais até 2027, a maior parte deles já empregada.
O operador de chão de fábrica não vai desaparecer, mas precisa entender sensores, painéis e dados. A empresa que investe em máquinas e esquece as pessoas compra uma ferramenta que ninguém sabe usar direito.
Entre os executivos, o entusiasmo convive com medo. Preocupam os erros e as respostas inventadas pelos sistemas, os riscos jurídicos, o vazamento de dados sigilosos e os danos à reputação. A preocupação é legítima. Um sistema que afirma algo falso com total convicção pode gerar um parecer errado ou uma resposta ofensiva a um cliente.
Há, porém, uma contradição. A mesma empresa que teme os erros da IA deixa de contratar justamente os profissionais que, com o tempo, aprenderiam a identificá-los. Sem gente formada para revisar, questionar e corrigir o que a máquina entrega, a adoção da tecnologia fica mais arriscada, e não menos.
Esse cenário alimenta um debate cada vez mais presente sobre o ritmo do desenvolvimento da IA. De um lado, pesquisadores e políticos defendem desacelerar até que existam regras claras de segurança. De outro, líderes da indústria consideram exagerado o temor de demissões em massa e lembram que a tecnologia também cria funções. Os dois lados têm parte da razão.
Veja Também
O problema de fundo é o descompasso de tempo. A tecnologia muda em meses, enquanto escolas, currículos, leis e empresas levam anos para se adaptar. Quanto maior essa distância, mais alta a conta paga pelas pessoas.
Os próprios trabalhadores não rejeitam a IA. Pesquisa de Stanford com 1.500 profissionais mostrou que, em quase metade das tarefas analisadas, quem as executa gostaria de vê-las automatizadas, sobretudo para ganhar tempo para atividades mais importantes. A resistência aparece quando a automação toca o que é criativo ou envolve relações humanas. As pessoas não querem ser substituídas, mas também não querem passar o dia em tarefas que não exigem nada delas.
Esse talvez seja o ponto central de toda a discussão. A IA tende a tornar mais barato o que é previsível e mais valioso o que é humano. Saber organizar informação perde valor. Saber ensinar, negociar, liderar, cuidar e decidir sob incerteza ganha.
Para os jovens, o caminho ficou mais exigente, mas continua aberto. Saber usar IA passou a ser o mínimo, como um dia foi saber usar o computador. O que faz diferença é avaliar com senso crítico o que a ferramenta entrega, conhecer a fundo uma área e se comunicar bem. Vale buscar projetos reais, cursos técnicos, programas de aprendizagem e qualquer experiência que mostre capacidade de resolver problemas, e não apenas de executar tarefas.
Para os experientes, a trajetória protege, mas não para sempre. Quem se recusar a aprender tende a perder espaço para colegas que dominam as novas ferramentas. E há uma tarefa que só eles podem cumprir. Se o primeiro emprego deixou de ser a escola informal de antes, a mentoria de quem já percorreu o caminho precisa ocupar esse lugar.
Para empresas e governos, a responsabilidade é estrutural. Cortar a base pode parecer economia hoje, mas cria um vazio de liderança daqui a dez anos. Programas de estágio e trainee que combinem IA com acompanhamento humano, parcerias com escolas técnicas e políticas públicas de primeiro emprego adaptadas a essa nova realidade são investimentos, não custos.
A inteligência artificial vai mudar o trabalho, e essa mudança já está acontecendo. Resta saber quantos vão atravessá-la preparados, e isso depende das escolhas que fizermos agora.
Tópicos Relacionados
Notou
alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a
corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua
mensagem
Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta
A Gazeta integra o
Privacidade e segurança
Privacidade e segurança
© 1996 – 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados
Fonte: A Gazeta