A guerra do segundo turno
Por Emir Sader — Brasil 247
A mais longa campanha eleitoral que o Brasil já teve se aproxima do seu final. Esta parte final da campanha se projeta como uma verdadeira guerra, em que cada um usa suas armas.
Lula concentra suas atividades na campanha de massas ma is ampla que ele já fez no Brasil. Por todas as regiões, sempre com caminhadas de rua, com concentrações populares, com discursos vibrantes.
Os programas políticos do PT têm uma parte dedicada aos projetos d e Lula. Em outra parte, o partido se vê obrigado a dedicar-se ao desmentido da quantidade de fake news divulgadas pela campanha de Bolsonaro. As intervenções de Lula são o ponto alto da programação. Cenas das concentrações ao longo de todo o país percorrem todo o programa.
Lula luta pela politização da campanha. Daí seu diagnóstico das razões das crises enfrentadas pelo Brasil, seguida de como seu governo as enfrentou e de como ele pretende continuar a governar o Brasil.
Bolsonaro, por seu lado, desenvolve uma estratégia completamente diferente. Ele se dá conta de que a comparação entre os dois governos lhe é completamente desfavorável. Que, ao mesmo tempo, a opinião pública — em que a mídia tem um papel importante — rejeita seu estilo de governo.
Essa é a estratégia do discurso sumamente agressivo do próprio Bolsonaro, sua orientação geral. Seu objetivo é o da criminalização do PT, incitando o ódio contra os petistas, que já teve como saldo a morte de cerca de 10 militantes do PT.
O outro elemento são as acusações, totalmente baseadas em fake news, contra Lula e o PT, que contam com a lentidão — quando atua — e a conivência — quando não faz nada — do Judiciário. Bolsonaro constrói um falso adversário, uma síntese dos piores valores, na sua opinião: contra a família, a favor do aborto, entre outros temas afins.
Bolsonaro busca convocar o s piores sentimentos da população, atacando as mulheres e suas conquistas, os negros, os pobres, os nordestinos, os meios de comunicação, os movimentos sociais, os organismos internacionais.
Esses métodos, especialmente as fake news contra Lula e o PT, contando com o silêncio do Judiciário, buscam aumentar o nível de rejeição de Lula e diminuir o de Bolsonaro e do seu governo. O que coloca para o PT o dilema de como reagir a esses métodos e seus efeitos.
Há quem proponha que o PT utilize os mesmos métodos do bolsonarismo, incluindo fake news na direção contrária. Alegam a famosa utilização da mamadeira de piroca nas eleições de 2018, que terminou tendo um peso importante na vitória de Bolsonaro.
O que provocou a reação oposta, de quem rejeita frontalmente o uso dos mesmos métodos dos bolsonaristas. Propõe-se o uso dos robôs, mas para divulgar as verdades do PT e inclusive — o que já está sendo feito — no ataque a Bolsonaro, a partir das brutais declarações que tem feito ao longo do tempo e do seu desastroso governo.
O favoritismo é de Lula, o que faz com que o filho de Bolsonaro intensifique os ataques e as fake news, como sua última possibilidade de reverter o resultado das eleições.
Caso Lula realmente ganhe, será o primeiro presidente a ser eleito para quatro mandatos no Brasil. O pouco tempo para a definição do próximo presidente do Brasil — a decisão eleitoral mais importante da história do país — será de tensão e ansiedade, entre as novas pesquisas, as manifestações populares, os debates entre eles e as declarações dos candidatos.
Em um único dia, Lula fez concentração e caminhada na favela do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro. Discursou em vários momentos, abraçou as pessoas, pulou no carro de som como se fosse um menino, ele que na verdade tem 80 anos.
No mesmo dia, Lula foi a Salvador, a cidade mais lulista do Brasil, fazer a mais espetacular caminhada com o povo, com um dos seus discursos mais emocionantes. Em seguida, ele seguiu para o Nordeste — Alagoas, Sergipe, Pernambuco —, região onde ele tem apoio de mais de 70%, livrando uma vantagem enorme em relação a Bolsonaro, que deve lhe garantir a vitória.
Nunca, em um único dia, vamos decidir tanto. Será Civilização ou Barbárie. Entre o 13 e o 22, um mundo nos separa.
No fim deste mês seremos felizes ou infelizes, livres ou escravos, democráticos ou autoritários. Nem tudo estará resolvido, se ganharmos. Mas teremos evitado o pior, o maior retrocesso da nossa história, das nossas vidas.
Agora é deixar tudo de lado e ganhar votos para a democracia, para derrotar o obscurantismo, a alienação, o fanatismo, a extrema-direita.
Vivemos os dias mais importantes das nossas vidas, em que tudo o que conquistamos está em jogo. Vale tudo para derrotarmos a barbárie e resgatarmos a civilização.
Fonte: Brasil 247