A Globo e o debate eleitoral: tática ou estratégia?
Por Marilia Lomanto Veloso — Brasil 247
Por Marília Lomanto – Cinismo, escárnio, desrespeito? Ou tudo isso e mais, afronta evidente a regras que devem conduzir o debate democrático? Não se trata de “notícia requentada”, mas de refletir sobre o impacto do cancelamento do debate entre candidatos, pela Rede Globo, a mesma que costuma pensar que carrega o cetro da comunicação no país. Além disso, um alerta para a desfigurada rede de comunicação, versada em criar um clima de tensão contra determinado ato ou pessoa contra quem se indispõe e resolve desintegrar social e politicamente.
O episódio propiciado pela emissora, construindo uma armadilha para o Presidente Lula, terminou em um fracasso histórico e no auto aprisionamento pela própria trapaça. O púlpito destinado a Luiz Inácio Lula da Silva se transformaria em um espaço indefeso, bombardeado por uma tropa sanguinolenta, ávida para se lambuzar nos supostos despojos de uma liderança que o mundo reverencia, mas que a mediocridade pequeno burguesa de nosso país insiste em negar. E uma das formas como expressou isso, foi abrindo espaço para um segundo turno de eleições. Daí, a expectativa de um debate entre os candidatos, mas com o golpe global desmascarado pela opinião pública e legalmente estancado pelo sistema de justiça.
O debate cancelado não era apenas um diálogo para a disputa de narrativas entre candidatos sobre seus programas de governo, prática saudável quando a intencionalidade é a discussão democrática de propostas, mas o destino que traçavam para o Presidente Lula era a letalidade política pelo massacre dos demais participantes. Apesar desse propósito a estratégia tomou seu próprio rumo e se ressignificou, criou asas e luzes para iluminarem o Território das redes sociais, escolhido pelo Presidente para dialogar sobre seu projeto de governo, o quarto, para o Brasil.
Registre-se que as artimanhas pusilânimes da Rede Globo conseguiram se instalar nos candidatos ao governo da Bahia, em um monólogo caricato, patético, disparatado, protagonizado por ACM Neto, sem a consciência mínima do que significa o debate, que exige o diálogo entre os sujeitos que falam. Não se pretende avocar nestas reflexões um discurso filosófico, mas impossível tratar do diálogo sem lembrar Platão e a dialética, “arte de argumentar, contrapor ideias e examinar conceitos por meio de perguntas e refutações”.
O diálogo exige participantes. E na hipótese de uma disputa entre candidatos isso é imprescindível, porque não estamos falando de uma encenação, um recurso de linguagem que poderia ser monológico. Mas de uma disputa de ideias, onde a falta de um dos debatedores estabelece o desequilíbrio, ferindo de morte, na hipótese que se tornou real, um dos princípios básicos de uma democracia: o direito de defesa.
Para vergonha da categoria que é titular de direitos constitucionalmente garantidos, como a liberdade de expressão, a TV Globo conseguiu exibir para o público baiano, o espetáculo constrangedor de um debate entre ACM Neto e uma “cadeira vazia”, à qual o candidato formulou perguntas que nunca poderiam ser respondidas, porque ausente o outro debatedor. E “se a palavra é de prata e o silencio é de ouro”, o não dito resultou no enobrecimento de Jerônimo Rodrigues, com sua altivez de professor de Universidade pública, como se tivesse proferido a mais didática das aulas. Não prosperaram os ardis dos idealizadores viciosos sociais, analfabetos jurídicos, traidores do Código de Ética da categoria, que deveriam garantir o direito à informação. Ignoraram as regras de isonomia que comandam debates, a propósito, em atividade nos Estados. Surpreende que os métodos da Rede Globo conseguem ser validados por figuras de porte acadêmico respeitável, dispostas a fazer análise dos fatos dando musculatura às práticas abusivas e disfarçadas de liberdade de imprensa da emissora.
De que imprensa? Da Rede Globo que se aliou à ditadura militar? Da Rede Globo que alimentou a Lava Jato com imagens de lama fétida, em nome do ódio a Lula, ao PT, ao projeto de governo popular? À Rede Globo, de insuspeita atitude aporofóbica com o Nordeste? Da Rede Globo que divulgou um Powerpoint espúrio e mentiroso, sem pruridos éticos, pleno de “concupiscência ideológica”, com falsa conexão do Presidente Lula com o Banco Master?
A Rede Globo deveria ter um mínimo de acatamento à inteligência do eleitorado. Não é vítima de nenhum arbítrio do Judiciário que seria estúpido e comparsa na hipótese de permitir a bufonaria de um debate político exibindo uma poltrona sem corpo, com formulação de perguntas ao candidato, qualquer um deles, que não poderia responder, porque ausente. Isto seria ser cúmplice de um acinte ao processo eleitoral, a permissão para restabelecer a crueldade odiosa da Santa Inquisição, da medieva execução de um corpo esquartejado em praça pública, ao som de aplausos e gritos da plateia ávida pelo espetáculo da morte. E com certeza, o massacre ao ausente, por candidatos unidos pelo mesmo sentimento de ódio, agora com liberdade de se somarem e fluirem contra o alvo principal: Luiz Inácio Lula da Silva. Perdeu, Rede Globo. O embuste eleitoreiro, o ardil, não prosperaram. O feitiço virou contra o feiticeiro O espetáculo foi cancelado pela mesmo autora da peça macabra, a Globo. Um dia, talvez um dia, quem sabe, seja sepultado esse modo espúrio dos órgãos da imprensa hegemônica, corporativa, de fazer notícia. E a Rede Globo passe à casta de uma simples Memória da contradição entre um órgão de imprensa de uma técnica exemplar e uma prática execrável de comunicar.
Fonte: Brasil 247