A foto, o gesto e a crítica: nas redes, venezuelanos reagem a encontro de Delcy Rodríguez e Donald Trump
Por Leonardo Fernandes — Brasil de Fato
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O dia em que Donald Trump distribuiu ameaças ao mundo e especialmente à América Latina no púlpito da Organização das Nações Unidas (ONU) terminou com um encontro inusitado: a presidente em exercício da Venezuela, Delcy Rodríguez, se reuniu com o chefe do Executivo estadunidense, na noite da terça-feira (22), e a imagem circulou imediatamente o mundo.
Em seu perfil na rede social X, Rodríguez chamou a reunião com Trump de “histórica”. “Realizamos uma histórica reunião com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com quem conversamos sobre o fortalecimento da relação bilateral entre nossos países e o avanço de uma agenda de cooperação em áreas estratégicas como energia, mineração, segurança”, publicou a presidenta, com a foto em que ambos aparecem sorrindo.
Sostuvimos una histórica reunión con el presidente de los Estados Unidos, Donald Trump, con quien conversamos sobre el fortalecimiento de la relación bilateral entre nuestros países y el avance de una agenda de cooperación en áreas estratégicas como energía, minería, seguridad pic.twitter.com/pyJ6FnQkBH
Alguns chavistas comemoraram o que chamaram de “sucesso da diplomacia de paz”. O ministro das Comunicações, Miguel Ángel Pérez Pirella, qualificou a imagem como “a foto do dia”. No entanto, até a manhã desta quarta-feira (23), nenhuma das principais lideranças vinculadas ao governo em exercício repostou a fotografia, que nas redes da presidenta teve pouco mais de 46 mil curtidas nas primeiras dez horas.
O encontro é o primeiro após a agressão militar estadunidense à Venezuela no dia 3 de janeiro deste ano, que deixou mais de uma centena de mortos e resultou no sequestro do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama, a deputada Cilia Flores.
Uma enxurrada de memes invadiu as redes venezuelanas; alguns celebrativos, outros críticos, uns quantos envergonhados, outros quantos orgulhosos. Fato é que o assunto virou a pauta e, tamanha foi a repercussão, que as forças chavistas convocaram uma manifestação nesta quarta para “respaldar a presidenta” no dia em que ela falará no plenário da Assembleia Geral da ONU.
O cientista político venezuelano William Serafino estabelece paralelos históricos com a tentativa imperial de domínio sobre o país sul-americano, em uma análise publicada nas redes após o encontro entre Delcy e Trump.
“Do ponto de vista histórico, existe uma ligação profunda entre a Venezuela e o lançamento de dispositivos imperiais norte-americanos na região, codificados sob a atualização da Doutrina Monroe. O bloqueio naval de potências europeias contra o país em 1902-1903 foi o ventre do Corolário Roosevelt, consagrado finalmente com a queda de Cipriano Castro em 1908, o inimigo público número um do Tio Sam”, comenta.
“Mais de cem anos depois, uma intervenção militar direta desenhada para domar e realinhar a Venezuela na órbita norte-americana seria a colocação em marcha oficial do Corolário Trump. A Venezuela, em seu dramático pêndulo entre a fratura e a recomposição de ordens imperiais, entre a vontade de transcendência e o castigo dos poderosos”, completa.
Em outra publicação, Serafino se refere à “humilhação” como um “produto histórico” das elites contra a soberania dos países não-alinhados.
“A humilhação é, poderíamos dizer, um produto histórico, o resultado estrondoso de erros compartilhados por elites de visão limitada e com baixíssimo senso de responsabilidade pública, ao avaliar os custos e benefícios de suas aspirações políticas e geopolíticas”, argumenta o cientista político.
“O problema não é a cena diplomática em que se concretiza a ofensa à dignidade, mas onde esse fato tem suas raízes. Se não se começar por compreender o duplo esvaziamento da noção de soberania vivenciado pelo país, dificilmente se conseguirá encontrar o caminho de volta a uma posição de maior força”, aponta Serafino.
Para os analistas semióticos das redes sociais, não passou despercebido o gesto da presidenta em exercício ao lado de Trump, em uma das fotos publicadas pela Presidência venezuelana. Com a mão esquerda, faz um “V”, e com a mão direita, o punho fechado. O sinal chegou a ser associado ao mesmo que fez Maduro quando desembarcou em Nova York, após ser sequestrado em Caracas pelas forças estadunidenses.
O vice-ministro de Políticas Antibloqueio do Ministério de Economia e Finanças, William Castillo Bollé, publicou a foto ao lado da imagem recém-divulgada do presidente Nicolás Maduro na prisão, com a frase: “Onde eu vi esse gesto antes?”
¿Donde he visto ese gesto antes? pic.twitter.com/Fi5H3NvZw2
Alguns internautas seguiram na mesma linha. “Embora nem esse gesto nem o punho que o acompanha tenham surgido com essa corrente política venezuelana, são símbolos fortemente incorporados à identidade chavista”, publicou um internauta na rede Threads.
“Houve um detalhe que também não passou despercebido: o gesto de suas mãos. A política venezuelana acaba de dar outra guinada inesperada”, anunciou outro, sem detalhar de qual guinada se referia, se à esquerda ou à direita.
Por outro lado, o apresentador de televisão e ex-deputado constituinte Mario Silva, que tem sido um crítico ácido do governo em exercício, arremeteu mais uma vez contra a presidenta por causa da foto.
“Eu pensei que fosse inteligência artificial ou algo do tipo, mas é um surrealismo total. Quando vemos a presidenta interina reunida com quem nos bombardeou e matou mais de 100 compatriotas, incluindo 32 cubanos, e fazendo o sinal de ‘V’ da vitória, não conseguimos entender isso”, comentou o apresentador em um vídeo publicado na manhã desta quarta-feira.
“O que farão com todos os venezuelanos que neste momento estão indignados com isso, ao verem o governo ao lado de um genocida, o mesmo que nos atacou no dia 3 de janeiro, tirando foto e publicando na própria conta da Presidência?”, questionou Silva.
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Fonte: Brasil de Fato