A fé que atravessa rios, estradas e quilômetros para chegar ao Círio
Por Casa NINJA Amazônia — Mídia NINJA
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Devotos atravessam rios, estradas e longas distâncias para chegar ao Círio de Nazaré, movidos pela fé e por diferentes histórias
Por Lucas Porto – Cobertura Colaborativa Círio de Nazaré 2026
De bicicleta, a pé, de avião ou de barco, devotos atravessam territórios diferentes para chegar ao Círio de Nazaré. Para quem vem do interior, a estrada também pode ser o rio.
Na Amazônia, nem todo caminho é de asfalto. Há quem chegue a Belém para o Círio de Nazaré pedalando pela rodovia, quem venha caminhando por dias, quem atravesse o país de avião. E há quem amarre a rede no barco no começo da noite e só desembarque de madrugada, depois de horas de rio.
Domingos Rodrigues Dias, de 80 anos, faz esse trajeto desde 1997. Ele vem de Cametá, a mais de 200 quilômetros da capital, e garante que nunca perdeu um Círio desde então. Neste ano, o barco saiu às 19h e atracou em Belém por volta das 5h. “Foi uma viagem tranquila, com o vento calmo e o rio sossegado”, conta.
Segundo ele, a emoção começa ainda na viagem e cresce na chegada, quando vê a multidão reunida pelo mesmo motivo. “Não existe outro lugar onde eu gostaria de estar nesse momento”, diz. Quando resume o que a travessia representa, Domingos usa uma palavra só: alegria.
Também de Cametá veio Maria Sofia de Oliveira, de 17 anos. Ela viajou de barco e chegou ao porto duas horas antes da partida para amarrar a rede e garantir um lugar mais cômodo. A saída foi às 19h em ponto, e a chegada a Belém, às 5h30.
Sofia conta que vem pagar uma promessa e fazer um pedido: vai prestar o Enem neste ano e quer deixar o futuro nas mãos de Nossa Senhora. A devoção, de acordo com ela, vem da infância, de quando rezava baixinho e cantava no coral da igreja enquanto a imagem passava. “Ela é um sentimento”, afirma.
A viagem de barco faz parte dessa fé. Sofia passou a noite toda do lado de fora, observando a água. “O rio me conforta. É calmo e me dá um sentimento de paz”, diz. Foi ali que se lembrou de outra travessia, em 2022, quando não conseguia dormir com o balanço do barco e foi para a proa, onde estava o pai. Os dois ficaram até de manhã ouvindo MPB, enquanto ele contava histórias da infância e mostrava cada lugar por onde passavam. “Tudo isso me marcou muito, apesar de ser simples”, lembra.
Os rios não são o único caminho. O técnico em prótese dentária Risomar Pereira da Silva pedalou cerca de 120 quilômetros, de Igarapé-Açu até a Basílica, em aproximadamente oito horas. É o segundo ano em que ele faz o percurso. Sem tempo para treinar, chegou a duvidar que conseguiria. Risomar conta que veio agradecer pela família restaurada.
“Eu não vim competir, eu vim pela fé”, afirma.
Luiz Henrique Pereira e Silva, autônomo, caminhou cerca de 80 quilômetros, de Castanhal a Belém, depois de ser aprovado em um concurso. Ele é de uma religião de matriz africana e se diz devoto de Nazinha desde sempre. Para Luiz, o que alivia o peso da caminhada são as pessoas que distribuem água e abrem a própria casa como ponto de apoio.
“A gente vê que a humanidade não está totalmente perdida”, diz.
Já a nutricionista paraense Luana Guimarães viajou mais de 3 mil quilômetros, do Rio de Janeiro, com a família. Ela lembra que estar no Círio também depende de conseguir férias e de ter condições para a viagem, o que muitos devotos não têm. Por isso, diz admirar o esforço dos ribeirinhos.
“São várias Amazônias, vários Parás dentro do próprio estado”, pontua.
A fala de Luana ajuda a entender o que as cinco histórias têm em comum. A distância entre o devoto e a santa também passa pelas condições de deslocamento de cada um, pelo acesso ao transporte e pelo tempo necessário para chegar a Belém.
Domingos, de 80 anos, e Sofia, de 17, vieram pelo rio. Ele participa do Círio há quase três décadas. Ela chega com pedidos para o futuro. Os dois desembarcaram no mesmo porto, antes do amanhecer, e seguiram a pé pelo último trecho até a cidade. Em idades e momentos de vida tão diferentes, compartilham o caminho até Nossa Senhora de Nazaré.
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Fonte: Mídia NINJA