A eleição sob suspeita: o papel do TSE e das big techs
Por Florestan Fernandes Jr — Brasil 247
As eleições de 2026 podem entrar para a história não apenas pela disputa acirrada à Presidência da República, mas também pelas denúncias de interferências internas e externas capazes de comprometer a imparcialidade do processo eleitoral. A questão que permanece é inevitável: até que ponto essas interferências influenciaram as escolhas dos eleitores no primeiro turno e em que medida podem estar afetando a disputa neste segundo turno?
Interferência interna: o TSE
É nas eleições que a democracia enfrenta um de seus testes mais decisivos. Não basta garantir ao cidadão o direito de votar; é preciso assegurar que a disputa ocorra dentro das regras da lei, sem privilégios, interferências indevidas ou abusos de poder. Cabe à Justiça Eleitoral, por meio dos tribunais regionais eleitorais e, no plano nacional, do Tribunal Superior Eleitoral, fiscalizar o cumprimento dessas normas e proteger a legitimidade do processo democrático.
É pelo voto livre e direto que os cidadãos decidem o futuro, mas não existe democracia plena quando a disputa eleitoral é desequilibrada, quando os candidatos não estão submetidos às mesmas regras ou quando o poder é usado para favorecer uns em detrimento de outros. Romper a paridade de armas não é uma irregularidade qualquer; é comprometer a liberdade de escolha do eleitor, distorcer a vontade popular e colocar em risco a própria legitimidade das eleições. Sem igualdade de condições, o voto perde parte de sua força democrática.
A disparidade de tratamento entre as campanhas eleitorais ganhou um exemplo concreto no TSE. O presidente da Corte, Kassio Nunes Marques, determinou a suspensão por 48 horas do canal “Exército do Lula”, no WhatsApp, após pedido da campanha de Flávio Bolsonaro. Já a “Tropa do Flávio”, ligada ao candidato, não sofreu a mesma punição.
Essa não foi a única medida restritiva adotada pelo ministro contra perfis e canais de apoio à esquerda. Kassio também determinou a suspensão de trechos de propagandas do PT, que associavam Flávio Bolsonaro a suspeitas envolvendo o Banco Master. A sucessão de decisões levanta questionamentos sobre a imparcialidade na condução da disputa eleitoral. O caso ganha ainda mais relevância diante de relatos sobre vínculos do ministro com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
Denúncias de interferência digital na eleição
Na quarta-feira (14/10), a repórter Taís Bilenky revelou uma diferença significativa no comportamento da inteligência artificial da Meta. A ferramenta recusou criar uma imagem de Lula com a bandeira do Brasil ao fundo, mas atendeu ao mesmo pedido quando o personagem era Flávio Bolsonaro. Essa assimetria é inaceitável em plena campanha eleitoral.
Em encontro com observadores internacionais das eleições brasileiras, o coordenador da campanha de Lula, senador Camilo Santana, afirmou que, nos três dias anteriores, a campanha havia recebido mais de 2.500 denúncias de possíveis interferências. Uma delas chama a atenção: ao buscar o canal “Exército do Lula” no WhatsApp, o usuário seria direcionado à “Tropa do Flávio”, adversário de Lula no segundo turno. Segundo o senador, o inverso não ocorreria.
Diante desses relatos, a coligação de Lula protocolou petições no TSE e denúncias na Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD), apontando possível seletividade do algoritmo da Meta e redução artificial do alcance de publicações da esquerda.
Indignados com a manipulação, brasileiros que vivem no Reino Unido estão organizando um protesto para sexta-feira (16/10), em frente à sede da Meta, em Dublin, na Irlanda.
Ninguém contesta a importância dos serviços prestados pelas big techs. Mas a intromissão dessas empresas nos processos democráticos das nações representa uma ameaça à soberania e à liberdade de escolha dos cidadãos.
No caso brasileiro, fica a dúvida: até que ponto as decisões da Justiça Eleitoral e a atuação das big techs influenciaram os resultados das eleições para os diversos cargos políticos já definidos no primeiro turno?
Os últimos dias da campanha exigem vigilância redobrada. O risco de que manipulações digitais e decisões desiguais ampliem o desequilíbrio da disputa não pode ser ignorado. Cabe a todos os democratas contestarem os abusos e denunciarem qualquer tentativa de interferência indevida, nas ruas e nas redes sociais. Não podemos permitir que a vontade popular seja distorcida. Defender a democracia exige mobilização e vigilância até o último voto.
Fonte: Brasil 247