A disputa pela juventude também acontece dentro dos games
Por Rodrigo Martins — Carta Capital
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O campo progressista precisa compreender onde os jovens estão, quais linguagens utilizam e quais experiências consideram relevantes
Por muito tempo, falar sobre juventude e política significava falar sobre escola, universidade, movimentos estudantis, partidos ou espaços de convivência. Essa realidade mudou. Uma parte significativa das novas gerações constrói relações sociais, referências culturais e formas de participação no ambiente digital, e os games estão no centro dessa transformação.
Os jogos eletrônicos não podem ser tratados apenas como entretenimento. Em 2025, a indústria global de games movimentou US$ 201,6 bilhões, segundo a consultoria Newzoo, e, no Brasil, foram cerca de US$ 2,8 bilhões. Além do peso econômico, os jogos formam comunidades, criam linguagens próprias e influenciam a maneira como os indivíduos se relacionam com tecnologia, cultura e informação. Quem pretende compreender a sociedade precisa olhar para esse território. A questão é que o debate público ainda olha pouco para ele.
Enquanto diferentes grupos políticos e econômicos compreenderam o poder de mobilização das plataformas digitais, a comunidade gamer continua sendo tratada como um nicho. Essa leitura não corresponde à realidade. Segundo a Newzoo, eram 123,3 milhões de jogadores no Brasil em 2025. Esse público é formado por pessoas de diferentes idades, classes sociais e regiões.
Mais importante do que o tamanho desse público é entender o que acontece dentro dessas comunidades. Os games são espaços de convivência, aprendizagem e criatividade. Uma iniciativa do Unicef no Brasil, o Jam das Minas, reuniu 60 jovens de 15 a 29 anos em uma maratona de desenvolvimento de jogos.
Uma das participantes, Esthefanny, aos 17 anos, mudou seu projeto profissional de Direito para Engenharia da Computação depois da experiência de criar seu próprio jogo. O exemplo mostra que o contato com os games pode ultrapassar o consumo e abrir novas perspectivas de formação e futuro.
É por isso que a disputa cultural pela atenção e pela formação das novas gerações também passa pelos games. Para o campo progressista, existe aí um desafio particularmente importante. Não basta falar sobre juventude a partir dos espaços tradicionais. É preciso compreender onde essa juventude está, quais linguagens utiliza e quais experiências considera relevantes.
Os games oferecem uma oportunidade concreta de aproximação. Eles permitem discutir educação tecnológica, inclusão digital, formação profissional, economia criativa e inovação a partir de uma linguagem que já faz parte do cotidiano de milhões de pessoas. Isso exige também enfrentar a desigualdade de acesso. Não basta colocar jovens online: é preciso criar condições para que possam aprender, desenvolver habilidades e participar da criação de tecnologia.
Também precisamos disputar o significado desse território. Se os jogos criam comunidades, podem estimular colaboração, criatividade e pensamento crítico. Se movimentam uma indústria bilionária, devem ser compreendidos como política econômica. Se produzem cultura, precisam estar no centro das políticas culturais. E se fazem parte da formação dos jovens, precisam ser considerados nas políticas de educação e cidadania.
O Brasil avançou ao reconhecer os games como atividade econômica, cultural e tecnológica, com o Marco Legal dos Games (Lei 14.852/2024), em que tive participação ativa. Mas esse reconhecimento não pode terminar na produção e comercialização de jogos. É necessário olhar para as pessoas que jogam, criam, trabalham e constroem suas identidades dentro desse universo.
A participação dos jovens também precisa ser levada a sério. A Convenção sobre os Direitos da Criança estabelece o direito de crianças e adolescentes expressarem suas opiniões sobre assuntos que lhes dizem respeito e de serem ouvidos. No ambiente digital, esse princípio não desaparece. Pelo contrário: precisamos compreender os espaços onde essa geração vive, aprende e se relaciona.
A questão agora é compreender que uma geração inteira está construindo parte de sua visão de mundo em ambientes que a política tradicional ainda conhece pouco. Quem quiser participar da construção do futuro precisa estar disposto a entrar nesses espaços, ouvir essa geração e dialogar dentro das linguagens que ela já utiliza. A política mudou de lugar. E agora ela está pra jogo. No jogo. Quem topa ir jogar?
*Márcio Filho é candidato a deputado estadual pelo PCdoB-RJ, especialista em games e sociedade e ex-presidente da Associação de Criadores de Jogos do Rio de Janeiro. Foi um dos articuladores do Marco Legal dos Games e do PL dos Games Vivos. Atua na defesa dos consumidores, da ciência e da tecnologia e na valorização do ecossistema gamer e geek. Defende políticas públicas para fortalecer a indústria nacional de games e consolidar o Rio de Janeiro como polo de inovação, formação profissional, emprego e renda no setor.
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Fonte: Carta Capital