A crise das Casas Bahia tem rostos, famílias e histórias
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Trabalho
Lourival Figueiredo Melo
18/9/2026 12:07
Há algumas semanas, trabalhadores das Casas Bahia começaram a procurar suas entidades sindicais em busca de respostas. Desde então, os relatos se multiplicaram.
Somente pelos canais da Confederação Nacional dos Trabalhadores no Comércio (CNTC), já recebemos mais de 200 reclamações relacionadas às demissões e às consequências desse processo. São histórias diferentes, vindas de várias partes do país, mas que frequentemente terminam na mesma pergunta: o que acontece com o trabalhador enquanto a solução não chega?
A dimensão do problema é nacional. Levantamento da CNTC aponta que cerca de 3 mil trabalhadores foram atingidos pela rodada de demissões, em meio ao fechamento de 298 lojas. Entre as reclamações que chegaram à entidade estão relatos envolvendo verbas rescisórias, FGTS, seguro-desemprego, benefícios e outras dificuldades decorrentes dos desligamentos.
Pouco depois, o Grupo Casas Bahia pediu recuperação judicial para reorganizar R$ 17,3 bilhões em dívidas, dos quais R$ 754 milhões correspondem a créditos trabalhistas.
Por trás desses números, porém, existem pessoas.
Um dos pedidos de ajuda recebidos recentemente veio de uma trabalhadora do Paraná. Demitida em agosto, ela procurou a entidade sindical em meio a uma situação particularmente delicada: sua filha está em tratamento hospitalar e a família enfrenta despesas médicas justamente quando perdeu a segurança proporcionada pelo emprego.
É apenas uma história entre centenas que chegaram até nós.
Há trabalhadores relatando dificuldades para receber verbas rescisórias, acessar o FGTS e o seguro-desemprego. Outros enfrentam problemas relacionados à manutenção do plano de saúde.
É aqui que precisamos separar duas questões.
As Casas Bahia têm o direito de buscar sua recuperação, reorganizar suas operações e encontrar um caminho para preservar a atividade empresarial e os empregos que permanecem. Uma companhia desse tamanho tem importância econômica e emprega milhares de brasileiros.
Mas a recuperação de uma empresa não pode significar deixar trabalhadores e suas famílias em uma sala de espera.
A empresa afirma que os direitos dos trabalhadores permanecem assegurados e que os créditos trabalhistas terão tratamento específico e prioritário dentro da recuperação judicial.
O problema é que a vida não acompanha o calendário de um processo judicial.
O aluguel vence. A conta de luz chega. A família precisa se alimentar. Um tratamento médico não pode esperar. É nessas situações que percebemos que uma verba trabalhista não representa apenas um crédito registrado em um processo. Para quem perdeu o emprego, aquele dinheiro pode representar o sustento de uma família.
A Justiça do Trabalho determinou provisoriamente a suspensão dos efeitos das dispensas coletivas, o restabelecimento dos vínculos e benefícios e a manutenção dos planos de saúde. A empresa questionou pontos da decisão, e o conflito segue sendo discutido judicialmente e em mesas de negociação.
O caminho precisa ser o diálogo.
Não interessa aos trabalhadores assistir ao fechamento de uma empresa com décadas de história. Também não interessa à sociedade colocar em risco os milhares de empregos que ainda existem.
Mas diálogo exige reconhecer que existe uma urgência social enquanto empresa, sindicatos e Justiça procuram uma solução.
Quando mais de 200 reclamações chegam a uma entidade sindical em poucas semanas, já não estamos diante de situações isoladas. Estamos diante de um alerta.
Uma empresa pode renegociar suas dívidas. Pode reorganizar sua operação, rever sua estrutura e construir um plano para atravessar uma crise.
Uma família não dispõe dos mesmos instrumentos.
Por isso, qualquer solução para as Casas Bahia precisa olhar não apenas para a recuperação da companhia, mas também para aqueles que participaram de sua história.
É preciso, portanto, que os responsáveis pelas Casas Bahia apresentem aos trabalhadores respostas claras sobre como e quando seus direitos serão pagos. Não é razoável que milhares de pessoas permaneçam sem saber quando receberão valores que lhes pertencem e dos quais dependem para sustentar suas famílias.
Quem toma decisões dentro de uma grande companhia precisa compreender que elas chegam à mesa das famílias brasileiras. Enquanto a empresa busca caminhos para reorganizar suas dívidas, há mães e pais enfrentando a angústia de não saber como pagar as contas, manter um tratamento médico ou garantir o básico dentro de casa.
Virar as costas para esse sofrimento não é uma solução. Respeitar os trabalhadores significa assumir responsabilidades, apresentar respostas e construir uma saída concreta para o pagamento de seus direitos.
A empresa precisa de tempo para se recuperar. Há trabalhadores que não podem esperar.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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Fonte: Congresso em Foco