A coragem de dizer o que muitos preferem calar

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Por Pedro Benedito Maciel NetoBrasil 247

Há discursos que são feitos apenas para serem aplaudidos, contudo, há discursos que são feitos porque alguém entende que certas coisas precisam ser ditas, ainda que incomodem.

O discurso de Lula na abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas, nesta terça-feira, pertence, a meu ver, a essa segunda categoria.

Não porque seja um discurso perfeito. Não porque todos concordem com cada uma de suas afirmações. E muito menos porque um presidente deva ser poupado da crítica – democracia não funciona assim -, contudo, é preciso reconhecer uma coisa: Lula teve coragem de falar diante do mundo sobre aquilo que muitos líderes preferem contornar.

E fez isso diante do próprio centro do poder internacional.

Dirigiu-se, inclusive, ao secretário-geral António Guterres, que encerra sua passagem pela ONU depois de anos testemunhando o enfraquecimento do multilateralismo, a multiplicação das guerras e a dificuldade das Nações Unidas de impor limites à lógica do poder.

Lula não fez um discurso burocrático, muito pelo contrário.

Disse que a ONU está falhando em sua missão de livrar a humanidade do flagelo da guerra. Criticou o imobilismo do Conselho de Segurança. Questionou o direito de veto das grandes potências e lembrou que o Brasil já alertava, desde 1946, para os riscos de entregar a poucos países o poder de bloquear decisões da maioria, um importante resgate histórico, foi uma afirmação dura.

Mas é também uma afirmação que está no centro do problema contemporâneo: como construir uma ordem internacional baseada em regras quando aqueles que deveriam fazer cumprir as regras também podem bloqueá-las?

Lula foi além, ele disse que as concessões à lei do mais forte passaram dos limites e produziu uma frase que merece ser lembrada: “A guerra não é a continuação da política por outros meios. É a falência total da política.”

Pode-se concordar ou discordar da formulação. Mas não há como negar sua clareza.

Num mundo acostumado a transformar guerras em estatísticas, territórios em zonas de influência e vidas humanas em danos colaterais, Lula recolocou a política no seu lugar original: o lugar da negociação, da diplomacia e da tentativa de evitar que a força substitua a razão.

Também não se escondeu diante da tragédia do Oriente Médio.

Condenou os atos terroristas do Hamas contra civis israelenses e, ao mesmo tempo, denunciou o sofrimento dos palestinos em Gaza e defendeu a solução de dois Estados. Criticou os assentamentos na Cisjordânia, defendeu o Tribunal Penal Internacional e afirmou que seus integrantes não podem ser perseguidos por cumprir sua função.

Mais uma vez, escolheu um caminho que não é confortável, seria mais fácil escolher um lado absoluto do que reconhecer que há vidas humanas dos dois lados e é justamente aí que a diplomacia se torna difícil.

O mesmo aconteceu quando Lula falou da América Latina: “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”, a frase recebeu aplausos na Assembleia.

Mais importante do que a frase, porém, é o princípio que ela expressa: soberania não significa hostilidade, significa que países independentes têm o direito de construir seus próprios caminhos.

O Brasil pode e deve cooperar com os Estados Unidos, com a China, com a Europa, com nossos vizinhos latino-americanos e com qualquer país disposto ao diálogo, mas cooperação não é submissão, aliança não é tutela e, por fim, amizade entre nações não exige que uma delas aceite ocupar posição subalterna.

Lula também falou de crime organizado, inteligência artificial, clima, fome, desigualdade, regulação das grandes plataformas digitais, transição energética, trabalho e reforma da governança internacional.

Pode-se discutir cada uma dessas propostas – e devemos discuti-las -, mas há algo maior no conjunto do discurso: a tentativa de recolocar a política no comando da história.

Em tempos nos quais grandes corporações tecnológicas possuem poder extraordinário, guerras são decididas por governos que dispõem de arsenais capazes de destruir países inteiros e as redes sociais permitem que a mentira circule em velocidade superior à capacidade de investigação dos fatos, a política não pode simplesmente assistir, precisa regular, estabelecer limites e, sobretudo, recuperar a capacidade de imaginar um mundo diferente daquele que os poderosos dizem ser inevitável.

Talvez seja essa a maior coragem do discurso de Lula. Não a coragem de enfrentar este ou aquele governo, mas a coragem de dizer, diante dos donos do poder, que o mundo não precisa aceitar como natural aquilo que é apenas resultado de relações históricas de poder.

O Conselho de Segurança pode ser reformado; a governança internacional pode ser democratizada; a diplomacia pode voltar a ocupar o lugar que hoje é ocupado pelas armas; a pobreza não precisa ser aceita como destino; a fome não precisa existir em um planeta que produz alimentos suficientes; a tecnologia não precisa estar acima da sociedade e a soberania dos países do Sul Global não precisa ser tratada como concessão das grandes potências.

São posições políticas. E, justamente por serem políticas, podem e devem ser debatidas.

Mas há uma diferença entre discordar de uma ideia e fingir que ela não foi apresentada.

O discurso de Lula não fugiu do debate, ao contrário, ele colocou sobre a mesa questões que incomodam porque mexem com interesses concretos e talvez seja exatamente isso que se espera de um presidente quando sobe à tribuna mais importante da diplomacia mundial.

Não que agrade a todos, não que seja unanimidade, mas que tenha algo a dizer, que diga com clareza e que tenha disposição para dizer diante dos poderosos aquilo que diria diante dos seus.

Num tempo de guerras, unilateralismos, nacionalismos agressivos, desigualdade e descrença nas instituições multilaterais, talvez a primeira condição para reconstruir alguma esperança seja esta: não aceitar o silêncio como sinônimo de prudência.

Há momentos em que a prudência aconselha esperar e há momentos em que esperar é simplesmente permitir que o poder continue fazendo aquilo que sempre fez, na ONU, Lula escolheu falar e falou de frente.

Isso, por si só, merece ser compreendido e debatido.

Fonte: Brasil 247

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