“A conversa de que a questão fiscal opõe um Lula gastador a um Flávio Bolsonaro austero é balela”, diz Miriam Leitão

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Por Dayane Santos — Brasil 247

247 – As propostas econômicas de Flávio Bolsonaro (PL) para 2027 apresentam contradições entre o discurso de austeridade e os compromissos assumidos durante a campanha presidencial. Em coluna publicada no jornal O Globo, a jornalista Miriam Leitão questiona como o senador pretende promover um ajuste fiscal de R$ 200 bilhões no primeiro ano de governo enquanto promete ampliar benefícios, manter despesas e reduzir impostos.

“A conversa de que a questão fiscal opõe um Lula gastador a um Flávio Bolsonaro austero é balela”, afirma Miriam. Para ela, as promessas do senador não apresentam coerência suficiente para sustentar a imagem de rigor fiscal que o mercado financeiro passou a associar à sua candidatura.

Promessas de Flávio contradizem plano de corte de gastos

O senador anunciou que pretende reduzir as despesas públicas entre R$ 150 bilhões e R$ 200 bilhões no primeiro ano de um eventual governo. Entretanto, as medidas que vem defendendo durante a campanha apontam para compromissos que podem ampliar os gastos e diminuir a arrecadação.

Flávio prometeu reajustar as aposentadorias acima da inflação, manter o aumento real do salário mínimo, preservar as emendas parlamentares e reduzir impostos. Sua equipe também descartou a realização de privatizações.

“O que Flávio tem dito não fica de pé”, escreve a jornalista, ao questionar como o candidato pretende reduzir despesas sem esclarecer quais gastos serão cortados e, simultaneamente, assumir compromissos que pressionam as contas públicas.

“É enrolação. Ou ele está mentindo para o eleitor ou está mentindo para o mercado financeiro”, acrescenta a jornalista, afirmando que sem detalhar as despesas que pretende reduzir, as medidas necessárias e os efeitos de suas promessas sobre as receitas, Flávio não demonstra como pretende compatibilizar o corte anunciado com o programa apresentado ao eleitorado.

Mercado aposta em ajuste fiscal sem conhecer o plano

A expectativa de que um eventual governo Flávio Bolsonaro adotaria uma política econômica mais austera passou a influenciar as avaliações do mercado financeiro. Segundo Miriam, investidores vêm reagindo à perspectiva de redução de gastos sem conhecer os detalhes de como essa política seria implementada.

A jornalista cita a avaliação de um economista de banco, que resume a disposição de parte do mercado em relação à disputa presidencial: “O mercado daria o benefício da dúvida a qualquer um que fosse contra o Lula”.

Economista questiona promessa de “tesouraço”

A desconfiança em relação à proposta de Flávio também aparece na avaliação de Sérgio Vale, economista da MB Associados, reproduzida na coluna. Ele considera que o mercado já incorporou a expectativa de um forte ajuste fiscal em um eventual governo do senador, embora não exista detalhamento suficiente para confirmar como isso ocorreria.

“O mercado já estava com essa ideia comprada de que Flávio Bolsonaro vai fazer um belo ajuste fiscal e o Lula não vai fazer. A gente sabe que não é necessariamente assim, porque a história da família Bolsonaro com ajuste fiscal não é positiva”, afirmou Vale.

O economista também questiona a credibilidade dos anúncios genéricos de cortes feitos durante a campanha eleitoral.

“O ‘tesouraço’ é história para o eleitor ver, contada em período eleitoral e não significa nada. Mágica para 2027 é difícil de acontecer”, declarou.

Como alternativa, Vale avalia que uma redução moderada no ritmo de crescimento das despesas já poderia representar um sinal relevante de compromisso com o equilíbrio das contas. Ele menciona a possibilidade de diminuir de 2,5% para 1,5% o crescimento real dos gastos permitido pelo arcabouço fiscal.

Reforma tributária também entra na disputa

Miriam Leitão destaca ainda os riscos envolvidos na proposta de Flávio Bolsonaro de acabar com o split payment, mecanismo previsto na reforma tributária para permitir o recolhimento dos impostos no momento da liquidação das operações.

A reforma sobre o consumo foi uma das principais mudanças estruturais aprovadas durante o governo Lula. A iniciativa prevê a criação da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), de competência federal, e do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), compartilhado por estados e municípios.

A alíquota combinada deverá ser elevada, segundo a análise da jornalista, em parte devido às concessões feitas durante a tramitação no Congresso Nacional a setores que pressionaram para pagar menos impostos.

O split payment tem como objetivo reduzir a sonegação e impedir que empresas deixem de recolher aos cofres públicos os tributos cobrados dos consumidores. A retirada do mecanismo, portanto, poderia comprometer a eficiência do novo sistema de arrecadação.

A coluna ressalta a importância da reforma, resultado de uma discussão que atravessou décadas no país. Ao tratar do tema, Miriam afirma que o governo Lula utilizou seu capital político inicial para aprovar uma mudança tributária necessária, mas que sofreu alterações em razão dos interesses representados no Congresso.

O debate mostra que o equilíbrio fiscal não depende apenas de cortar despesas. A capacidade de arrecadar os tributos devidos, combater a sonegação e preservar mecanismos de financiamento do Estado também é fundamental para a sustentabilidade das contas públicas.

Candidato age como vencedor antes da decisão das urnas

A análise também aborda a postura política de Flávio Bolsonaro após o primeiro turno. Segundo a coluna, o senador passou a agir como se a vitória estivesse garantida, ao falar em mudanças na Constituição para “redemocratizar” o país, convidar o presidente da Colômbia para a posse e defender o aumento do mandato presidencial antes mesmo de receber um novo mandato das urnas.

A movimentação de aliados em torno da distribuição de cargos também alimenta a percepção de antecipação de um resultado que ainda depende da decisão dos eleitores.

Miriam observa que o candidato que sai na frente no primeiro turno tende a ser considerado favorito. A primeira pesquisa Datafolha mencionada no artigo indicou uma ampliação da vantagem de Flávio sobre Lula, mas a jornalista ressalta que a disputa não está decidida.

No campo econômico, a antecipação de uma vitória pode reforçar expectativas sobre a política que seria adotada por um eventual governo. O problema, segundo a análise, é que o mercado já reage à promessa de austeridade sem que o candidato tenha explicado como pretende realizá-la.

Fonte: Brasil 247

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