A caverna encontrada em Vênus pode ser uma abertura para antigos tubos de lava e ajuda cientistas a entender como o vulcanismo moldou o planeta
Por Tamiles Santos Brito — Catraca Livre
Uma caverna em Vênus identificada por meio de dados de radar pode ser a primeira evidência de um tubo de lava aberto no subsolo do planeta. A estrutura fica na encosta oeste do vulcão-escudo Nyx Mons e foi encontrada décadas depois de os dados serem coletados pela missão Magellan. O resultado é importante porque oferece uma nova maneira de investigar o vulcanismo venusiano, mas a estrutura ainda não foi explorada diretamente por uma sonda.
Onde está a possível caverna de Vênus?
A estrutura fica na encosta oeste de Nyx Mons, um vulcão-escudo com cerca de 362 quilômetros de diâmetro. Os pesquisadores concentraram a análise em uma depressão identificada como “Pit A”, localizada em uma região que já apresenta várias cadeias de colapsos na superfície. O ponto chamou atenção porque seu retorno de radar era diferente do observado em outras depressões próximas.
Na imagem da Magellan, Pit A apresenta uma sombra bem definida e um retorno de radar brilhante e assimétrico que se prolonga para além da borda da abertura. Esse padrão é semelhante ao produzido quando ondas de radar entram em uma cavidade subterrânea por uma abertura no teto, conhecida como skylight. A análise se soma ao que já se sabe sobre tubos de lava em Vênus, estruturas que durante décadas foram consideradas possíveis, mas não haviam sido identificadas dessa maneira.
Como o radar conseguiu indicar um túnel que não pode ser visto?
O método usa a forma como o radar de abertura sintética (SAR) da Magellan registra os sinais que retornam depois de atingir a superfície. Como Vênus é coberto por uma atmosfera extremamente densa e nuvens que impedem a observação óptica direta do solo, o radar é fundamental para estudar sua superfície. No caso de Pit A, os pesquisadores aplicaram uma técnica desenvolvida para reconhecer, a partir de imagens SAR, sinais associados a cavidades acessíveis por uma abertura.
O sinal anômalo permitiu estimar que a abertura mede aproximadamente 1.545 por 1.070 metros, com profundidade de colapso de cerca de 450 metros. O radar conseguiu acompanhar o interior do possível conduto por pelo menos 300 metros. A partir desses dados, os pesquisadores estimaram uma largura média próxima de 938 metros, teto com pelo menos 150 metros de espessura e um vazio interno de aproximadamente 375 metros. Uma análise anterior sobre a estrutura subterrânea de Nyx Mons também ajuda a contextualizar por que as antigas imagens da Magellan continuam sendo úteis para investigar o planeta.
Por que essa estrutura pode ser um tubo de lava?
A interpretação se baseia principalmente na assinatura de radar da abertura e na continuidade subterrânea indicada pelos sinais. Na Terra, tubos de lava se formam quando o exterior de um fluxo solidifica enquanto a lava continua escoando por dentro; depois que o material interno deixa o canal, pode permanecer um túnel. Quando parte do teto desaba, surge uma abertura superficial. Em Pit A, o padrão observado pelo radar é semelhante ao encontrado em estudos de estruturas desse tipo na Terra.
A sequência de depressões também fornece uma pista adicional. Pit A integra uma cadeia sinuosa que acompanha a direção do declive do terreno, uma configuração compatível com um possível sistema de tubos de lava. A partir da distribuição das estruturas, os pesquisadores estimam que o conduto possa se estender por pelo menos 45 quilômetros, embora essa extensão seja uma inferência e não uma galeria observada integralmente. O artigo publicado na Nature Communications ressalta ainda que uma origem associada a diques subterrâneos não pode ser completamente descartada, embora a assinatura observada seja mais consistente com a hipótese de um tubo de lava.
O que essa possível caverna revela sobre o vulcanismo de Vênus?
Se a interpretação estiver correta, o tubo preserva uma evidência de que fluxos de lava muito volumosos e duradouros moldaram o subsolo de Vênus. Cavidades desse tipo ajudam a reconstruir não apenas onde a lava passou, mas também como ela se movimentou, quanto tempo determinados canais podem ter permanecido ativos e como o resfriamento dos fluxos modificou a paisagem. Isso acrescenta uma dimensão subterrânea ao registro vulcânico que normalmente é estudado pelas formas visíveis na superfície.
É importante, porém, separar o que foi observado do que foi inferido. Nenhuma sonda entrou nessa caverna, e os pesquisadores não fizeram uma exploração direta do interior; as dimensões e a existência do vazio foram estimadas a partir da resposta do radar da Magellan. Estudos da NASA já mostram que os dados dessa missão continuam revelando mudanças e estruturas vulcânicas em Vênus, enquanto futuras missões com radares mais avançados poderão testar melhor hipóteses como essa. Por enquanto, a estrutura de Nyx Mons representa uma forte evidência remota de um possível tubo de lava e uma nova pista sobre a história vulcânica do planeta.
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Fonte: Catraca Livre