A Amazônia ferve e quem vive nela paga o preço

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Por Adilson Vieira e Brenda KauanneInfoAmazonia

Na Amazônia, o calor sempre fez parte da vida. Está nos horários de trabalhar na roça, na procura pela sombra, na arquitetura das casas, no descanso depois do almoço. Mas essa familiaridade não pode servir de desculpa para naturalizar o que estamos vivendo. Existe uma diferença entre habitar uma região quente e ter as condições de existência ameaçadas pelo aumento das temperaturas. Quando o calor compromete a saúde, o trabalho e a possibilidade de permanecer no território, estamos diante de uma questão política.

O termômetro registra a temperatura, mas não revela sozinho a dimensão do problema. É preciso perguntar quem pode interromper o trabalho, quem encontra sombra, quem tem água em casa e quem consegue pagar a energia necessária para dormir em um ambiente menos quente. A emergência climática ganha formas distintas conforme a renda, a moradia, a ocupação e o acesso aos serviços públicos. Sua distribuição acompanha desigualdades que a sociedade brasileira conhece há muito tempo. A Organização Mundial da Saúde destaca que a vulnerabilidade ao calor depende tanto de fatores fisiológicos quanto da ocupação e das condições socioeconômicas; trabalhadores ao ar livre e populações urbanas e rurais pobres estão entre os grupos mais expostos. 

Existe uma diferença entre habitar uma região quente e ter as condições de existência ameaçadas pelo aumento das temperaturas.

Adilson Vieira e Brenda Kauanne, da Rede de Trabalho Amazônico (GTA)

A ideia de que as populações amazônicas estão acostumadas ao calor é perigosa. A adaptação cultural ao clima não torna o corpo imune ao adoecimento. Temperaturas elevadas podem provocar exaustão térmica, sobrecarregar o coração e os rins e agravar doenças preexistentes. Para quem depende do trabalho diário, proteger-se também pode significar perder renda. Por isso, a recomendação de evitar esforço nas horas mais quentes precisa vir acompanhada de água, pausas, proteção social e condições adequadas de trabalho. 

Nas cidades amazônicas, o calor precisa ser discutido junto com a política habitacional e o planejamento urbano. Faltam árvores, praças e espaços públicos de proteção em muitos bairros. Nos territórios indígenas, ribeirinhos, quilombolas e extrativistas, o aumento das temperaturas se combina com a seca, a redução dos rios e a dificuldade de acesso a serviços. Em ambos os casos, a proximidade da floresta não garante proteção: uma casa mal ventilada ou um rio impossibilitado de navegação podem transformar o calor em ameaça cotidiana. A OMS observa que moradias de baixa qualidade, falta de áreas verdes e dificuldade de acesso ao resfriamento ampliam a exposição ao calor. 

O calor também aparece na fumaça. O Ministério da Saúde explica que o aumento das temperaturas globais e as secas prolongadas favorecem incêndios mais frequentes e intensos. A fumaça pode transportar partículas finas, partículas grossas, monóxido de carbono e outros gases tóxicos por distâncias muito maiores que o local do fogo. Seus efeitos incluem irritação das vias respiratórias, agravamento de asma e bronquite e aumento dos riscos cardiovasculares. Crianças pequenas, idosos, gestantes e pessoas com doenças preexistentes estão entre os grupos mais vulneráveis

A seca de 2023 mostrou como a redução dos níveis dos rios pode interromper deslocamentos e isolar comunidades. Onde a circulação depende da água, o comprometimento da navegação atinge o acesso a alimentos, atendimento e serviços. A crise ambiental atravessa o cotidiano por inteiro. Sinais recentes reforçam a necessidade de não tratar a seca de 2023 como um episódio isolado. Os dados de monitoramento devem orientar a preparação para novos períodos de estiagem, sem esperar que os rios atinjam novamente níveis críticos para agir. 

Rio Solimões durante a seca de 2024. Foto: Jullie Pereira/InfoAmazonia

A seca severa que atingiu a Bacia Amazônica em 2023 ajuda a tornar essa cadeia visível. Segundo o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), todos os países da bacia registraram, entre julho e setembro daquele ano, as menores precipitações para o período em mais de 40 anos. No Amazonas, 59 dos 62 municípios estavam em situação de emergência em outubro de 2023, alcançando cerca de 600 mil pessoas

Esses números não descrevem apenas uma anomalia ambiental. Eles descrevem uma interrupção da vida cotidiana. O Serviço Geológico do Brasil (SGB) registrou que os níveis reduzidos dos rios podem afetar o abastecimento, a navegação e a estabilidade das margens, além de provocar impactos ecológicos, como a mortandade de peixes associada ao menor espaço de circulação, à maior concentração de matéria orgânica e ao aumento da temperatura da água 

Em julho de 2024, a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) declarou situação de escassez hídrica nos rios Madeira e Purus. As chuvas abaixo da média durante o período chuvoso, somadas à continuidade da estiagem, mantiveram os rios próximos dos valores mínimos históricos. A agência destacou que a navegação é fundamental não apenas para o transporte de cargas, mas também para levar saúde, educação, alimentos, medicamentos e combustíveis a comunidades amazônicas. Em uma região onde o rio é estrada, a seca é também uma crise de mobilidade e de acesso a direitos. 

Em uma região onde o rio é estrada, a seca é também uma crise de mobilidade e de acesso a direitos.

Adilson Vieira e Brenda Kauanne, da Rede de Trabalho Amazônico (GTA)

É fundamental compreender a relação entre calor e seca sem tratar fenômenos diferentes como se fossem a mesma coisa. A escassez de chuva tem múltiplos fatores, mas temperaturas maiores aumentam a demanda evaporativa da atmosfera e podem agravar a perda de água. O El Niño altera a circulação atmosférica e os padrões de chuva e temperatura e contribuiu para condições mais quentes e secas em partes da Amazônia no episódio de 2023-2024. Isso não significa, porém, que ele explique sozinho a gravidade do evento. 

A Organização Meteorológica Mundial chama atenção para a combinação entre o fenômeno e o aquecimento provocado pelas atividades humanas: o El Niño pode intensificar um extremo em determinado período, mas ocorre sobre um planeta que já está mais quente. Em 2023, oito estados brasileiros registraram seus menores volumes de chuva de julho a setembro em mais de 40 anos, e o Rio Negro, em Manaus, atingiu o menor nível desde o início das observações, em 1902. 

Ao analisar 2023, a rede científica World Weather Attribution estimou que o aquecimento global tornou cerca de 30 vezes mais provável a seca agrícola, medida por um índice que considera precipitação e evapotranspiração potencial. O estudo identificou o aquecimento global como o principal fator na severidade daquele evento, para além da influência do El Niño.

A floresta também tem limites. Sua capacidade de reciclar água e ajudar a regular o clima depende da integridade dos ecossistemas. Aquecimento, secas, desmatamento e incêndios interagem. Um estudo publicado na revista Nature, em 2024, estimou que entre 10% e 47% das florestas amazônicas poderão estar expostas, até 2050, a perturbações combinadas capazes de desencadear transições ecológicas. Essa estimativa expressa um risco condicionado às pressões sobre a floresta, não uma sentença inevitável. É justamente por isso que as decisões tomadas agora importam. 

Nesse debate, precisamos enfrentar a origem do aquecimento. A queima de combustíveis fósseis e o desmatamento estão entre as causas do colapso climático que agravou a seca amazônica. Defender a floresta exige agir sobre ambas. A Amazônia não pode ser convocada a ajudar a estabilizar o clima enquanto se aceita como permanente a expansão de uma economia que o desestabiliza.

É nessa relação que precisamos aproximar o debate sobre combustíveis fósseis da experiência concreta das populações. O calor precisa entrar na discussão sobre energia, transporte, saúde e responsabilidade empresarial. As escolhas sobre motores, combustíveis e investimentos têm consequências que ultrapassam os balanços das empresas. Devem ser discutidas por quem vive nos territórios e arca com seus custos.

Uma transição justa precisa alcançar os sistemas de transporte e abastecimento dos quais a população depende. Isso exige cobrar dos fabricantes de veículos pesados, transportadoras, empresas de energia e financiadores metas verificáveis de redução de emissões, investimentos e prazos. Exige também financiamento, infraestrutura e políticas públicas que tornem as alternativas acessíveis. Projetos apresentados como soluções climáticas não podem ser impostos aos territórios nem transferir novamente para as populações locais os custos de uma crise que elas não produziram.

Uma transição justa deve ampliar direitos e autonomia. As comunidades devem poder definir prioridades, conhecer os impactos e acompanhar os resultados. A qualidade de uma política climática também se mede pelo poder que ela entrega às pessoas para decidir sobre o próprio futuro.

É nesse ponto que o calor nos faz uma pergunta política: quem é considerado capaz de responder à crise? Quem está no território é quem primeiro sente e quem primeiro age. As organizações de base não são apenas destinatárias de políticas públicas ou fontes ocasionais de relatos. Elas produzem conhecimento, organizam solidariedade e constroem soluções em condições que muitas vezes não aparecem nos mapas nacionais de risco. 

Ao mesmo tempo, a proteção contra o calor exige ação imediata. Defendemos planos permanentes que articulem saúde, educação, trabalho, habitação e defesa civil. Isso inclui escolas e unidades de saúde com conforto térmico, abastecimento seguro de água, arborização, proteção aos trabalhadores e alertas que alcancem também os territórios distantes dos centros urbanos. O orçamento público precisa incorporar o calor como um problema duradouro.

Os conhecimentos amazônicos são indispensáveis a essa resposta. As formas de construir, cultivar, manejar a floresta e organizar o trabalho oferecem referências que precisam dialogar com a pesquisa científica. Esse reconhecimento deve assegurar recursos e participação, sem transformar a capacidade de resistência das comunidades em justificativa para a ausência do Estado.

Responder à emergência climática não pode significar somente aumentar o número de alertas ou enviar ajuda depois que o rio já baixou. É preciso garantir abastecimento e transporte em períodos de estiagem, fortalecer a atenção à saúde nos territórios, proteger os sistemas alimentares locais, apoiar a agricultura familiar, ampliar o monitoramento comunitário e assegurar que povos e comunidades participem das decisões sobre adaptação. 

A emergência climática coloca em disputa as condições de continuar vivendo na Amazônia. Cada decisão sobre floresta, energia, transporte e cidade participa dessa disputa. Precisamos reduzir as emissões e proteger as pessoas agora, com responsabilidades definidas e compromissos que possam ser cobrados.

O calor está nos dizendo que a Amazônia não é um cenário distante diante de uma crise global. É um território habitado, com redes de cuidado, trabalho e conhecimento. Somos a Amazônia porque a crise não acontece sobre uma paisagem vazia: acontece na vida de pessoas concretas. Escutar essas pessoas não é um gesto complementar de participação. É uma condição para que a resposta climática seja justa, eficaz e capaz de durar depois que as manchetes desaparecerem. 

Quem vive na Amazônia tem direito à sombra, à água, à saúde e ao futuro. Suportar um calor cada vez maior não pode se tornar o preço de permanecer em casa.

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Fonte: InfoAmazonia

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