O ônibus da Nutella que quase esvaziou Barolo

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Por Gabriel Andrade — Carta Capital

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Ideias e memórias e de um jornalista apaixonado pelos vinhos e a gastronomia

Criada por um rei e gerida por um banco por 18 anos, a vinícola Fontanafredda testemunhou o êxodo rural e o escândalo do metanol que abalou a Itália. Hoje, a região que mandava seus filhos para linhas de montagem importa talentos do mundo todo

Nas colinas do Piemonte da década de 1980, alguns ônibus corporativos tinham apelido. Roberto Bruno, diretor comercial da Fontanafredda, lembra que os veículos que subiam as colinas para recolher os jovens dos vilarejos tinham a cor do Ferrero Rocher e que todos os chamavam de Super Crema. Desciam para Alba, para a fábrica de chocolate. Quem não embarcava neles pegava a estrada para Turim em direção às linhas de montagem da Fiat. “Ninguém queria ficar lá no Piemonte”, diz Bruno, que trabalha na região há 40 anos e há 35 anos na vinícola histórica de Serralunga d’Alba, cujos rótulos são importados pelo Grupo Wine.

O apelido tinha origem. Supercrema era o nome do creme de avelã e cacau que a Ferrero lançou em 1949 e que, em 1964, passou a se chamar Nutella. A empresa criou o transporte gratuito para quem morava fora de Alba. Na memória de Bruno, o mesmo veículo levava os rapazes para longe das vinhas, que viviam uma crise histórica.

Em março de 1986, garrafas de vinho tinto com a uva Barbera e de branco saídas da cantina Ciravegna chegaram ao mercado com metanol acima do limite legal. O álcool metílico servia para alcançar o teor alcoólico mínimo a custo baixo. Segundo a revista Gambero Rosso, morreram 23 pessoas e 153 foram intoxicadas, com muitos passando meses em internações. Os responsáveis pela vinícola foram condenados à prisão. Durante meses, o Piemonte apareceu no noticiário estrangeiro ao lado da palavra veneno.

Depois do escândalo vieram as colheitas ruins. Choveu na hora errada. Os anos de 1991 e 1992 terminaram sob chuva em setembro quando era época de as uvas florescerem, 1993 repetiu o padrão no fim da colheita e, em 1994, a chuva prolongada comprometeu a maior parte da produção. Foram quatro anos seguidos de Barolo sem estrutura para envelhecer, vendido a quem ainda comprava. Foi nesse intervalo, conta Bruno, que ele pensou em largar o vinho e o cargo na Fontanafredda. “Será que não havia um outro trabalho e uma outra área para ganhar dinheiro?”

Diante de safras difíceis ou da busca por vinhos mais acessíveis e macios para o mercado global (especialmente os EUA e o Reino Unido), ressurgiram discussões naqueles anos sobre se a região deveria abrir margem para tolerar pequenas porcentagens de outras uvas (como a Barbera) para corrigir acidez ou amaciar taninos jovens, ou se o 100% Nebbiolo deveria ser rigidamente blindado. “Os produtores mantiveram as regras e isso se provou acertado, porque preservou a história.”

A propriedade onde ele está há 35 anos está ligada à história do vinho dos reis, como é chamado o Barolo, epíteto dado não à toa. Kerin O’Keefe reconstrói a origem no livro Barolo and Barbaresco (University of California Press, 2014). Carlo Alberto, rei da Sardenha, já fazia Barolo nas propriedades reais de Verduno e Pollenzo quando abdicou, em 1849. O filho, Vittorio Emanuele II, parava nas estrebarias de Fontanafredda para trocar de cavalo durante as caçadas.

Decidiu plantar Nebbiolo ali e instalar na propriedade os dois filhos que teve com a amante, Rosa Vercellana, a Bela Rosin. Fundou a propriedade em 1858, começou a plantar em 1864 e registrou as terras em nome das crianças, Maria Vittoria e Emanuele Alberto. Um documento no Arquivo de Estado de Turim menciona um “Barolo 1865” e um “Nebiolo Barolo 1868”, com a uva grafada com um b a menos. Os trabalhadores recebiam em moedas de ouro e em mantimentos.

Em 1887, segundo O’Keefe, a vinícola abriu a adega ao público, antes de qualquer outro produtor da região. Ganharam medalhas de ouro em Bruxelas, em 1888, e em Berlim, em 1892. Em 1915 a propriedade empregava duzentos homens, cujas mulheres e filhos moravam ali. A propriedade construiu escola, igreja e um forno comunitário e custeava a previdência dos empregados.

A Primeira Guerra levou milhares de homens às trincheiras. A colheita ficou com as mulheres, as crianças e prisioneiros austríacos. O granizo de 1917 destruiu parte da safra. Houve mudanças no comanda da empresa logo depois do fim da guerra. Os novos donos demitiram a maioria dos trabalhadores e voltaram à mezzadria, a parceria agrícola que O’Keefe descreve como resquício feudal.

Em 1930, a Fontanafredda quebrou . Dois anos depois, o banco Monte dei Paschi di Siena, credor da vinícola, assumiu o controle. Quando a Itália virou uma República, os bens da realeza foram confiscados. O banco, da Toscana, manteve seu controle sobre a vinícola.

Com o comando do banco, a vinícola passou a vinificar separadamente, a partir de 1964, os melhores crus de Barolo. Para comprar uva além da própria, recorria aos intermediários. como Bruno Giacosa, um dos mais famosos produtores de vinho da Itália. Roberto Bruno diz que Giacosa conhecia cada terreno daquelas colinas como poucos, levava a uva das famílias às vinícolas mesmo nos anos em que ninguém queria comprar e tinha os contatos que os pequenos produtores não tinham. Antes de assinar alguns dos Barolos e Barbarescos mais disputados do século, Giacosa mantinha o mercado de uva funcionando. Por isso é reverenciado até hoje por muitos.

Nos anos 1980, enquanto vizinhos transformavam vinhedo em rótulo próprio, a produção da Fontanafredda estagnou. Na década seguinte, o nome passou a ser sinônimo de vinho de gôndola de supermercado. Em 1996, segundo O’Keefe, os gestores do Monte dei Paschi admitiram que banqueiros não sabiam tocar uma fazenda e contrataram o agrônomo Giovanni Minetti para refazer vinhedo , adega e imagem. Vieram mudanças. A vinícola encampou o movimento de criar espumante de alta qualidade a partir das colinas, um segmento que tem crescido, segundo Roberto Bruno.

Em 2008, Oscar Farinetti, dono da Eataly, e o sócio Luca Baffigo compraram o controle num negócio que avaliou a propriedade em 90 milhões de euros, segundo a revista Wine Spectator. Hoje a empresa informa ter 120 hectares de vinhedos com certificação orgânica. “Vivi a realidade em que a gestão era quase estatal e depois da aquisição, são dois momentos bem diferentes, ali era engessado, hoje se ganhou flexibilidade” , diz Bruno, cuja rotina é marcada por cerca de 200 voos por ano. “Antes era dificílimo vender barolo ou os vinhos do piemonte, hoje a realidade é outra.”

Em 2016, a Vietti, tradicional vinícola de Castiglione Falletto, um dos 11 terroirs cujas uvas integram a denominação de Barolo, foi comprada por uma família dos Estados Unidos. O valor não foi divulgado. O jornal La Stampa falou em cerca de 55,6 milhões de dólares. Bruno diz que hoje seria muito mais. “Um hectare pode valer mais de 2 milhões de euros, grupos de luxo da França e outros países estão de olho.”

A reviravolta econômica reescreveu a paisagem humana: se antes havia êxodo rumo às linhas de montagem de chocolates ou carros, hoje se vive uma explosão turística que inverteu o fluxo migratório. A região passou a atrair profissionais do exterior e de outras partes do país para sustentar a cadeia enogastronômica, diz Bruno. A guinada reflete-se na infraestrutura erguida nas últimas décadas, com dezenas de hotéis boutique e uma densidade maior de alta cozinha — contando hoje com cerca de 15 restaurantes estrelados pelo Guia Michelin em um raio de apenas 20 quilômetros ao redor de Alba.


Roberto Rockmann

Jornalista especializado em energia. Apaixonado por vinho e gastronomia, área em que teve Mino Carta como mentor, mantém os sites pisandoemuvas.com e vinhosemsegredo.com

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Fonte: Carta Capital

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