Dark Horse: delator aponta fraude em repasse de US$ 12,3 milhões a fundo nos EUA ligado a Eduardo Bolsonaro
Por Redação Brasil 247 — Brasil 247
247 – O empresário Antônio Carlos Freixo Júnior, dono da Entre Investimentos, relatou à Polícia Federal (PF) uma possível fraude envolvendo a transferência de US$ 12,3 milhões a um fundo criado nos Estados Unidos por Paulo Calixto, advogado do deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro. Em seu primeiro depoimento após firmar acordo de delação premiada, ele afirmou acreditar que os recursos seriam aplicados em empreendimentos imobiliários, e não no financiamento do filme Dark Horse, sobre a trajetória do ex-mandatário Jair Bolsonaro (PL).
As informações sobre o depoimento, segundo o jornal O Estado de São Paulo, que teve acesso ao depoimento e a documentos encaminhados pela PF ao Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo a investigação, os pagamentos ocorreram depois de um acerto entre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ), sob a justificativa de financiar a produção cinematográfica.
A versão apresentada pelo empresário, entretanto, despertou questionamentos dos investigadores. Em relatório sobre a colaboração, a PF identificou inconsistências entre suas declarações e documentos assinados pela Entre Investimentos, incluindo um registro que mencionava expressamente a destinação dos recursos ao filme.
“O documento está, assim, em aparente contradição com a afirmação do colaborador de que desconhecia a destinação cinematográfica dos recursos”, registrou a Polícia Federal.
Diante da divergência, os investigadores solicitaram autorização para ouvir novamente Freixo Júnior e esclarecer as circunstâncias das transferências.
PF identifica repasses de R$ 72 milhões ao exterior
Os documentos apresentados pelo colaborador apontam que a Entre Investimentos transferiu US$ 12,3 milhões ao fundo Havengate entre fevereiro e setembro de 2025. Segundo a PF, as remessas corresponderam a aproximadamente R$ 72 milhões, enquanto o empresário recebeu R$ 90 milhões em pagamentos realizados no Brasil.
Freixo Júnior afirmou que os recursos utilizados nas operações tinham origem no Banco Master. De acordo com seu relato, depois de efetuar as transferências internacionais, recebia pagamentos em território brasileiro para compensar os valores enviados ao exterior.
O empresário sustentou que realizou as operações a pedido de Daniel Vorcaro, que teria enfrentado dificuldades relacionadas a uma conta internacional de seu cunhado, Fabiano Zettel.
A justificativa apresentada era que a Entre Investimentos faria temporariamente a subscrição de cotas de um fundo imobiliário, com a expectativa de transferir posteriormente os investimentos para Vorcaro ou para o Banco Master, assim que a situação cadastral fosse regularizada.
No depoimento, Freixo negou ter conhecimento prévio de qualquer relação entre a operação e a produção cinematográfica sobre Jair Bolsonaro.
“Em momento algum lhe foi informado que os recursos se destinavam ao financiamento de um filme ou cinebiografia, ressaltando que jamais aceitaria participar de uma operação com esse viés em razão do elevado risco reputacional para seu portfólio de empresas”, declarou Freixo, conforme o termo de colaboração.
Empresário diz que confiou em Daniel Vorcaro
Freixo Júnior afirmou que a operação foi realizada com base na relação de confiança que mantinha com o proprietário do Banco Master. Segundo ele, a participação da Entre Investimentos seria provisória, até que fosse possível regularizar a titularidade das cotas.
“A subscrição ocorreu em nome da Entre Investimentos com base na reação de confiança mantida com Daniel Vorcaro, havendo a perspectiva informal de que, após a regularização cadastral, a titularidade das cotas seria transferida para a pessoa física de Daniel ou para o Banco Master, sem a formalização de side letter”, afirmou.
A declaração indica que não havia um instrumento contratual complementar formalizando a futura transferência das cotas, embora o empresário tenha sustentado que existia um entendimento informal nesse sentido.
A Polícia Federal, porém, considera necessário aprofundar a apuração sobre o conhecimento que Freixo Júnior tinha da finalidade dos pagamentos. O documento identificado pelos investigadores, com referência ao financiamento do filme, contraria parte de sua narrativa e motivou o pedido de um novo depoimento.
Delator afirma que descobriu finalidade do fundo pela imprensa
Outro ponto apresentado pelo empresário diz respeito ao momento em que teria descoberto a ligação entre o fundo Havengate e o projeto cinematográfico.
Freixo Júnior declarou que somente tomou conhecimento da suposta finalidade dos recursos depois da publicação de reportagens sobre o caso.
Segundo sua versão, ao descobrir que os valores poderiam ter sido destinados à produção audiovisual, decidiu solicitar formalmente a restituição do investimento e informações sobre a situação financeira do fundo.
“Tomou conhecimento do verdadeiro propósito do fundo e da destinação dos recursos para a produção audiovisual apenas após a veiculação de matérias pela imprensa. Que diante dos fatos expostos, adotou os procedimentos formais de investidor ao encaminhar e-mails de notificação solicitando o resgate integral dos valores e a apresentação do balancete demonstrativo dos investimentos do fundo, não obtendo resposta dos gestores”, destaca um trecho do depoimento.
De acordo com o relato, os responsáveis pela administração do fundo não responderam às solicitações de devolução dos recursos nem aos pedidos de apresentação dos demonstrativos financeiros.
A ausência de resposta também integra os elementos apresentados pelo colaborador para sustentar sua alegação de que desconhecia a destinação efetiva do dinheiro.
Flávio e Eduardo Bolsonaro são investigados
A investigação envolve os irmãos Flávio e Eduardo Bolsonaro e busca esclarecer as circunstâncias dos pagamentos ao fundo constituído nos Estados Unidos, a origem dos recursos e sua eventual vinculação ao financiamento de Dark Horse.
A Polícia Federal encaminhou ao STF a documentação reunida nas diligências realizadas nas últimas semanas, acompanhada de pedidos para ampliar a coleta de provas.
Entre as providências solicitadas está a obtenção de novos documentos que permitam reconstruir o percurso financeiro dos valores transferidos ao exterior e esclarecer a participação dos envolvidos.
Os investigadores também pediram ao ministro André Mendonça a prorrogação do inquérito por mais 90 dias.
A medida permitiria aprofundar a análise das operações e confrontar as informações apresentadas por Freixo Júnior com os registros bancários e contratuais obtidos durante a apuração.
Delação revela novos detalhes sobre operações do Banco Master
O depoimento de Antônio Carlos Freixo Júnior veio a público após a formalização de seu acordo de colaboração premiada com a Procuradoria-Geral da República (PGR). O empresário entregou documentos que relacionam os pagamentos ao fundo Havengate a recursos provenientes do Banco Master.
A documentação apresentada descreve um mecanismo pelo qual a Entre Investimentos realizava remessas internacionais e posteriormente recebia valores no Brasil para cobrir as transferências.
A diferença entre os R$ 72 milhões enviados ao exterior e os R$ 90 milhões recebidos pelo empresário também consta do levantamento da PF, embora as informações divulgadas não esclareçam a composição integral desses pagamentos.
Fonte: Brasil 247