Trump tenta revogar cidadania da deputada Ilhan Omar para barrar sua reeleição
Por Hora do Povo — Hora do Povo

“Não serei silenciada”, assegurou a deputada Ilhan Omar, rebatendo a grotesca armação para deportá-la antes da sua iminente vitória nas urnas
A três semanas das eleições de meio de mandato, a deputada Ilhan Omar, democrata negra e muçulmana de Minnesota, nascida na Somália e naturalizada estadunidense, teve a residência na região de Washington revistada por autoridades federais. Durante a operação, as autoridades bloquearam os acessos e apreenderam caixas com pertences da líder progressista, incluindo seu passaporte, telefone celular, computadores pessoais e cadernos de anotações.
A pretensa “investigação” alega um “problema na documentação de imigração” – jamais encontrado em alguém que está no país há mais de três décadas – revela um único objetivo: revogar sua cidadania e proceder à sua posterior deportação.
Na última segunda-feira (12), agentes do Homeland Security Investigations – o braço investigativo do Serviço de Imigração e Controle de Alfândega dos EUA (ICE) – vasculharam a casa de Omar, enquanto o Departamento de Justiça intimou doze parentes daquela que é reconhecidamente uma das vozes mais críticas às intervenções bélicas e sanguinárias da Casa Branca.
Diante dos sucessivos atropelos, Omar e a liderança do Partido Democrata no Congresso classificaram a operação como “intimidação política” e “retaliação”, qualificando a ação orquestrada por Trump e membros do Partido Republicano como um temor diante do veredito das urnas.
A parlamentar é alvo antigo do mandatário, que já declarou que, se tivesse o poder para isso, desnaturalizaria simplesmente os imigrantes, e acrescentou neste ano que a democrata deveria estar presa e ser mandada de volta à Somália.
A congressista progressista classificou a busca como parte de um esforço destinado a “atingir inimigos políticos e instrumentalizar as forças de segurança federais”. “Não serei silenciada”, assegurou Omar, rebatendo o que considera uma armação para deportá-la diante da iminente vitória nas urnas.
“PRESSÃO PARA CASSAR CIDADANIA DA DEPUTADA NÃO TEM FUNDAMENTO LEGAL”
Seu gabinete assinalou que “a pressão de Trump para cassar sua cidadania e deportá-la não tem nenhum fundamento legal e não possui precedentes”.
“Esta não é uma ação legítima de aplicação da lei”, enfatizou a principal porta-voz de Omar, Jacklyn Rogers, esclarecendo que se trata simplesmente de “uma manobra autoritária para silenciar um oponente às vésperas de uma eleição na qual ele e seu partido serão rejeitados pelos americanos em proporções históricas”.
Quando o chefe do Executivo passa anos pedindo a expulsão de uma adversária e, às vésperas do voto, o aparato federal bate à porta dela, o questionamento deixa de ser jurídico e passa a ser político. A desnaturalização é rara e só pode ser autorizada por um juiz federal. Justamente por isso, a ameaça funciona menos como processo e mais como espetáculo de intimidação: um recado de que a cidadania de quem nasceu fora é condicional, e de que o preço da permanência pode ser o silêncio.
Vários meios de comunicação classificaram o comportamento de Trump como “fascista”, ao descrever o abuso da máquina do Estado para deslegitimar um adversário interno, associar origem a lealdade e transformar o cidadão em devedor da boa vontade do governante. Um parlamentar eleito responde ao eleitorado, não ao presidente. Se a cidadania de uma deputada puder ser posta em dúvida conforme a conveniência da campanha, nenhum naturalizado estará seguro, e nenhuma eleição será plenamente livre.
O governo Trump passou o último ano reativando a desnaturalização, um instrumento legal antes reservado principalmente para criminosos de guerra e suspeitos de terrorismo. Durante décadas, o governo registrou uma média de cerca de 11 casos desse tipo por ano, segundo uma análise do Migration Policy Institute. Desde que Trump retornou ao cargo, o Departamento de Justiça apresentou pelo menos 163 casos e estabeleceu a meta de 250 até outubro. Mas Omar é de longe o alvo mais proeminente dessa insanidade.
Vários aliados de Trump, como a deputada Nancy Mace, da Carolina do Sul, publicaram mensagens clamando por sua “desnaturalização e deportação”. Em sintonia com a enfermidade, o público racista gritou “deportem!”, em um comício republicano em Ohio, depois que o presidente falou sobre Omar e outros imigrantes somalis.
A congressista chegou aos Estados Unidos em 1995, vinda de um campo de refugiados no Quênia, e obteve a naturalização em 2000. A “investigação” busca determinar se a parlamentar ou seu falecido pai alteraram a idade dela na documentação, registrando 17 anos em vez de 18 no momento da solicitação formal. O empenho trumpista fala por si.
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Fonte: Hora do Povo