Rintarô narra em HQ as décadas de penúria por trás dos animes
Por Tiago Souza — Carta Capital
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Produzida pelo diretor de ‘Harlock’ e ‘Metrópolis’, obra mistura memória pessoal e história da animação no Japão
Existe um custo humano inerente a cada produto que consumimos, algo que muitas vezes passa despercebido. Produzir uma animação, mesmo com toda a tecnologia disponível hoje, é uma tarefa quase impossível para uma única pessoa. O que dizer, então, de tempos passados?
Se hoje o Japão é conhecido mundialmente por sua indústria de animes, muito disso se deve aos artistas que enfrentaram inúmeras dificuldades ao longo dessa trajetória. É justamente esse lado da história que revela a HQ Minha Vida em 24 Quadros por Segundo, escrita e ilustrada pelo diretor de animação Rintarô e publicada no Brasil pela Comix Zone.
Em tom autobiográfico, o autor narra a história da animação japonesa, desde seus primeiros passos até o surgimento dos grandes estúdios, passando pela televisão, pelo home video e pelo cinema. Tudo isso sob sua própria perspectiva, a partir das experiências que vivenciou ao longo dessa trajetória.
Rintarô, nascido Shigeyuki Hayashi, ainda era criança quando sua família precisou se refugiar no interior do Japão em decorrência da Segunda Guerra Mundial. Esse episódio é importante para estabelecer um paralelo entre sua trajetória pessoal e o desafio enfrentado pelo povo japonês para reconstruir o país após a devastação da guerra, incluindo suas indústrias culturais.
O fim da guerra deixou o Japão em ruínas, assolado pela escassez, pela inflação e pela crise habitacional. Com o avanço da Guerra Fria, os Estados Unidos passaram a ver o país como um aliado estratégico, contribuindo para a reconstrução da nação asiática.
A HQ retrata esse cenário logo de início, por meio das dificuldades enfrentadas pela família de Rintarô para retomar a vida cotidiana. Muitos desafios estão ligados à trajetória profissional de seu pai, que, na juventude, sonhava em ingressar no ramo cinematográfico, mas acabou se tornando cabeleireiro, sem concretizar a ambição. O período foi marcado por conflitos familiares e pela necessidade de dividir a moradia com outras famílias.
A ambição de ser Disney
Incentivado pelo pai a desenhar desde cedo, Rintarô ingressou ainda jovem no mercado de animação, trabalhando em pequenos estúdios especializados em publicidade. Aos 17 anos, fez um teste para entrar na Toei, que, àquela altura, já havia se consolidado como um grande estúdio — um reflexo do acelerado crescimento da economia japonesa no pós-guerra.
A Toei Company surgiu em meio à Segunda Guerra Mundial e, após uma série de mudanças e fusões, adotou, em 1951, o nome pelo qual é conhecida até hoje. Cinco anos depois, a empresa criou sua divisão de animação, a partir da aquisição do estúdio Nichido Film.
Hoje, a Toei é uma das principais referências da animação japonesa e detém um dos maiores acervos de obras do setor no país. Quando Rintarô ingressou na empresa, em 1958, a ambição era outra: tornar-se a Disney japonesa.
A ambição ajuda a dimensionar o entusiasmo de uma indústria que crescia poucos anos após a destruição provocada pela Segunda Guerra Mundial, incluindo os bombardeios atômicos de Hiroshima e Nagasaki. Nesse contexto, é possível pensar também no cinema como uma forma de elaborar o trauma coletivo, transformando a produção cultural em um instrumento de reconstrução não apenas econômica, mas também humana e psicológica.
O autor também mostra com clareza os desafios da própria animação, independente da guerra. Mesmo já estabelecida, com uma trajetória que passa por nomes como Georges Méliès e Émile Cohl e chega a Branca de Neve e os Sete Anões, de 1937, a animação continuava exigindo tempo, dinheiro e equipes numerosas.
As páginas que mostram os 14 anos do artista na Toei revelam muito disso: salas sempre cheias de funcionários, precarização do trabalho, aumento das horas extras e protestos sindicais.
Autor cresceu dirigindo obras como ‘Capitão Harlock’. Foto: Divulgação/Comix Zone
Tezuka e o custo da TV
Esse cenário não mudou quando Rintarô deixou a Toei e se juntou à Mushi Production, fundada por Osamu Tezuka, considerado o deus do mangá. Embora a remuneração tenha aumentado consideravelmente, como o próprio autor ressalta, o ritmo de trabalho continuou intenso, em grande parte devido à chegada da animação a um novo meio: a televisão.
Ao optar por métodos mais baratos, inspirados no modelo de animação limitada desenvolvido nos Estados Unidos, Tezuka reduzia a quantidade de desenhos necessários para produzir cada episódio. Rintarô aponta, porém, uma estratégia errática da Mushi, que teria comprometido a indústria local. Para conquistar espaço, a empresa oferecia seus produtos a preços baixos, levando os concorrentes a adotar uma estratégia semelhante. A consequência, segundo ele, foi um prejuízo real para os estúdios.
Ainda assim, os novos formatos também trouxeram ganhos legítimos. Rintarô aproveitou a euforia e tornou-se diretor, primeiro de episódios do carro-chefe da Mushi, Astro Boy, depois liderando suas próprias séries e filmes para outras produtoras, como Capitão Harlock: Pirata do Espaço, Harmagedon e Metrópolis.
A esposa que ficou
Havia, contudo, o custo humano, e muitos desistiram ao longo do caminho. O autor da HQ cita em vários momentos dores constantes nas mãos de tanto desenhar e a própria família acaba relegada a segundo plano na obra.
Ao abordar o assunto, o artista relata: “Como eu tinha uma família, a impressão era de que levava uma vida dupla com outra esposa: a animação”. A impressão que fica é a de que ele acabou escolhendo essa segunda esposa. Não se pode afirmar que a separação conjugal, por si só, comprove essa escolha. Mas há algo de significativo no fato de que, ao contar sua história, é à animação que Rintarô dedica sua HQ.
Dessa forma, o resultado é uma vida em 24 quadros por segundo, atravessada pelas grandes transformações da animação japonesa. Uma vida que, no fim das contas, foi dedicada por inteiro àquela segunda esposa, uma HQ primorosa.
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Fonte: Carta Capital