Os avanços à beira do precipício: o fim da escala 6×1 e a eleição
Por Leonardo Miazzo — Carta Capital
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Professor do Departamento de Ciência Política da UFRJ e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFJF
Aqueles que qualificam as medidas recentes do governo como simplesmente eleitoreiras reduzem dinâmicas mais complexas a uma moralidade maniqueísta
O fim da escala 6×1 vai além dos seus efeitos eleitorais mais imediatos. Em tempos nos quais vemos uma sucessiva limitação de direitos nos mais diversos países, aprovar uma melhora nas condições de trabalho de milhões de brasileiros é um movimento incomum, que só foi possível pelo alinhamento da aposta virtuosa de atores como Rick Azevedo e Erika Hilton com a conjuntura crítica das eleições. O encontro entre movimentos certeiros e um cenário aberto permitiu ao governo Lula impor perdas ao capital em favor do trabalho, fato cada vez mais raro.
Em meio à eleição, o evento pode ser lido, contudo, como parte de um movimento mais longo de tomada da agenda do debate público pela esquerda. Depois de um primeiro turno dominado por debates em torno da corrupção no Supremo Tribunal Federal, a política volta ao centro da cena. O protagonismo da esquerda começa com as bets , ganha força com as manifestações e alcança um provável auge com a aprovação da escala 5×2. O fio capaz de ligar os três movimentos é a exposição dos conflitos centrais da disputa eleitoral. Contra a retórica de uma decadência generalizada, que favorece um discurso superficial de oposição entre um sistema apodrecido e uma nova política alheia à ordem dominante, impõe-se a demonstração de que há lados na disputa.
O tom da cobertura eleitoral normalizou a candidatura de ultradireita tanto ao retratá-la como mais um capítulo no longo enredo da corrupção nacional quanto ao tomá-la como um dos dois polos populistas em disputa. O discurso de decadência e a pouca clareza sobre as diferenças entre as coalizões construíram um terreno favorável a Bolsonaro, seja por favorecer o discurso da sua campanha, seja por ser usualmente desconfortável para qualquer governo em busca da reeleição. Poucas coisas são tão negativas para um presidente em busca de continuidade quanto a sensação de corrupção endêmica e crise generalizada.
Retomar os dissensos em torno de temas concretos permitiu à campanha de Lula sair dessa espiral. Mesmo que decisões polêmicas, como o caso das apostas, possam também gerar perda de votos, elas recolocam o governo no controle da agenda, o que lhe possibilitou pautar não somente os temas, mas sobretudo os tempos da eleição. Prejuízos de quem está no poder em razão de sentimentos de crise já existiam quando as redes sociais eram menos influentes, ou ausentes, e não tínhamos uma ultradireita agressiva como opção efetiva, mas tornam-se ainda mais perigosos com a forte aceleração do tempo político.
O fim da jornada 6×1 é, neste sentido, um passo adiante no mesmo movimento. Por mais que a proibição das bets favoreça majoritariamente certas classes sociais, ela explicita com menos clareza os beneficiados. Já em relação à mudança do trabalho, temos uma medida popular que beneficia abertamente os mais pobres e não se restringe à dimensão financeira, pois permite pensar ideais de boa vida. Se, por razões diversas, o governo não foi capaz de oferecer a picanha prometida na eleição de 2022, o aumento no tempo livre de grande parte dos trabalhadores – 40 milhões, segundo André Singer – desenha um Estado capaz de melhorar a rotina da população.
Aqueles que qualificam as medidas recentes do governo como simplesmente eleitoreiras reduzem dinâmicas mais complexas a uma moralidade maniqueísta. Em regimes democráticos, mudanças mais abruptas usualmente exigem a mobilização e a influência das massas, o que nem sempre ocorre. Períodos eleitorais, portanto, são propícios para ações desse tipo, já que amplificam as vozes presentes no debate público. Mais relevante do que o momento das medidas é a afinidade com a trajetória e o imaginário político do candidato, aspecto ausente de algumas das análises mais influentes sobre o tema. Por vezes, estamos diante de um senso comum. Em vários outros casos, contudo, as reações parecem vir mais de interesses contrariados do que de incômodos com a hora da decisão.
As manifestações de rua aumentam a ressonância das propostas, mas também se fortalecem com a movimentação do governo. Receosos do que ocorreu em 2018, com o #EleNão, muitos se mostraram críticos da iniciativa. De fato, por vezes ações políticas geram resultados inesperados, que contrariam as intenções originais de seus atores. O atual cenário não oferece, porém, muitas alternativas, ante o resultado adverso no primeiro turno, a ojeriza de boa parte das elites econômicas e um tom crítico da mídia em relação ao governo. Os movimentos de rua não apenas mobilizam a militância – o que não é de modo algum desprezível-, mas também ocupam o cenário público e demonstram a força de um campo político.
O cenário para uma virada no segundo turno ainda é complexo. Dois requisitos tão difíceis quanto necessários para sua realização já foram, contudo, alcançados: a retomada da agenda da eleição e a mobilização de uma massa crente na vitória do campo democrático. Se o caminho ainda é duro, há hoje muito mais esperança do que poucos dias atrás.
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Fonte: Carta Capital