Após diagnóstico de câncer e mastectomia, moradora da Cidade de Goiás aconselha: “Não tenha medo de se cuidar”

0

Por Mylenna Scheidegger — Jornal Opção

Após diagnóstico de câncer e mastectomia, moradora da Cidade de Goiás aconselha: “Não tenha medo de se cuidar”

O medo ou até mesmo o tabu fazem com que muitas mulheres evitem conhecer o próprio corpo. No consultório, a mastologista e ginecologista Mariana Lobo, do Hospital Mater Dei Goiânia, diz ouvir relatos de pacientes que preferem não fazer o autoexame por receio do que podem descobrir. Para ela, conhecer o próprio corpo é uma forma de perceber mudanças e buscar ajuda médica quando necessário.

“Infelizmente, a gente pega no consultório, ou mesmo conhecidos que falam: ‘Nossa, Deus me livre de colocar a mão no meu peito e achar alguma coisa’. Mas a palpação do autoexame é uma forma da paciente conhecer o próprio corpo”, afirma ao Jornal Opção.

Aparecida Francisca da Silva Espírito Santo, de 44 anos, moradora da Cidade de Goiás, conta que sempre teve o hábito de fazer exames regularmente. Mesmo com o acompanhamento, ela recebeu inicialmente um resultado de biópsia que indicava uma lesão benigna. Meses depois, ao procurar atendimento no Hospital das Clínicas, em Goiânia, uma nova biópsia identificou um tumor maligno.

À reportagem, Cida relatou que o nódulo cresceu rapidamente. Quando percebeu a alteração, ele tinha o tamanho de uma azeitona, mas, ao chegar ao hospital, já estava maior que um limão. O diagnóstico fez com que sua rotina mudasse completamente. Ela precisou passar por uma mastectomia, cirurgia para retirada da mama, e por 15 sessões de radioterapia. Cida não precisou fazer quimioterapia e, atualmente, aguarda a reconstrução mamária.

“Quando eu vi que era maligno, passou pela minha cabeça: vou morrer. É uma sentença”, lembra.

O câncer de mama ocorre quando células anormais se multiplicam de forma descontrolada no tecido mamário. Goiás tem estimativa de 1.890 novos casos da doença em 2026, de acordo com dados da Secretaria de Estado da Saúde de Goiás (SES-GO).

No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima que mais de 70 mil novos casos sejam diagnosticados por ano. A doença também é uma das principais preocupações de saúde pública no mundo, onde cerca de 2,3 milhões de mulheres receberam o diagnóstico em 2022, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Embora a incidência aumente com a idade, mulheres mais jovens também podem desenvolver a doença. Por isso, os especialistas ressaltam que a atenção às mudanças no corpo deve fazer parte dos cuidados com a saúde, independentemente da idade.

Mariana explica que o autoexame não substitui a avaliação médica nem os exames de imagem. A proposta é que a mulher conheça as próprias mamas e consiga perceber quando algo está diferente. A médica orienta que essa observação seja feita também diante do espelho, prestando atenção a mudanças no formato, retrações na pele ou outras alterações que não existiam antes.

Na rotina do consultório, ela atende tanto mulheres que procuram acompanhamento preventivo quanto pacientes encaminhadas por outros médicos após a identificação de nódulos suspeitos. Nesses casos, o histórico de exames também faz diferença. Um nódulo que já vem sendo acompanhado há anos, por exemplo, precisa ser avaliado considerando suas características e possíveis mudanças ao longo do tempo. Nem toda alteração exige uma biópsia, mas cabe ao profissional determinar a necessidade de investigação.

Explicação da realização do autoexame | Foto: Banco Central do Brasil

Sinais de alerta, diagnóstico precoce e casos em mulheres jovens

O mastologista Rubens José Pereira, do setor de Ginecologia e Mama do Hospital Araújo Jorge, explica que o nódulo é um dos principais sinais do câncer de mama, mas não é o único. Retrações na pele, mudanças na textura da mama, secreção pelo mamilo, vermelhidão e nódulos nas axilas também precisam ser avaliados.

“Qualquer alteração desta, é importante procurar um profissional capacitado para poder tentar fazer o diagnóstico. E quanto mais cedo fizer o diagnóstico, maiores são as chances de cura”, afirma ao Jornal Opção.

Embora a doença seja mais frequente após os 50 anos, Mariana Lobo relata que também tem observado casos em mulheres com menos de 40 anos. A investigação nessa faixa etária pode envolver exame clínico e ultrassonografia, conforme os sintomas e a avaliação médica. Isso porque a maior densidade do tecido mamário em mulheres jovens pode dificultar a visualização de algumas lesões na mamografia.

Rubens também observa a presença de pacientes mais jovens no serviço em que atua. Entre os fatores que podem estar associados ao risco da doença, ele cita mudanças nos hábitos de vida, como sedentarismo, obesidade e consumo de bebidas alcoólicas, além de alterações no perfil reprodutivo.

Os especialistas ressaltam que nem todo nódulo é câncer e que a dor nas mamas pode ter causas benignas. Por isso, o mais importante é investigar alterações com um profissional, sem presumir o diagnóstico e sem adiar a consulta por medo do resultado.

À esquerda, o médico mastologista Rubens José Pereira; à direita, a mastologista Mariana Lobo

Para Rubens, descobrir a doença em estágio inicial aumenta as possibilidades de tratamento e pode reduzir a necessidade de procedimentos mais agressivos. O médico destaca o papel da mamografia na identificação de alterações antes que elas provoquem sintomas.

“A mamografia, por exemplo, ela antecipa o diagnóstico de 1 a 2 anos. Então, quanto mais cedo se fizer o diagnóstico, maiores serão as chances de cura, menores serão a toxicidade do tratamento, o sofrimento é bem menor, e inclusive os gastos públicos também serão menores”, afirma.

O mastologista reconhece que o exame pode causar desconforto por causa da compressão das mamas, mas ressalta que o procedimento é rápido. A frequência recomendada deve considerar as diretrizes de rastreamento vigentes, a idade e as condições individuais de cada mulher.

A confirmação do câncer também não significa que todas as pacientes passarão pelos mesmos tratamentos. Mariana explica que as decisões dependem das características do tumor e de cada paciente. Algumas mulheres precisam de cirurgia, quimioterapia ou radioterapia; outras podem ter indicação de abordagens diferentes.

“Não quer dizer que uma paciente que fez quimioterapia, a outra também vai fazer. Não quer dizer que uma paciente que precisou tirar completamente a mama, a outra também vai fazer”, explica.

Cida também precisou lidar com as consequências emocionais da mastectomia. Ela conta que, no início, sentiu alívio ao retirar a mama porque acreditava que estava eliminando a parte do corpo que poderia colocar sua vida em risco. Depois da cirurgia e da radioterapia, porém, passou a sentir mais intensamente a falta do seio.

“Eu achei que não ia passar por esse período. Tinha um luto, sabe? E, nesse momento, eu ainda estou vivendo esse período desse luto”, relata.

Ela continua recebendo acompanhamento psicológico e afirma que o apoio dos profissionais de saúde foi importante para enfrentar o diagnóstico e compreender as possibilidades de reconstrução mamária. A experiência também mostrou que cada paciente pode reagir de uma maneira e que o tratamento precisa considerar as particularidades de cada caso.

Goiás registra mais de 376 mil mamografias pelo SUS

Entre 2022 e 2025, foram registradas 376.575 mamografias pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em Goiás, conforme levantamento da produção ambulatorial apresentado pela SES-GO. Foram 92.109 exames em 2022, 96.193 em 2023, 96.300 em 2024 e 91.973 em 2025.

Na base parcial de 2026, foram contabilizadas outras 46.361 mamografias. Goiânia aparece com o maior número acumulado de procedimentos entre 2022 e 2026, com 108.464 exames, seguida por Aparecida de Goiânia, com 83.130; Anápolis, com 29.129; Rio Verde, com 26.291; e Senador Canedo, com 11.156.

Exame clínico de mamas, a mamografia, feito no Inca | Foto: Divulgação/INCA

A SES-GO ressalta que os números representam a quantidade de procedimentos realizados, não necessariamente o total de mulheres examinadas, já que uma mesma paciente pode fazer mais de uma mamografia ao longo do período.

Outro desafio é o tempo entre a confirmação da doença e o início do tratamento. Segundo o boletim epidemiológico da Secretaria, em 2023, 63,15% dos registros analisados apresentavam intervalo superior a 60 dias entre o diagnóstico e o começo do tratamento. O indicador se refere àquele ano e não representa, isoladamente, o número atual de pacientes que aguardam atendimento.

A Secretaria afirma que desenvolve ações para fortalecer a rede de prevenção e controle do câncer, incluindo iniciativas da política estadual Goiás Todo Rosa e a articulação entre os serviços de atenção básica, especializados e de regulação.

“Perca o medo de buscar ajuda”

Cinco meses após a mastectomia, Cida ainda está em acompanhamento médico e aguarda a reconstrução mamária, prevista para fevereiro. Apesar de ainda lidar com o impacto emocional da retirada da mama, ela tem retomado aos poucos a rotina. Um dos momentos que marcaram essa retomada foi voltar à academia, algo que chegou a temer que não fosse mais possível quando recebeu o diagnóstico.

“Eu estava pedalando lá e pensando que, um tempo atrás, antes do diagnóstico, eu me perguntava se, caso fosse um câncer, conseguiria voltar à academia. E hoje eu estava lá, fazendo meus exercícios e pensando: graças a Deus que eu estou aqui”, conta.

A experiência fez com que Cida passasse a enxergar de outra forma o medo de procurar atendimento médico. Ao lembrar do rápido crescimento do nódulo e da necessidade de agilizar a cirurgia, ela reforça que adiar uma consulta por receio do diagnóstico pode impedir que uma alteração seja investigada a tempo.

“Não tenha medo de ir ao médico, de se cuidar, de buscar diagnóstico precoce”, aconselha. “Perca o medo de buscar ajuda o mais cedo possível. Se não estiver satisfeita com aquela consulta, busque outra, mas priorize a prevenção.”

Mesmo ainda atravessando o processo de recuperação física e emocional, Cida diz que hoje valoriza a possibilidade de retomar suas atividades e seguir em frente. Para outras mulheres, deixa um conselho que vem da própria experiência: não esperar o medo passar para cuidar da saúde.

Leia também:

Câncer de mama deve atingir 2,1 mil mulheres por ano em Goiás; especialista alerta para mitos sobre a doença

Câncer de mama: histórias de coragem, reconstrução e esperança

O post Após diagnóstico de câncer e mastectomia, moradora da Cidade de Goiás aconselha: “Não tenha medo de se cuidar” apareceu primeiro em Jornal Opção.

Fonte: Jornal Opção

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *