A falsa simetria que equipara Lula e Flávio
Por Cristóvão Feil — Brasil de Fato
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A imprensa corporativa brasileira tem tratado a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro como uma polarização entre “dois polos opostos e equivalentes”, quando, a rigor, “só um deles é radical”.
A simetria midiática que equipara Lula e Flávio Bolsonaro não é um mero erro jornalístico: ela cria as condições para que um projeto de subordinação nacional seja apresentado como uma alternativa política legítima.
Como aponta a análise da Agência Pública, a centro-esquerda de Lula é apresentada como “pólo inverso e, portanto, equivalente à extrema direita de Flávio Bolsonaro – um erro, também jornalístico, que enviesa toda a cobertura da campanha”.
O texto é direto: “Lula não é comunista, mas Flávio é fascista, e a imprensa poderia ter deixado essa diferença clara para a população”.
Esse escudo da imparcialidade ignora que as eleições de 2026 são as primeiras após uma tentativa de golpe de Estado condenado pela Justiça.
Ao tratar como equivalentes o campo que defende a democracia e o campo cujo líder máximo foi condenado por liderar uma organização criminosa golpista, a mídia não apenas distorce os fatos: ela legitima a reedição de um projeto que já se provou criminoso.
Lembrar que houve a fuga do irmão do candidato fascista para os Estados Unidos e às alianças com Trump não é retórica vazia. É um padrão familiar documentado.
Como resume a CartaCapital, “a subserviência aos EUA é um traço de família, do pai para os filhos”: Jair Bolsonaro fez continência à bandeira americana, Eduardo mudou-se para os EUA para conspirar contra instituições brasileiras, e agora Flávio “escancarou os compromissos da família ao conspirar com a soberania brasileira”.
O senador Flávio viajou aos EUA em jatinhos emprestados por empresários, incluindo um voo em janeiro de 2025 no fim de semana que antecedeu a posse de Donald Trump.
Nessa viagem, Flávio pediu publicamente que os EUA monitorassem e pressionassem diplomaticamente por “eleições justas” no Brasil. Trata-se de um senador da República pedindo ingerência estrangeira no processo eleitoral de seu próprio país.
O compromisso concreto com a entrega de recursos naturais está documentado.
Um memorando estratégico intitulado “Prosperity Partnership”, com a inscrição “Flávio Bolsonaro – 2026 Campaign” na capa, detalha um plano para transformar o Brasil em “o principal fornecedor e polo de processamento de minerais críticos alinhado ao Ocidente no Hemisfério Ocidental”.
O documento prevê investimentos de US$ 50 bilhões a US$ 100 bilhões em mineração e refino, com a criação de um “clube de minerais críticos” alinhado aos EUA.
Não se trata apenas de minerais. O programa de Flávio inclui prometer “entregar todas as terras raras, minerais críticos e o petróleo do país para o governo americano”, além de acabar com o sistema de partilha do petróleo para que “todo o petróleo brasileiro seja das multinacionais”.
Flávio prometeu publicamente, em solo americano, “fatiar e vender a Petrobras aos pedaços”.
O diplomata Celso Amorim, assessor especial da Presidência, foi categórico: uma vitória de Flávio Bolsonaro levaria o Brasil a “um nível de subserviência aos Estados Unidos sem precedentes na história do país”. E acrescentou: “Nem a ditadura foi tão subserviente aos EUA quanto Flávio Bolsonaro pode ser”.
Amorim lembra que, mesmo durante a ditadura militar – que teve apoio americano ao golpe de 1964 -, “havia mais disfarce, porque havia o combate ao comunismo”.
Hoje, “o objetivo exclusivo é a dominação de todo o hemisfério, que eles consideram, e já usaram essa palavra de várias formas, o quintal deles”. A diferença é crucial: a ditadura mantinha oscilações e resistências pontuais em temas como o mar de 200 milhas e o programa nuclear. Flávio, ao contrário, oferece subserviência absoluta sem contrapartidas.
Quando a mídia equipara Lula e Flávio, ela não está sendo imparcial. Está sendo cúmplice de um projeto que visa transformar o Brasil em fornecedor subalterno de recursos estratégicos para os EUA.
A simetria funciona como uma operação de apagamento: elimina a diferença entre quem defende a soberania e quem a entrega. Entre quem respeita a democracia e quem foi condenado por tentar destruí-la. Entre quem governa para a população e quem governa para interesses estrangeiros.
A “vassalagem” que estamos testemunhando não é uma hipérbole. É a descrição precisa de um senador que viaja aos EUA para pedir ingerência externa, que oferece petróleo, minerais e terras raras em troca de apoio político, e cujo irmão fugiu para o país que deseja colonizar o Brasil. A mídia que trata isso como uma “alternativa de poder” não está apenas errando: está participando ativamente da legitimação de um projeto neocolonial em pleno século 21.
*Cristóvão Feil é sociólogo.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.
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Fonte: Brasil de Fato