Disputar as redes sem depender delas: o desafio da soberania digital na política
Por Bia Abramo — ICL Notícias
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x
Por Camila Modanez*
A suspensão do canal de WhatsApp do Exército do Lula, administrado pelo deputado federal André Janones e acompanhado por milhões de brasileiros, acendeu um alerta sobre um dos maiores desafios da mobilização política na era digital: a dependência das big techs. O episódio expõe uma fragilidade de partidos, movimentos sociais e campanhas eleitorais que constroem grandes audiências em plataformas, mas nem sempre desenvolvem canais próprios de relacionamento com essas pessoas.
Afinal, conquistar milhões de seguidores é importante, mas de que adianta todo esse alcance se, de uma hora para outra, podemos perder a capacidade de nos comunicar com essas pessoas?
Independentemente das circunstâncias jurídicas que levaram à suspensão do canal, o caso coloca uma questão que deveria estar no centro de qualquer estratégia de mobilização política: quem controla nossa capacidade de comunicação com as pessoas que mobilizamos?
As redes sociais são hoje territórios fundamentais da disputa política. Precisamos ocupá-las, compreender seus algoritmos, disputar narrativas e aproveitar seu enorme potencial de alcance. O problema não é utilizar as big techs para fazer política. O problema é depender delas para conseguir fazer política.
Quem trabalha com mobilização digital sabe que existe uma diferença fundamental entre alcançar pessoas e conseguir organizá-las. Uma campanha pode ter milhões de seguidores e produzir conteúdos de enorme repercussão, mas quantas dessas pessoas consegue contatar diretamente? Quantas consegue convocar para uma atividade? E quantas conseguiria mobilizar novamente se perdesse seu principal canal de comunicação?
Alcance não é sinônimo de organização política. Uma audiência só se transforma em força política quando existem vínculos capazes de produzir ação coletiva.
Em campanhas eleitorais, é comum vermos equipes dedicarem enormes esforços à produção de conteúdo e ao crescimento de perfis, enquanto a construção de bases de contatos fica em segundo plano. O resultado é que conseguimos alcançar milhões de pessoas durante uma eleição, mas muitas vezes não temos como voltar a falar com elas depois. Perdemos não apenas contatos, mas a oportunidade de transformar o engajamento de um momento em relações políticas duradouras.
Uma das principais tarefas de qualquer estratégia de mobilização digital deveria ser justamente transformar a audiência em relacionamento. Isso significa desenvolver mecanismos para que as pessoas possam estabelecer vínculos diretos com campanhas, partidos e movimentos sociais, por meio de cadastros em sites próprios, coleta consentida de telefones e e-mails, comunidades e sistemas de gestão de relacionamento.
Não se trata simplesmente de armazenar contatos em uma planilha. Mas sim de construir uma infraestrutura que permita conhecer a base, manter o diálogo e convocar pessoas para diferentes formas de participação. Cada ação de comunicação pode ser também uma oportunidade de construir relacionamento, convidando quem foi alcançado a dar um próximo passo na sua participação política.
A construção de uma base de dados não é uma tarefa operacional secundária. É parte central da estratégia política. E precisa ser tratada como tal, com planejamento, investimento, equipe e indicadores próprios.
Mas construir bases próprias também não significa substituir a dependência de uma plataforma pela dependência de outra. Uma estratégia de mobilização precisa ser multiplataforma, combinando diferentes canais de comunicação e relacionamento.
Isso vai muito além de publicar o mesmo conteúdo no Instagram, Tik Tok, YouTube e WhatsApp. Significa compreender o papel de cada ferramenta e construir caminhos para que as pessoas possam circular entre elas, mantendo o vínculo com a organização. As redes sociais podem ampliar o alcance, enquanto o WhatsApp e o e-mail permitem formas mais diretas de relacionamento. Sites próprios e sistemas de gestão de dados podem conectar essas diferentes frentes, ampliando nossa capacidade de mobilização.
Nenhum desses canais é completamente independente de empresas e intermediários. Mas uma base própria, combinada com diferentes meios de comunicação, reduz vulnerabilidades e permite que a perda de um canal não represente a perda de toda a relação com as pessoas.
Essa discussão também precisa ir além das eleições. A capacidade de organização política não deveria desaparecer quando termina uma campanha, quando uma liderança perde relevância nas redes ou quando muda um algoritmo. Construir bases próprias é também criar condições para que movimentos, partidos e organizações mantenham relações com a sociedade de maneira permanente, e não apenas durante os períodos de maior mobilização.
É por isso que precisamos ter como central a soberania digital ao construir estratégias de mobilização política. Não apenas como uma discussão sobre tecnologia ou proteção de dados, mas como uma questão de autonomia organizativa e capacidade de ação coletiva.
O caso do Exército do Lula é um alerta importante sobre os riscos de construir grandes audiências sem desenvolver estruturas próprias de relacionamento. A disputa nas redes continuará sendo fundamental, mas nosso desafio precisa ser maior do que conquistar seguidores: precisamos transformar o alcance das plataformas em capacidade duradoura de organização política.
A disputa política nas redes é indispensável, mas não pode terminar nelas. Nosso desafio é transformar o alcance que conquistamos nas plataformas em relações duradouras, capazes de sustentar a mobilização e a organização política para além dos algoritmos e dos ciclos eleitorais.
*Camila Modanez é consultora em estratégia digital e mobilização política, pesquisadora do Grupo de Estudos e Pesquisas em Segurança Internacional (GEPSI-UnB), pós-graduanda em Estratégia e Liderança Política pela FESPSP
Informações em primeira mão! Siga o canal do ICL Notícias no WhatsApp
Acesso total a mais de 300 cursos, materiais e séries! Seja Membro ICL
Siga e acompanhe as atualizações do ICL Notícias também pelo Google News
soberania digitalredes sociais
Relacionados
Extrema direita gastou menos e foi mais eficiente em posts nas redes
Levantamento mostra que a esquerda fez vídeos longos atrapalhando distribuição do algoritmo pela Meta
Proibição das bets foi maior evento político nas redes no ano, aponta Instituto DX
Medida anunciada por Lula gerou 1,33 milhão de menções em 24 horas e 2,5 milhões de posts nas primeiras 63 horas
Colunista do ICL Notícias Juliana Dal Piva é a jornalista que mais sofreu ataques no X
Ataques à imprensa cresceram 67,3% na segunda quinzena da campanha eleitoral, segundo levantamento da Coalizão em Defesa do Jornalismo
Carregar Comentários
Fonte: ICL Notícias




