O último alerta da China aos EUA e seus aliados
Por Fernando Capotondo — Brasil 247
O acordo alcançado entre a China e a União Europeia para regulamentar as importações de veículos híbridos e elétricos permitiu conter, pelo menos por enquanto, uma nova escalada das tensões comerciais em torno do conceito de excesso de capacidade produtiva. O pacto estabelece um limite anual de 350 mil unidades para os automóveis híbridos chineses que entrarem no mercado europeu, enquanto Pequim reduz temporariamente as tarifas sobre determinadas peças de automóveis, calçados, sorvetes e azeite de oliva europeus, um conjunto de exportações equivalente a quase US$ 4,5 bilhões, segundo dados da agência Bloomberg.
O acordo comercial foi anunciado praticamente ao mesmo tempo em que se renovava um debate travado no terreno turbulento da economia global. Com os protagonistas de sempre e as perguntas de quase sempre: quem pode reivindicar o direito de determinar que um país produz demais? Onde termina a concorrência econômica e começa a disputa geopolítica?
A polêmica se intensificou em 7 de outubro, quando o representante comercial da Casa Branca, Jamieson Greer, reuniu outros 14 países (entre eles, a Argentina) para assinar uma espécie de catecismo coletivo contra os demônios que impulsionam o chamado “excesso estrutural de capacidade”. Em outras palavras: a China fabrica tanto, tão barato e tão rapidamente que ameaça sufocar as fábricas de boa parte do planeta.
“Não ficaremos de braços cruzados tolerando o excesso de produção”, afirmou Greer em entrevista ao jornal japonês Nikkei.
O governo chinês não precisou ser mencionado explicitamente para entender o recado e, dois dias depois, rejeitar o que interpretou como uma nova tentativa dos Estados Unidos de justificar políticas protecionistas contra sua produção. “Se as economias envolvidas utilizarem essa questão como pretexto para adotar medidas que afetem os interesses da China, o país tomará as medidas necessárias em resposta”, advertiu o Ministério do Comércio da China (MOFCOM), em um comunicado direto divulgado poucos minutos depois das 22h, no horário de Pequim, quando as atividades matinais na Casa Branca estavam a pleno vapor.
“As questões relacionadas à capacidade produtiva devem ser analisadas de maneira abrangente, objetiva e justa. Os assuntos econômicos e comerciais não devem ser politizados em razão de preocupações com a própria competitividade industrial e a posição no mercado”, respondeu o ministério, também sem mencionar Washington pelo nome. O que a pasta citou expressamente foi o documento “Posição da China sobre a suposta questão do excesso de capacidade”, publicado em julho pelo ministério em resposta às acusações de Washington.
Ao que parece, quando os Estados Unidos subsidiam os aviões da Boeing ou sua indústria de microchips, a narrativa ocidental chama isso de “segurança nacional” ou “autonomia estratégica”. Quando a Alemanha protege suas montadoras ou a França socorre suas marcas de luxo, trata-se da “preservação do modelo de vida europeu”. Mas, quando a China aplica a mesma receita que aprendeu com o capitalismo central para inundar o mercado com baterias e painéis solares, isso passa a ser considerado uma “distorção maliciosa”.
“Concentrar-se exclusivamente na capacidade produtiva da China e classificá-la como ‘excesso de capacidade’ é, essencialmente, aplicar dois pesos e duas medidas de forma seletiva. Se eu bato em você, é legítima defesa; se você reage, é uma agressão”, argumentou Ma Kangduo, analista da agência oficial Xinhua.
Para se defender, Pequim apresentou os números recém-divulgados por sua Administração Geral das Alfândegas. Conhecer esses dados permite confirmar duas questões fundamentais: primeiro, que o suposto “isolamento” pretendido pelos Estados Unidos não estaria funcionando; segundo, que a China deixou de competir com roupas baratas há muito tempo e passou a disputar mercados com inteligência artificial, robótica e tecnologias de ponta.
No acumulado de 2026, o comércio exterior chinês cresceu 18,8% em relação ao mesmo período do ano anterior, o ritmo mais elevado dos últimos cinco anos, aproximando-se de US$ 6 trilhões. E quais são os produtos que mais se destacam nas exportações? Os microchips e circuitos integrados dispararam 99,1%, os veículos elétricos avançaram 72,3% e os equipamentos de robótica industrial cresceram 58,9%. Para completar a ironia, as próprias multinacionais ocidentais instaladas na China registraram um recorde de exportações (11,69 trilhões de yuans), abastecendo gigantes como Volkswagen e Maserati.
O mapa do comércio também mostra que, enquanto as trocas comerciais da China com os Estados Unidos cresceram apenas 4,1%, suas vendas para o Sudeste Asiático e para países com acordos de livre-comércio aumentaram cerca de 30%. Ou seja, a pressão de Washington não interrompe a produção das fábricas chinesas, apenas redireciona seus navios para outros portos. Soma-se a isso o fato de Pequim destinar bilhões para estimular o crescimento do consumo interno, beneficiando 136 milhões de pessoas (quase três vezes a população total da Argentina).
As autoridades chinesas insistem que seus subsídios não violam as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) e costumam citar um estudo do Fundo Monetário Internacional (FMI) que identificou mais de 2.500 medidas de apoio industrial nas 75 maiores economias do mundo.
Por trás da retórica, outros números ajudam a explicar uma preocupação impossível de esconder: a China concentra atualmente 80% da produção mundial de painéis solares e mais de 60% da produção de baterias e veículos elétricos, oferecendo tecnologias entre 20% e 35% mais baratas. Bloquear esse fluxo sob o argumento de “excesso de capacidade” coloca um dilema: como cumprir as metas climáticas se os insumos necessários à transição energética são deliberadamente encarecidos?
O país asiático cresceu, conquistou mercados e se transformou em uma potência industrial que disputa espaços anteriormente dominados pelas antigas potências. Não surpreende que esse avanço provoque conflitos. A discussão que volta a ganhar força é quem define as regras e quais critérios são utilizados para aplicá-las. Um título publicado semanas atrás pela revista The Economist resumia a questão: a China não vai pedir desculpas.
Fonte: Brasil 247