Eleita CFO do Ano, Silvia Vilas Boas transforma impacto social e ambiental em estratégia

0

umsoplaneta

silviavillasboas-creditogabrielquintao-2-1.jpg
Antes de se tornar uma das principais executivas de finanças do país, Silvia Vilas Boas queria ser engenheira mecânica. A escolha tinha a ver com sua infância em Belo Horizonte. Aos domingos, acompanhava o pai às feiras de carros usados e queria ver o que havia debaixo do capô. Outro passeio favorito era ir à base aérea para ver apresentações de aviões. Quando chegou a hora do vestibular, optou por engenharia mecatrônica – depois que o pai voltou de uma viagem a São Paulo com um jornal que anunciava o recém-criado curso da Universidade de São Paulo (USP) e destacava suas boas perspectivas de emprego.
Desde então, Silvia trabalhou como engenheira de manutenção, passou pela indústria automobilística, migrou para recursos humanos, consultoria, inovação, varejo, tecnologia, operações e, finalmente, finanças. Hoje, com 49 anos de idade e cinco de Natura, ocupa a posição de Chief Financial Officer e lidera a área de transformação da companhia. Em junho, foi reconhecida como CFO do Ano pela Accounting for Sustainability (A4S), organização criada pelo rei Charles III para aproximar sustentabilidade e decisões financeiras.
A premiação internacional poderia ser o ápice de uma carreira planejada. No caso de Silvia, é quase o contrário. “Se você me perguntasse: ‘Silvia, você desenhou sua carreira para ser CFO?’, eu diria que em hipótese alguma”, afirma. “Minha carreira não é linear. Não sou especialista em finanças.” O que existe, segundo ela, é uma disposição para aprender. “Seria mais fácil me perguntar o que eu queria aprender.”
As primeiras lições vieram no chão de fábrica. Recém-formada, Silvia conseguiu uma vaga como engenheira de manutenção na Alcan, em Ouro Preto (MG). Lembra que um dos seus chefes da época tinha certeza de que ela fracassaria. “Tudo ele falava: ‘Não vou te dar isso porque você não vai dar conta’. No fim, contrariando a expectativa dele, eu dava muita conta.”
Outra lembrança: no primeiro dia de integração na fábrica, chegou com o cabelo cacheado, volumoso e comprido. Recebeu o capacete, amarrou os fios, mas foi impedida de entrar pela segurança do trabalho, pois corria o risco de prender o cabelo em alguma máquina. Sem conseguir acomodá-lo sob o equipamento, entrou no primeiro salão que encontrou e cortou os fios bem curtos. “Cortei chorando, mas tudo bem. Tinha que trabalhar.”
A história, que hoje parece quase anedótica, exemplifica como Silvia, assim como tantas outras mulheres, se adaptou aos códigos de ambientes profissionais majoritariamente masculinos – inclusive na aparência. No mercado financeiro, conta, chegou a usar maquiagem e salto todos os dias, embora não gostasse de nenhum dos dois. Quando deixou o banco, doou todas aquelas roupas. “Me olhava e não me reconhecia. Pensava: ‘Essa não sou eu’.”
Mais um aprendizado: “Quando descobri a força de ser quem eu sou, mesmo que muito diferente do ambiente, eu destravei potência”. Hoje, a executiva usa maquiagem quando quer e vai de tênis Vans a reuniões com investidores.
A descoberta da própria forma de liderar também veio de experiências pouco convencionais. Na Fiat, onde trabalhou depois da Alcan, ouviu de funcionários da fábrica que deveria “voltar para o colo da mamãe” por ser jovem e mulher. Em outra empresa, foi repreendida aos gritos por um gestor. Chorou no banheiro, voltou para a sala e colocou um limite. “Falei: ‘É a primeira e a última vez que você vai me tratar assim. E, se você entender que isso não funciona, estou agora pedindo demissão’.” A resposta que recebeu ficou marcada: “A gente só bate em quem deixa”.
Para Silvia, as experiências foram construindo resiliência – e, sobretudo, deram coragem para se posicionar. “Muitos já fecharam a porta para mim. Vou lá e construo uma forma de abrir a porta.”
Uma das viradas mais radicais em seu currículo aconteceu quando deixou a indústria e foi para o varejo, em São Paulo, para assumir uma posição de business partner de RH. Em vez de tentar dominar imediatamente o que não conhecia, decidiu partir do que sabia: entender operações, processos e pessoas. Depois vieram a consultoria, a inovação na Telefônica e, mais tarde, o Banco Real – onde teve seu primeiro cargo em finanças.
Ali, recebeu a missão de reduzir o prazo de fechamento mensal da operação latino-americana. Não sabia como fazer. Mapeou os processos, conversou com as equipes e aprendeu fazendo.
É essa disposição para entrar em territórios desconhecidos que Silvia identifica como um dos fios condutores da carreira.
“Desafio bom, para mim, se não tem o ‘não sei’, eu não vou. Adoro essa sensação do não saber, porque ela me permite me jogar para aprender.”
No banco, onde permaneceu por 12 anos após a aquisição pelo Santander, ocupou diferentes posições e chegou a liderar uma das frentes estratégicas. Em uma apresentação das iniciativas, percebeu que era a única mulher entre os líderes. Não deixou passar. “Era um absurdo isso. Não era a única mulher competente do banco.”
Hoje, essa indignação se transformou em prática de liderança. Ao chegar à Natura, trouxe a primeira controller mulher da companhia e passou a construir uma equipe mais diversa. “Mulher chama mulher”, afirma.
Para ela, educação financeira é também uma ferramenta de autonomia feminina. E, na Natura, essa discussão ganhou uma dimensão prática com a criação da Emana Pay, instituição financeira voltada às consultoras de beleza. Em vez de considerar apenas o histórico financeiro, a instituição usa a relação construída entre as consultoras e a Natura para avaliar crédito.
A mesma tentativa de repensar os critérios tradicionais aparece na atuação da executiva em sustentabilidade. Na Natura, Silvia trabalha com o iP&L integrado, ferramenta que busca monetizar impactos gerados pela companhia em capitais humano, social e ambiental. A lógica é colocar na mesma conversa resultado financeiro e consequências que normalmente ficam fora do balanço. “A cada R$ 1 de receita, gero R$ 4 de impacto positivo”, diz. A métrica considera, entre outros fatores, impactos sobre a renda das consultoras, comunidades amazônicas e conservação da floresta.
É nesse ponto que a atuação de Silvia como CFO se encontra com sua visão de futuro. Para ela, não basta medir o impacto: é preciso fazer com que ele seja considerado pelo mercado financeiro. “O valuation das companhias hoje, o valor que essas companhias de capital aberto têm, não é influenciado por este outro lado do impacto que a gente gera.”
A Natura adotou voluntariamente os padrões internacionais IFRS S1 e S2, que estabelecem referências para a divulgação de riscos e oportunidades relacionados à sustentabilidade e ao clima, antes mesmo de sua obrigatoriedade regulatória no Brasil. Para Silvia, a mudança representa mais do que uma nova forma de reportar dados, significa aproximar sustentabilidade da linguagem tradicional das finanças.
Um dos exemplos mais concretos dessa aproximação está na Amazônia. A Natura mantém relações com mais de 11 mil famílias na região e trabalha há décadas com comunidades que fornecem ingredientes para seus produtos.
O princípio, segundo Silvia, é simples: “Não há conservação da floresta sem desenvolvimento econômico para quem vive nela”.
A executiva também afirma que impacto ambiental e social não podem ser tratados como agendas separadas. “Não existe impacto positivo na natureza, proteção da natureza, sem desenvolvimento social.” Talvez seja justamente essa capacidade de atravessar fronteiras – entre finanças e impacto – que melhor defina Silvia. Ela mesma não acredita em uma separação rígida entre a executiva e a mulher. “Não sou uma na Natura e uma em casa. Sou a mesma pessoa.”
Aos 16 e 14 anos, seus filhos ainda são, nas palavras dela, seus “bebês de 1,85 metro”. Casada com Sérgio há 25 anos, atribui parte importante de sua trajetória à rede de apoio que construiu ao longo da vida. Teve os dois filhos enquanto trabalhava no mercado financeiro e tirou seis meses de licença-maternidade em cada ocasião.
“Sem rede de apoio, você não chega. Ou, se chega, deixou rastros de feridos pelo caminho.”
A ideia de construir relações de confiança também passa pela maneira como pensa liderança. “Não sou hierárquica e não gosto de hierarquia”, afirma. Para ela, estruturas excessivamente verticais não dão conta da velocidade das mudanças no mundo. A liderança que diz buscar é baseada em proximidade, com o time sentindo que pode apresentar problemas sem medo de uma reação negativa.
O reconhecimento internacional recebido neste ano, portanto, parece menos uma validação individual do que uma confirmação daquilo que Silvia vem defendendo há décadas. Quando soube que estava entre as três finalistas, afirma que já se sentiu realizada. “Pensava: quem diria que eu ia chegar num lugar desse?” Quando seu nome foi anunciado, a emoção aumentou.
“O prêmio não é sobre mim. É sobre tudo que estamos fazendo aqui, tentando quebrar o status quo.”
O mérito, no entanto, chega próximo a um momento desafiador para a Natura. No segundo trimestre de 2026, a companhia registrou lucro líquido de R$ 35 milhões, queda de 92% em relação aos R$ 446 milhões do mesmo período do ano anterior. O resultado, segundo a empresa, foi impactado pela queda de receita no Brasil, por problemas operacionais e pela liquidação de derivativos que protegiam a dívida em dólar. Na coletiva de resultados, Silvia afirmou que, apesar das dificuldades, a companhia mantém a ambição de expandir a rentabilidade em 2026 em relação ao resultado de 2025.
“Nós temos crença que somos capazes de buscar essa ambição, mas não deixaremos, no segundo semestre, de fazer os investimentos necessários para poder garantir o futuro da companhia”, afirmou. Segundo ela, a empresa pretende manter investimentos em marketing e inovação, buscando uma rentabilidade que considere saudável diante de um ano desafiador.
Suas ideias e sua trajetória vão ao encontro do próximo indicador que espera atingir na Natura, o da felicidade: “Quem está feliz produz, inova, se relaciona bem, trata o outro bem. Para mim, esse é o indicador que vale”.

Fonte: umsoplaneta

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *