Vorcaro ameaçou processar repórter do Estadão após denúncia sobre o Master
Por Leonardo Lucena — Brasil 247
247 – O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, ameaçou recorrer à Justiça criminal contra um jornalista do Estadão após o jornal revelar indícios de irregularidades financeiras envolvendo a instituição em uma matéria assinada por Aguirre Talento em 20 de agosto do ano passado. Em conversa pelo WhatsApp com a CEO do portal Metrópoles, Lilian Tahan, o empresário manifestou a intenção de processar o repórter responsável pela divulgação das suspeitas. A executiva comentou as possíveis consequências da medida para o profissional. O episódio ocorreu em 20 de agosto de 2025, quando o jornal publicou informações de uma investigação da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) sobre operações financeiras do banco.
Segundo o jornal O Estado de S.Paulo, as mensagens mostram a reação de Vorcaro à publicação de informações sobre aportes bilionários em empresas sem capacidade econômica aparente para justificar os investimentos. A investigação da CVM identificou indícios de gestão fraudulenta em operações que teriam contribuído para elevar artificialmente o patrimônio do Banco Master durante as negociações para a venda de parte da instituição ao Banco de Brasília (BRB).
Às 8h24 daquele dia, a CEO do Metrópoles entrou em contato com o banqueiro e demonstrou preocupação com a repercussão da reportagem. “Então, muito ruim a manchete do Estadão. Eu pedi para verificarem como será a repercussão na parte da manhã”, escreveu Lilian Tahan.
Em resposta, o controlador do Master criticou as informações publicadas e anunciou a intenção de adotar medidas criminais contra o jornalista. “Vamos entrar com criminal. Não existe processo. Não existe nada. Colocar que tem ligação com minha irmã porque o escritório de contabilidade que a empresa usa é o mesmo. Essas coisas não dá pra deixar mais”, afirmou Vorcaro.
A executiva do Metrópoles reagiu à possibilidade de uma ação judicial contra o profissional de imprensa com uma observação sobre o impacto desse tipo de procedimento. “Não tem nada mais chato para o repórter que responder criminal”, escreveu Tahan.
CVM identificou suspeitas em investimentos de R$ 2,1 bilhões
A reação do banqueiro ocorreu após o Estadão revelar a existência de um relatório da Comissão de Valores Mobiliários sobre operações realizadas pelo Banco Master. O documento examinou investimentos de aproximadamente R$ 2,1 bilhões em empresas que, segundo o órgão regulador, não apresentavam condições econômicas compatíveis com os valores recebidos.
A CVM identificou indícios de que essas transações poderiam integrar uma estrutura destinada a aumentar artificialmente o patrimônio do banco.
A suspeita ganhou relevância durante as negociações para a venda de 58% do capital do Master ao Banco de Brasília, instituição financeira controlada pelo governo do Distrito Federal.
Os investigadores avaliaram a possibilidade de que os aportes tenham contribuído para apresentar uma situação patrimonial mais favorável durante as tratativas. O relatório apontou indícios do crime de gestão fraudulenta e alertou para as consequências das operações sobre a situação financeira da instituição.
Segundo a avaliação da CVM, a manobra “pode comprometer severamente a solidez patrimonial da instituição financeira”. A investigação examinou a circulação dos recursos, a identidade dos beneficiários dos investimentos e os vínculos societários entre as empresas que receberam dinheiro do banco.
Clínica em nome de recepcionista recebeu R$ 361 milhões
Entre as operações que chamaram a atenção da Comissão de Valores Mobiliários está um aporte de R$ 361 milhões em uma clínica médica de pequeno porte. A empresa tinha como titular formal uma recepcionista, circunstância que levou os investigadores a examinar a compatibilidade entre sua estrutura empresarial e o volume de recursos recebidos. O relatório também identificou conexões entre a clínica e outras empresas relacionadas ao grupo familiar de Daniel Vorcaro.
As suspeitas não se limitavam à capacidade econômica dos estabelecimentos. Os investigadores procuraram determinar se os investimentos serviram para transferir recursos entre empresas formalmente distintas, mas ligadas por relações societárias e administrativas. A CVM analisou a possibilidade de essas operações integrarem um mecanismo de circulação de dinheiro destinado a favorecer empresas relacionadas aos controladores do Master.
O valor destinado à clínica constitui um dos exemplos utilizados pela investigação para demonstrar a diferença entre a dimensão das empresas beneficiadas e os aportes realizados pelo banco.
Empresas ligadas à irmã de Vorcaro receberam R$ 1,2 bilhão
Outra frente da apuração envolveu investimentos do Banco Master em empresas vinculadas a Natália Vorcaro, irmã do banqueiro. Em uma segunda reportagem publicada em 20 de agosto de 2025, o Estadão revelou que a instituição financeira havia destinado R$ 1,2 bilhão a companhias com ligações com ela.
A publicação levou o nome de Natália ao centro das suspeitas de irregularidades financeiras envolvendo a instituição.
Entre as empresas examinadas aparece a Del Participações, administrada pela irmã do controlador do Master. A investigação identificou conexões entre essa companhia e a clínica que recebeu R$ 361 milhões.
Segundo o relatório, os vínculos não se restringiam à utilização de serviços prestados por um mesmo escritório de contabilidade. A análise encontrou também relações societárias entre empresas que participaram das operações.
Esse aspecto contrasta com a justificativa apresentada por Vorcaro na conversa com Lilian Tahan, quando o banqueiro atribuiu a associação com sua irmã ao compartilhamento de serviços contábeis. Para os investigadores, as conexões identificadas justificavam aprofundar a apuração sobre a origem, a circulação e o destino dos recursos.
Suspeita envolve possível retorno de recursos ao grupo familiar
A Comissão de Valores Mobiliários examinou a hipótese de que as operações financeiras tenham permitido que valores aplicados pelo Banco Master circulassem entre empresas relacionadas aos mesmos beneficiários econômicos.
Nesse cenário, os investimentos poderiam contribuir para aumentar artificialmente o patrimônio contabilizado pela instituição, sem corresponder necessariamente à criação de riqueza ou à valorização econômica efetiva dos ativos.
A investigação também procurou identificar se parte dos recursos retornava a empresas relacionadas ao próprio grupo familiar de Daniel Vorcaro. Os elementos reunidos pela CVM indicaram a necessidade de aprofundar a análise sobre a estrutura societária e os interesses econômicos envolvidos nas transações.
A apuração ganhou novos desdobramentos em 2026, quando a Polícia Federal realizou buscas relacionadas às investigações sobre o Banco Master. Natália Vorcaro passou a figurar entre os alvos de medidas de busca e apreensão, em uma nova etapa dos procedimentos destinados a esclarecer as operações financeiras investigadas.
As suspeitas descritas nos relatórios e nas investigações policiais não equivalem, por si só, à comprovação definitiva de responsabilidade criminal dos envolvidos.
Mensagens expõem reação do ex-banqueiro à cobertura jornalística
A conversa entre Daniel Vorcaro e Lilian Tahan acrescenta uma dimensão às investigações sobre o Banco Master: a reação do controlador da instituição à divulgação de informações sobre possíveis crimes financeiros. O diálogo ocorreu na mesma manhã em que o Estadão publicou reportagens sobre o relatório da CVM e os investimentos em empresas relacionadas à irmã do banqueiro.
Nas mensagens, Vorcaro contestou a existência de processos e as informações sobre as conexões empresariais. Em seguida, manifestou intenção de utilizar uma ação criminal como resposta à publicação.
A CEO do Metrópoles, por sua vez, demonstrou preocupação com a manchete e comentou a dificuldade que um processo criminal poderia representar para o jornalista.
A ameaça relatada pelo Estadão integra a sequência de acontecimentos que acompanharam a divulgação das suspeitas sobre a situação patrimonial do Master e suas operações com empresas relacionadas ao grupo de Vorcaro.
As reportagens de agosto de 2025 antecederam novos desdobramentos das investigações sobre a instituição financeira e seus controladores.
O relatório da CVM, que motivou a cobertura jornalística, concentrou suas suspeitas nos aportes bilionários em empresas com estrutura econômica incompatível com os valores recebidos, nas conexões societárias entre os beneficiários e na possibilidade de utilização dessas operações para alterar artificialmente a situação patrimonial do Banco Master durante as negociações com o BRB.
Fonte: Brasil 247