HIV, vacinas e o dano de Bolsonaro, o presidente das fake news

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Por Sara York — Brasil 247

Passei a vida adulta ouvindo que a cura do HIV estava a poucos anos de distância, e é com essa memória de promessa adiada que leio agora a notícia vinda da Nature, em que pesquisadores do La Jolla Institute, da Scripps Research e da IAVI relatam, depois de catorze anos de colaboração, uma vacina que gerou em número alto anticorpos amplamente neutralizantes em primatas, aqueles raríssimos que reconhecem o HIV mesmo quando ele muda e que até aqui só se encontravam em poucas pessoas vivendo com o vírus. A estratégia, chamada direcionamento da linhagem germinativa, em vez de apresentar o vírus inteiro ao organismo, conduz as células de defesa por etapas, com uma dose inicial que as desperta e reforços que as guiam até o amadurecimento certo, e funcionou em cerca de 44% dos animais, número que os próprios autores consideram insuficiente. O entusiasmo precisa vir com as ressalvas que a própria ciência faz: não se testou se esses anticorpos impedem a infecção, e em humanos só a dose inicial foi avaliada, ficando o esquema completo para um estudo futuro, de modo que a vacina permanece um horizonte, mais próximo do que já foi, mas ainda um horizonte.

O que existe hoje, e é por isso que escrevo, está mais perto da vida de quem lê do que qualquer vacina. Em janeiro de 2026 a Anvisa aprovou o lenacapavir como alternativa de profilaxia pré-exposição, uma injeção semestral que dispensa o comprimido de todo dia, e a Organização Mundial da Saúde já o havia recomendado em julho de 2025 como a melhor alternativa depois de uma vacina, recurso que ainda não está disponível para o HIV. Quem já precisou esconder um frasco de remédio, ou escolher entre a rotina da casa e a rotina do tratamento, entende o que significa trocar trezentos e sessenta e cinco comprimidos por duas picadas, e os dados de um dos estudos clínicos mostraram eficácia de 100%. A própria Anvisa, vale dizer, alerta para o risco de resistência ao medicamento, de modo que nada aqui autoriza a euforia de quem acredita que o problema acabou.

O problema, aliás, mudou de lugar. O preço máximo do lenacapavir ainda depende da CMED, e a oferta gratuita pelo SUS precisa passar pela Conitec e pelo Ministério da Saúde, enquanto nos Estados Unidos o tratamento ultrapassa os 28 mil dólares anuais, e o que se chama de acesso global tem tido outra forma: o Fundo Global e o governo americano, por meio do PEPFAR, já levaram as primeiras entregas a nove países africanos, com a Gilead fornecendo o produto sem lucro até que fabricantes de genéricos consigam atender a demanda, o que não equivale a dizer que o medicamento seja gratuito em qualquer lugar do mundo rico. O Médicos Sem Fronteiras lembrou que o Brasil, mesmo tendo participado das pesquisas que viabilizaram o fármaco, ficou fora dos acordos de acesso a preços razoáveis, e os acordos de licenciamento genérico, que cobrem 120 países, foram criticados por excluir países, sobretudo na América Latina. É uma imagem conhecida para quem acompanha a história da epidemia: o conhecimento circula, o corpo que o produziu, testou ou espera permanece na fila, e a fila tem sempre uma composição, porque são as travestis, as pessoas negras, as mulheres pobres e os jovens de periferia que mais dependem do que o Estado decide incorporar e que mais sentem quando o Estado decide esperar. Uma tecnologia de prevenção que não chega a essas pessoas é, para efeitos práticos, uma tecnologia que as trata como descartáveis, ainda que ninguém diga isso em voz alta.

Dizer em voz alta o contrário, aliás, também tem consequência, e é por aí que a política entra de vez na história. Em 21 de outubro de 2021, na live semanal, o então presidente Jair Bolsonaro leu uma notícia segundo a qual vacinados contra a covid-19 no Reino Unido estariam desenvolvendo aids, afirmação que as agências Fato ou Fake e Aos Fatos checaram e consideraram falsa, enquanto a Sociedade Brasileira de Infectologia e a Associação Médica Brasileira afirmaram que não se conhece nenhuma relação entre a vacina e a aids. O YouTube tirou o vídeo do ar e suspendeu o canal por uma semana, Facebook e Instagram fizeram o mesmo, e o ministro Alexandre de Moraes determinou, em dezembro, a abertura de uma investigação pedida pela CPI da Covid. Bolsonaro, por sua vez, atribuiu a informação a uma reportagem da revista Exame. O que me interessa nesse episódio é menos a disputa sobre quem escreveu o quê do que o efeito de uma frase dita da cadeira da Presidência sobre quem vive com HIV, que ouviu de quem governava que a vacina poderia ser uma ameaça, no exato momento em que as entidades médicas pediam que as pessoas vivendo com HIV se vacinassem por completo. Uma vacina de verdade contra o HIV, quando vier, vai encontrar um país em que esse tipo de desconfiança foi semeada de cima, e a pergunta que fica para o eleitor, nesta reta final, é a de quem prefere cultivá-la e quem se dispõe a desfazê-la.

Enquanto isso, a prevenção que existe continua de pé e não depende de nenhuma promessa. O SUS oferece a PrEP oral, com tenofovir e emtricitabina em comprimido diário, desde 2018; a camisinha segue sendo o único método que também protege das demais infecções sexualmente transmissíveis; a PEP, que precisa ser iniciada em até 72 horas depois do risco, quanto antes melhor, é a segunda chance que o rompimento do preservativo não precisa transformar em diagnóstico; e quem vive com HIV, em tratamento contínuo e com carga viral indetectável, não transmite o vírus por via sexual, fato que deveria estar impresso em todo posto de saúde do país porque desfaz, sozinho, boa parte do medo que ainda faz as pessoas evitarem o teste.

Sobre a vacina: https://www.lji.org/news-events/news/post/new-hiv-vaccine-shows-unprecedented-success-in-preclinical-study/

Fonte: Brasil 247

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