Relação de Vorcaro com o Metrópoles pode explicar a guerra suja contra o Itaú

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Por André Vieira — Brasil 247

Em julho, quando o Itaú criou o Factópoles para contestar uma sequência de 42 reportagens e cerca de 50 publicações nas redes sociais do Metrópoles, segundo levantamento do banco, escrevi nesta coluna que havia dois riscos naquela disputa: o poder de um poderoso banco de intimidar jornalistas e a possibilidade de um veículo transformar ataques editoriais em instrumento de pressão. Três meses depois, as mensagens do ex-banqueiro Daniel Vorcaro reveladas pela imprensa colocam uma questão ainda mais grave: a ofensiva do portal de Luiz Estevão contra o Itaú poderia estar associada aos interesses empresariais do dono do Banco Master? Não há prova dessa ligação direta, mas as mensagens mostram que Vorcaro tinha influência sobre decisões editoriais do Metrópoles e que procurou utilizar outros veículos de comunicação contra seus adversários.

A revelação desta quinta-feira, 15 de outubro, torna a suspeita particularmente relevante. O Banco Master firmou um contrato publicitário de R$ 20 milhões com o Metrópoles, enquanto seu controlador mantinha acesso privilegiado ao conteúdo editorial. Segundo o UOL, ao menos 14 reportagens foram submetidas previamente a Vorcaro, das quais 11 sofreram alterações após seus pedidos. As conversas com Lilian Tahan, CEO do portal, mostram sugestões de títulos, supressão de informações e discussões sobre o momento de publicação. Ela nega que os contratos comerciais tenham influenciado a cobertura. Mas o acesso e a influência documentados ultrapassam o que se esperaria de uma relação entre anunciante e redação independente. Diante disso, a guerra travada pelo Metrópoles contra o Itaú merece ser reexaminada, inclusive para esclarecer se havia interesses externos influenciando sua agenda editorial.

O histórico de Vorcaro reforça essa necessidade. Em setembro de 2024, ao discutir uma investigação da revista piauí sobre o Master, Frederic Kachar, então executivo do Grupo Globo, do qual foi demitido nesta quinta-feira, afirmou que a “piauí virou uma revista denuncista”. No mês seguinte, Vorcaro atribuiu a reportagem a uma suposta encomenda do Itaú. Kachar respondeu: “Se o mercado viu como encomenda do Itaú, menos mal”. Nenhum dos dois apresentou evidências dessa participação do banco. Enquanto atribuía reportagens desfavoráveis a interesses de concorrentes, Vorcaro discutia com o publicitário Thiago Miranda, então ligado ao Portal LeoDias, uma estratégia de ataques ao Itaú e a seu presidente, Milton Maluhy Filho. As mensagens divulgadas pela imprensa registram até a proposta de uma “campanha concatenada” envolvendo diferentes veículos — a montagem de uma rede de mídia que envolvia IstoÉ, Brazil Journal e PlatôBR, entre outros.

As conversas com o Metrópoles mostram como essa influência podia alcançar o conteúdo jornalístico. Vorcaro sugeriu eliminar referências à possível falência do Master, interferiu em textos sobre Renato Gomes, diretor do Banco Central responsável pela análise da venda do banco ao BRB, e participou de discussões envolvendo declarações de Roberto Campos Neto, ex-presidente da autoridade monetária, já executivo do Nubank naquela época. Em agosto de 2025, quando o banqueiro pediu um “remédio contra notícias ruins”, Lilian sugeriu Campos Neto como um “bom trunfo”. Vorcaro também propôs perguntas para uma entrevista e alterações no texto. As mensagens não demonstram que Campos Neto conhecesse essas discussões, mas documentam a participação do banqueiro na construção de uma cobertura jornalística sobre uma decisão regulatória decisiva para seus negócios.

Esses fatos não permitem concluir que Vorcaro tenha comandado a ofensiva do Metrópoles contra o Itaú em 2026, especialmente porque boa parte das reportagens contestadas pelo Factópoles foi publicada depois de sua prisão. Seria intelectualmente desonesto transformar suspeitas em conclusões definitivas. Mas as mensagens revelam dois fatos relevantes: Vorcaro discutiu uma campanha de ataques ao Itaú e exerceu influência editorial sobre reportagens do Metrópoles. A conexão entre esses episódios ainda não está demonstrada, mas deixou de ser uma pergunta que possa ser simplesmente ignorada. O Itaú continua sujeito ao escrutínio jornalístico, mas o portal precisa explicar como preservava sua independência diante de um anunciante que opinava sobre textos, títulos e decisões de publicação.

Em julho, concluí que o Factópoles dizia menos sobre o Itaú e o Metrópoles do que sobre o colapso da confiança entre empresas, imprensa e público. As revelações tornam aquela reflexão mais urgente. Interesses econômicos sempre existiram por trás dos veículos de comunicação. O problema começa quando atravessam a porta da redação e interferem em decisões que deveriam pertencer exclusivamente aos jornalistas. A questão central, agora, é saber se a ofensiva contra o Itaú foi conduzida com independência editorial ou se, em alguma medida, acabou servindo aos interesses de um empresário que já tentava usar a imprensa contra seus concorrentes. Não se trata de proteger o Itaú de investigações, mas de proteger o jornalismo de quem pretende transformá-lo em arma de uma disputa empresarial.

Fonte: Brasil 247

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