Flávio Bolsonaro faz da submissão a Trump um programa de governo
Por gutoalves — Fundação Perseu Abramo
A relação de Flávio Bolsonaro com Donald Trump é familiar, nos dois sentidos da palavra. Seus repertórios de atuação também. Os governos de Trump e de Jair Bolsonaro comandaram os dois países com mais mortes por Covid-19 no mundo: mais de 1,2 milhão nos Estados Unidos e mais de 700 mil no Brasil. Derrotados nas urnas, Trump e Bolsonaro não aceitaram o resultado e alimentaram as tentativas de golpe que entraram para a história como o 6 de janeiro de 2021, nos EUA, e o 8 de janeiro de 2023, no Brasil. Por elas, Jair Bolsonaro acabou condenado pelo STF a 27 anos e 3 meses de prisão.
Mas a relação entre Flávio e Trump não se resume à afinidade entre projetos de extrema direita excludentes e fundamentalmente anti-igualitários, que defendem a circulação de armas e a retirada de direitos das mulheres. Ela abre caminho para a subordinação do Brasil aos interesses dos Estados Unidos. E não é de hoje que Washington, sob Trump, tenta interferir em questões nacionais.
Em 2019, Jair Bolsonaro tentou nomear o filho Eduardo embaixador nos EUA, rompendo com a tradição de indicar diplomatas de carreira do Itamaraty; diante da reação, a indicação foi abandonada. Desde 2025, Eduardo vive nos Estados Unidos, onde atua abertamente por sanções contra o Brasil; perdeu o mandato de deputado por excesso de faltas e é réu no STF por coação.
Em 2024, Elon Musk, dono do X, descumpriu decisões da Justiça brasileira, manteve no ar contas golpistas e se recusou a nomear um representante legal no país, o que levou à suspensão da rede social no Brasil. Em 2025, Trump vinculou um tarifaço de 50% sobre produtos brasileiros ao processo judicial de Jair Bolsonaro. Nestas eleições, a campanha de Lula denunciou restrições ao alcance de seus conteúdos nas plataformas da Meta. O TSE exigiu esclarecimentos; a empresa negou favorecimento e atribuiu os episódios a falhas técnicas.
Essa ofensiva encontra nas grandes plataformas digitais uma base de poder. Elas controlam parte decisiva da circulação de informações, mas seus critérios de distribuição permanecem opacos. Elon Musk reúne o comando do X e o financiamento da direita norte-americana: segundo dados divulgados em outubro, destinou mais de 276 milhões de dólares a grupos republicanos desde julho, às vésperas das eleições legislativas nos EUA.
O problema político já está posto: decisões capazes de afetar uma eleição ficam concentradas em sistemas privados que só as próprias empresas conseguem examinar integralmente. Soberania também é poder fiscalizar essa infraestrutura e impedir que bilionários estrangeiros definam o debate público brasileiro.
A ameaça à soberania tem conteúdo concreto. O projeto bolsonarista quer enfraquecer o Estado brasileiro como instrumento de decisão coletiva e de desenvolvimento nacional. A receita vem de fora. O “tesouraço” prometido por Flávio copia a “motosserra” de Milei, aliado de Trump, e ecoa o DOGE, o departamento com que Elon Musk, a serviço de Trump, promoveu demissões em massa de servidores federais nos EUA.
Sua face mais concreta é a “Super PEC” que, segundo a Folha de S.Paulo, a equipe econômica de Flávio estuda enviar ao Congresso logo após a eleição: acabar com os pisos constitucionais de saúde e educação e limitar o reajuste de aposentadorias e do BPC, cortando cerca de R$ 250 bilhões em gastos obrigatórios. A submissão fica ainda mais nítida na promessa de, se eleito, integrar o Brasil ao Escudo das Américas, coalizão de segurança liderada por Trump contra o crime organizado, à qual o Chile de José Antonio Kast já aderiu.
Assim, Flávio transforma seu alinhamento internacional em promessa explícita de governo: submeter o país a uma estrutura militar e política comandada por uma potência estrangeira, ampliar a dependência externa e reduzir a autonomia brasileira para decidir sobre sua segurança, sua economia e sua política externa. Cooperar com outros países no combate às facções criminosas é necessário. Aceitar que uma potência estrangeira determine como faremos isso é outra escolha.
Talvez a maior ameaça à nossa soberania esteja nas tão faladas terras raras, um grupo de 17 elementos químicos essenciais à fabricação dos ímãs usados em motores de veículos elétricos e turbinas eólicas, além de equipamentos eletrônicos e militares. Extrair e separar esses elementos exige tecnologia e investimento.
Em meio à crise climática e à transição energética, controlar essas cadeias significa disputar poder econômico. O Brasil tem a segunda maior reserva estimada do mundo, atrás apenas da China. Washington pressiona por acesso prioritário a esses minerais, enquanto o governo brasileiro exige que o processamento e a industrialização aconteçam aqui.
Isso ajuda a entender a dimensão econômica do conflito. Não por acaso, Bad Bunny autorizou a campanha de Lula a usar uma versão de “Lo Que Le Pasó a Hawaii” dedicada à soberania e aos recursos naturais. O cantor porto-riquenho sabe o que significa viver sob a pressão de um Trump que trata seu país como quintal, e a canção é um alerta: não deixemos que façam conosco o que fizeram por lá.
O Brasil que Lula reconstruiu na política externa, promotor da paz e do multilateralismo, limita a pretensão de Washington de organizar o continente e o mundo segundo seus interesses. Desde que voltou ao poder, Trump declarou guerra comercial ao mundo e levou os Estados Unidos a uma guerra de fato contra o Irã, iniciada em fevereiro. Os resultados são alarmantes. Até agora, mais de 380 crianças foram mortas e mais de 1.600 ficaram feridas nos ataques de EUA e Israel ao Irã. Como Lula se projeta internacionalmente? Condenando a guerra e defendo a cooperação e o diálogo na busca de soluções pacíficas.
Enquanto Lula se senta à mesa com o mundo, Flávio faz da submissão um programa de governo. O resultado seria um Brasil mais vulnerável e mais distante de seus próprios interesses. A experiência regional mostra o tamanho da ameaça.
Sob Milei, a Argentina tornou-se mais dependente do FMI, com quem fechou um acordo de US$ 20 bilhões em 2025, e do socorro do Tesouro norte-americano, sem resolver sua situação econômica: o país perdeu 32.290 empresas empregadoras entre dezembro de 2023 e julho de 2026. No Chile, a aprovação de Kast caiu para 27% em outubro, e 42% dos chilenos rejeitam a adesão do país ao Escudo das Américas.
Em 25 de outubro, votaremos pelo destino do Brasil e por sua contribuição ao destino da humanidade. Flávio oferece dependência, privatização da soberania e alinhamento automático com Trump. Lula representa a defesa da democracia, da autonomia nacional, da paz e de uma política externa soberana. Defender a vida contra a morte, a paz contra a guerra e a civilização contra a barbárie está em nossas mãos. A soberania é a condição para que essa escolha continue sendo nossa.
Talita Tanscheit é Professora de Ciência Política do Departamento de Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro
Fonte: Fundação Perseu Abramo