Em nota, Globo reconhece “relação inadequada” de Kachar com anunciante

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Por Redação Brasil 247 — Brasil 247

247 – Frederic Kachar foi desligado do Grupo Globo nesta quinta-feira (15), após a empresa tomar conhecimento de conversas privadas mantidas pelo executivo com o banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. Em comunicado oficial, a companhia reconheceu que as mensagens revelam uma “relação inadequada” entre o então diretor-geral de Mídia Impressa e Rádio e um anunciante do conglomerado de comunicação.

A informação foi divulgada pelo jornal O Globo, que publicou a íntegra da nota institucional. Segundo a empresa, as conversas ocorreram entre outubro de 2023 e julho de 2025 e chegaram ao conhecimento da direção na quarta-feira (14). A decisão encerra uma trajetória de 29 anos de Kachar no grupo, onde ocupava uma das principais posições executivas da área de comunicação.

O reconhecimento público da relação inadequada ocorre em meio às revelações sobre os contatos entre Vorcaro e representantes de veículos de comunicação. A proximidade entre o banqueiro e o executivo levanta questionamentos sobre os limites da relação comercial entre anunciantes e dirigentes de empresas jornalísticas, especialmente diante das informações sobre tentativas de interferência na cobertura de assuntos de interesse do Banco Master.

Na nota, o Grupo Globo afirma que as mensagens às quais teve acesso foram determinantes para a decisão de afastar Kachar. A companhia, entretanto, não apresenta detalhes sobre quais episódios específicos foram considerados inadequados nem esclarece se identificou interferências concretas na produção de reportagens.

Globo reafirma independência editorial após desligamento

Ao anunciar a saída do executivo, a empresa procurou diferenciar a conduta individual de Kachar do trabalho desenvolvido pelas redações de seus veículos.

“A Editora Globo reforça seu compromisso com a ética e a transparência e reafirma a absoluta independência editorial do jornalismo de seus veículos, premissa essencial de sua atuação”, afirma o comunicado.

A nota também faz referência direta à cobertura do escândalo envolvendo o Banco Master, destacando que os veículos do grupo têm publicado informações críticas sobre o caso.

“O protagonismo da cobertura crítica, isenta e independente que tem feito do caso Master é a demonstração concreta do compromisso inegociável de seus veículos com os Princípios Editoriais do Grupo Globo”, sustenta a companhia.

A manifestação representa um reconhecimento institucional de que o relacionamento mantido pelo dirigente com Vorcaro ultrapassou os parâmetros considerados aceitáveis pela própria organização. Ao mesmo tempo, a Globo sustenta que o episódio não compromete a independência de suas redações.

Mensagens revelam pedidos de matérias e negociações comerciais

As conversas que precipitaram a demissão foram reveladas inicialmente pelo TV Pop, em parceria com O Antagonista. O material, extraído do celular de Vorcaro pela Polícia Federal, mostra que a relação entre o banqueiro e Kachar envolvia negociações publicitárias, pedidos relacionados à publicação de reportagens e reclamações sobre a cobertura jornalística do Banco Master.

Segundo o UOL, Vorcaro chegou a procurar o executivo para tentar conseguir espaço na revista Vogue para sua então namorada, a influenciadora Martha Graeff. Em uma das mensagens, o banqueiro sugeriu: “De repente ver se você consegue uma capa pra ela na Vogue”. Kachar respondeu: “Não tem campanha alguma, claro”.

A interlocução também alcançava reportagens críticas ao Banco Master. Em abril de 2025, Vorcaro reclamou de uma publicação da jornalista Malu Gaspar sobre gestores da instituição financeira envolvidos em processos relacionados a operações fraudulentas e manipulação de preços.

“Isso é sacanagem demais fred. numa boa”, escreveu o banqueiro, acrescentando: “Diminui muito o jornalismo da Globo”.

Kachar respondeu que tentava conversar com a jornalista e, posteriormente, afirmou: “Vou falar com ela”. O executivo também considerou o estilo das publicações da colunista cansativo e desnecessário.

As mensagens mostram, contudo, que Kachar nem sempre concordava com as reclamações de Vorcaro. Em uma discussão sobre reportagem do Valor Econômico, o executivo defendeu a publicação, argumentando que o jornal havia apresentado os diferentes lados da notícia.

A existência dessas respostas não elimina os questionamentos sobre a proximidade entre os dois, mas indica que os diálogos divulgados não demonstram, por si só, que todas as solicitações do banqueiro tenham sido atendidas ou que reportagens tenham sido efetivamente alteradas.

Festas privadas e mulheres ucranianas aparecem nas conversas

Outro aspecto da relação envolve encontros privados organizados por Vorcaro, alguns deles com referências à presença de mulheres ucranianas. As mensagens mostram convites dirigidos a Kachar e comentários sobre festas realizadas em ambientes reservados.

Em uma dessas conversas, Vorcaro anunciou: “Se você animar, hoje tem. Fechei um lugar sem risco e sem celular para a verdadeira festa”.

Kachar respondeu: “É nessa que eu vou”. O banqueiro então afirmou: “Você é meu convidado de honra”.

No dia seguinte ao encontro, o executivo enviou uma mensagem agradecendo o convite e fazendo referência ao desgaste provocado pela noite: “Será que alguém anotou a placa do caminhão que me atropelou? Obrigado pelo convite ontem”.

As revelações ganharam maior gravidade diante de outra investigação jornalística, publicada pelo UOL, sobre a suspeita de que Vorcaro financiava uma rede internacional de prostituição envolvendo mulheres estrangeiras, entre elas refugiadas ucranianas.

Segundo a apuração, o banqueiro teria destinado pelo menos R$ 4,3 milhões ao esquema, que envolvia recrutamento de mulheres, deslocamentos internacionais e organização de encontros privados. A Polícia Federal apura suspeitas relacionadas à exploração sexual e ao possível tráfico internacional de pessoas.

Os diálogos divulgados também incluem expressões desumanizadoras utilizadas para se referir às mulheres, entre elas “escravas” e “creche”. A presença dessas referências reforça a necessidade de investigar as condições em que as mulheres eram recrutadas e participavam dos eventos.

Embora as mensagens indiquem que Kachar participou de encontros promovidos por Vorcaro, o material divulgado até agora não comprova que o executivo tenha participado pessoalmente de crimes de exploração sexual ou tráfico de pessoas.

Vorcaro, por sua vez, negou envolvimento em exploração de mulheres. Em manifestação divulgada após as reportagens, afirmou que mensagens privadas foram retiradas de contexto e contestou as acusações.

Demissão encerra trajetória de 29 anos na Globo

Kachar estava à frente de uma estrutura que reunia jornais como O Globo, Extra e Valor Econômico, revistas da Editora Globo e emissoras do Sistema Globo de Rádio, incluindo a CBN.

A posição conferia ao executivo influência sobre decisões empresariais e comerciais de algumas das principais marcas jornalísticas do país. A divulgação de mensagens nas quais um anunciante discutia diretamente com ele reportagens e oportunidades de exposição midiática tornou-se, assim, uma questão de governança e credibilidade institucional.

O Banco Master também manteve relações comerciais com veículos do grupo. Entre elas, esteve o patrocínio ao Summit Valor Econômico Brazil-USA, realizado em Nova York, evento do qual Vorcaro participou como palestrante.

Na manifestação desta quinta-feira, a Globo reconheceu os serviços prestados por Kachar ao longo de quase três décadas e informou que anunciará posteriormente o nome de seu substituto na direção da Editora Globo e do Sistema Globo de Rádio.

A nota não informa se haverá investigação interna sobre as negociações reveladas nas mensagens, nem esclarece se a empresa pretende revisar contratos publicitários ou decisões comerciais tomadas durante o período em que o executivo manteve contato com Vorcaro.

O desligamento ocorre em meio à ampliação das revelações sobre as relações do ex-controlador do Banco Master com empresários, autoridades e profissionais de comunicação. No caso da Globo, o episódio resultou no reconhecimento público de uma conduta considerada inadequada pela própria companhia e na saída de um dos principais integrantes de sua direção.

Fonte: Brasil 247

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