Vocação libertária
Por Augusto Diniz — Carta Capital
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Aos 90 anos, Tom Zé ganha nova biografia, uma exposição e um álbum, mas diz que o mais importante, a esta altura, é cuidar da saúde
Na sexta-feira 9, dois dias antes de completar 90 anos, Tom Zé fez um show no Circo Voador, no Rio de Janeiro, com ingressos esgotados. Durante a apresentação, o cantor e compositor baiano ergueu no palco uma faixa com os dizeres “Democracia para Sempre”.
O músico sabe o que é viver sob a ameaça do autoritarismo. Ele se lembra de quando, no fim de 1968, Gilberto Gil e Caetano Veloso, companheiros de Tropicália, foram presos. “Maria Bethânia conseguiu, por meio de fãs, que os militares permitissem que eles fizessem shows no Teatro Castro Alves, em Salvador, para arrecadar dinheiro para o exílio”, recorda Tom Zé, em entrevista a CartaCapital.
Antes de os amigos serem detidos, ele próprio havia sido atingido pela ditadura. Tom Zé trabalhava como diretor de música do Centro Popular de Cultura (CPC) da União Nacional dos Estudantes (UNE), quando a organização foi fechada, em 1964. Sem emprego, ele quase retornou para Irará, sua terra natal, no interior da Bahia.
Quem o demoveu da ideia foi um admirador de sua música, o suíço Ernst Widmer, então diretor da Escola de Música da Universidade Federal da Bahia, onde Tom Zé estudava. Para que o jovem pudesse permanecer em Salvador, Widmer lhe ofereceu uma bolsa na instituição.
“Se tivesse voltado para Irará, eu ia trabalhar na loja de tecidos de meu pai”, conta. Mas o destino foi outro, e Tom Zé acabou por se tornar um dos mais inventivos e singulares artistas da música brasileira. Seus 90 anos, não à toa, são lembrados em três acontecimentos.
Um é o lançamento do álbum Relicário: Tom Zé – Ao Vivo no Sesc – 1996 (Selo Sesc). Outro é a chegada às livrarias de sua quarta biografia, Tom Zé: Um Vira-Lata na Via Láctea (Alameda), de Christopher Dunn. Por fim, a Caixa Cultural São Paulo exibe, até dezembro, a exposição Tom Zé – 90 Anos do Inquieto Jardineiro de Sons.
O disco ao vivo, registrado no Sesc Pompeia, em São Paulo, é de uma fase áurea do baiano, com músicas suas e clássicos do cancioneiro popular, como Trem das Onze (Adoniran Barbosa). Naquela época, ele se apresentava, basicamente, no exterior, por conta do lançamento internacional do disco The Hips of Tradition (1992), do selo Luaka Bop, de David Byrne.
Antes disso, ele tinha vivido um longo período de isolamento e poucos álbuns. Seu último trabalho de destaque havia sido Estudando o Samba (1976), justamente o disco que chamou a atenção de Byrne.
“O que ele encontrou na minha música foi um jeito que não aparecia nem na tradição dos Estados Unidos nem na da Europa”, diz ele. “É uma mistura da canção popular com a experimentação.”
“Minha vida sempre foi pautada pelo que aprendi enquanto não estava na escola. Tive uma educação na rua, muito valiosa”
Tom Zé explica que seu processo de criação, que explora de forma não convencional as relações entre a palavra e o ritmo, vem muito da infância e da juventude passadas no interior baiano. Foi nas andanças pelas ruas da pequena Irará que nasceu seu interesse pela música: “Minha vida sempre foi pautada pelo que aprendi enquanto não estava na escola. Tive uma educação na rua, muito valiosa”.
Ele relata a satisfação que sentia ao ouvir, nos alto-falantes da cidade, as músicas de Luiz Gonzaga sendo tocadas quase à exaustão. E conta ainda que era comum, nos fins de tarde, ir à praça central ouvir um amigo tocar violão.
“Ele praticava um contraponto (sobreposição melódica) que, um dia, eu iria estudar a fundo”, recorda. “Quando comprei um violão, comecei a praticá-lo fazendo contrapontos. Isso me tirou do planeta Terra. E até hoje me tira”, brinca.
Muitas das letras e melodias de Tom Zé são fruto de coisas que ele viu no interior do Nordeste. É o caso da canção Namorinho de Portão (1968) e da clássica Xiquexique (1997), dele com José Miguel Wisnik.
Suas composições ganharam uma faceta urbana apenas a partir de 1968, quando veio morar em São Paulo. Uma música bastante simbólica de sua relação com a cidade onde vive até hoje é Augusta, Angélica e Consolação (1973). Conforme o compositor foi amadurecendo, as contradições existenciais também passaram a se fazer presentes em canções como O Riso e a Faca (1970) e Tô (1976), com Elton Medeiros.
Nas letras, o artista baiano costuma imprimir um tom sagaz, contestador e irônico. Na sonoridade, propõe novas ideias rítmicas e fragmentos sonoros. E assim seus discos rumam numa direção libertária.
Os álbuns que melhor sintetizam a experiência inovadora de Tom Zé são Todos os Olhos (1973), Nave Maria (1984), Com Defeito de Fabricação (1998), Tropicália Lixo Lógico (2012) e Vira Lata na Via Láctea (2014). Seu último disco autoral de inéditas, Língua Brasileira (2022), é uma investigação profunda da cultura nacional.
O cantor e compositor chega aos 90 anos sem saber quando lançará um novo álbum autoral, embora siga estudando e pesquisando, em livros, temas que possam se desdobrar em novos projetos.
A certeza que ele tem hoje é a de que o mais importante é cuidar da saúde. Ele dedica uma hora por dia à ginástica e à meditação oriental e adota a dieta macrobiótica. “Isso prolongou a minha existência. Meu vigor aos 90 anos se deve a isso”, revela. •
Publicado na edição n° 1435 de CartaCapital, em 21 de outubro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Vocação libertária’
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Fonte: Carta Capital