Vorcaro mandou Metrópoles vetar Cappelli
Por Redação Brasil 247 — Brasil 247
247 – Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, pediu à direção do portal Metrópoles que reduzisse o espaço concedido a Ricardo Cappelli, pré-candidato ao governo do Distrito Federal e crítico da tentativa de compra do Master pelo Banco de Brasília (BRB). A solicitação foi feita em agosto de 2025, meses depois de o banqueiro fechar um contrato publicitário de R$ 20 milhões com o veículo. A resposta da CEO do Metrópoles, Lilian Tahan, foi direta: “Deixa comigo”.
O episódio foi revelado nesta quinta-feira (15) pelo UOL, com base em mensagens extraídas pela Polícia Federal (PF) do celular de Vorcaro. Os diálogos mostram que o empresário mantinha contato direto com a direção do portal, interferia em reportagens antes da publicação e fazia solicitações relacionadas à cobertura de assuntos de interesse do Banco Master.
“Esse Cappelli, você não consegue dar uma freada essa semana? Depois ele volta!”, escreveu Vorcaro a Lilian Tahan. A executiva respondeu: “Deixa comigo”. Naquele momento, Cappelli se posicionava contra a operação que permitiria ao BRB assumir o controle do Master, negócio que enfrentava questionamentos sobre sua viabilidade financeira.
A troca de mensagens revela uma tentativa explícita do banqueiro de restringir temporariamente a exposição de um adversário político da operação bancária. Embora a resposta da dirigente indique disposição para atender ao pedido, as mensagens apresentadas não permitem determinar, isoladamente, se houve efetiva redução da cobertura de Cappelli.
Contrato de R$ 20 milhões antecedeu pedido contra Cappelli
A aproximação entre Vorcaro e o Metrópoles começou em maio de 2024, quando Guilherme Barros, então consultor do banqueiro, promoveu um encontro entre ele e Lilian Tahan. Posteriormente, Barros sugeriu que a executiva fizesse a ponte com Luiz Estevão, proprietário do portal.
Os primeiros pagamentos do Master ao veículo ocorreram nos meses seguintes. Em junho de 2024, o banco desembolsou R$ 1 milhão. Em julho, foram acertados outros R$ 900 mil para projetos de educação financeira relacionados à seguradora Kovr e ao banco digital Will, empresas ligadas ao grupo.
Em novembro daquele ano, uma nova negociação resultou em um contrato de R$ 20 milhões. As mensagens mostram que a diretora de marketing do Master, Ana Matos, considerou elevado o custo do acordo.
“Tá caro esse Metrópoles”, escreveu Ana a Vorcaro.
O banqueiro respondeu: “Coisa mais importante [da] nossa vida é esse Metrópoles”.
Dois dias depois, Vorcaro comunicou que havia autorizado o negócio. “Dei ok pra Lilian”, informou. Ana Matos então perguntou como deveria distribuir os pagamentos entre as empresas do grupo: “O valor que fechamos com o Metrópoles (20 mi) eu faço todo no CNPJ banco ou divido com Kovr e Will?”.
Segundo o levantamento do UOL, o contrato foi quitado pelo Banco Master em 2025, por meio de parcelas de R$ 5 milhões.
Vorcaro interferia em reportagens antes da publicação
A influência do banqueiro não se limitava a pedidos sobre o espaço concedido a personagens políticos. O levantamento do UOL identificou pelo menos 14 textos enviados previamente a Vorcaro pela direção do Metrópoles. Desse total, 11 sofreram alterações após solicitações do empresário.
Também foram identificadas duas reportagens publicadas a pedido do então controlador do Master.
Em 2 de abril de 2025, por exemplo, Vorcaro reclamou de uma informação divulgada sobre uma suposta proposta de aquisição de ativos do banco pelo valor simbólico de R$ 1.
“Proposta de 1 real nunca existiu!”, afirmou.
“Tiramos”, respondeu Lilian Tahan.
Naquele período, o Master já enfrentava dificuldades financeiras, enquanto a proposta de aquisição de 58% de seu capital pelo BRB dependia da autorização do Banco Central.
Em 10 de abril, a CEO do Metrópoles consultou Vorcaro sobre a conveniência de publicar uma comparação entre os balanços das duas instituições financeiras.
“Me diga o que acha: um comparativo entre o balanço dos bancos. Ajuda ou atrapalha?”, perguntou.
“Pode ser bom! Eu conseguiria dar uma olhada antes pra checar os dados”, respondeu o banqueiro.
“Claro!”, concordou Tahan.
A reportagem foi publicada no mesmo dia, depois de ser submetida à avaliação de Vorcaro.
Em outra ocasião, a executiva encaminhou ao empresário uma matéria sobre a venda de ativos do Master ao BTG Pactual. Vorcaro pediu que uma referência à Hapvida fosse retirada do texto, solicitação que foi aceita.
Banqueiro também interferiu em matérias sobre diretor do Banco Central
As mensagens mostram ainda que Vorcaro participou da edição de reportagens relacionadas a Renato Gomes, então diretor do Banco Central responsável pela análise da aquisição do Master pelo BRB.
Em agosto de 2025, Lilian Tahan encaminhou ao banqueiro uma entrevista com o ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto, na qual havia referências a Gomes.
Vorcaro aprovou parte do material, mas sugeriu mudanças para reduzir o destaque dado ao diretor.
“Acho que o texto ta otimo. Mas eu nao falaria tanto do renato, concentraria essa materia no roberto. Senao perdemos o suspense da batida dele! Guardaria essa parte do texto sobre o renato pra materia dele!”, escreveu.
O pedido foi atendido.
Dias depois, Vorcaro recebeu antecipadamente um perfil de Renato Gomes, intitulado “Técnico ou político? Quem é Renato Gomes”.
Dessa vez, o banqueiro solicitou a retirada de uma referência à possível falência do Master. Também sugeriu que a reportagem mencionasse divergências internas no Banco Central e especulações sobre o futuro profissional do diretor.
“Eu retiraria a parte de falência do banco”, escreveu.
Vorcaro propôs ainda incluir a informação “que há um racha no Bacen e Renato estaria contra”, além de “especulações de que, após seu mandato, estaria de malas prontas pra um dos bancões”.
Segundo o UOL, todas essas alterações foram incorporadas à reportagem.
“Vamos publicar, ok??”, respondeu Lilian Tahan.
No dia seguinte, o banqueiro também pediu a exclusão da última frase de um texto sobre um projeto legislativo que permitiria ao Congresso Nacional demitir diretores do Banco Central.
Direção do Metrópoles nega relação entre publicidade e cobertura
Procurada pelo UOL, Lilian Tahan afirmou que o envio antecipado de reportagens a personagens mencionados nos textos fazia parte de seus procedimentos de apuração.
“Checar com a fonte se a matéria reflete o contexto passado para o veículo é uma prática que adoto com personalidades empresariais, da política e do Judiciário”, declarou.
A executiva também negou que o contrato publicitário firmado com o Master tivesse relação com as decisões editoriais do portal.
“Basta ver a quantidade de matérias publicadas pelo Metrópoles expondo a situação das empresas de Vorcaro, tais como Banco Master, Ambipar, Fictor, Oncoclínicas dentre outras”, argumentou.
Sobre o pedido para reduzir o espaço de Ricardo Cappelli, Tahan afirmou que Luiz Estevão, proprietário do Metrópoles, era contrário à aquisição do Master pelo BRB.
Segundo ela, Estevão “sempre foi um crítico ferrenho da compra do Master pelo BRB e, inclusive, forneceu a Cappelli várias análises sobre problemas detectados em balanços do BRB que demonstravam a inviabilidade da operação”.
A explicação, contudo, não esclarece diretamente se o pedido de Vorcaro para diminuir a cobertura de Cappelli foi colocado em prática.
Em relação às reportagens sobre Renato Gomes, Lilian justificou o interesse jornalístico pelo diretor do Banco Central em razão de sua posição contrária à compra do Master e da relevância do BRB para o Distrito Federal.
Contatos continuaram até o dia da prisão
A comunicação entre Vorcaro e a direção do Metrópoles prosseguiu até novembro de 2025, quando a situação financeira do Master já havia se agravado.
Em 17 de novembro, dia da prisão do banqueiro, Lilian Tahan ainda encaminhou textos sobre a possível venda do banco à Fictor para que fossem avaliados antes da publicação.
Depois de realizar alterações solicitadas pelo empresário, a executiva comunicou que o material havia sido divulgado.
“Publicada hahahaha”, escreveu.
O conjunto das mensagens expõe uma relação na qual o principal executivo de uma instituição financeira, ao mesmo tempo que destinava recursos publicitários milionários a um veículo de comunicação, tinha acesso antecipado a reportagens e conseguia interferir em seu conteúdo.
O pedido para diminuir a cobertura de Ricardo Cappelli acrescenta uma dimensão política a essa relação: além de tentar influenciar notícias sobre seus próprios negócios e sobre autoridades responsáveis por fiscalizá-los, Vorcaro buscou limitar o espaço de um crítico da operação entre o Master e o banco público do Distrito Federal.
Fonte: Brasil 247