Dia Mundial do Turismo reforça importância de roteiros estruturados na Grande Reserva Mata Atlântica

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Celebrado em 27 de setembro, o Dia Mundial do Turismo convida a refletir sobre os caminhos para o desenvolvimento responsável do setor. Em 2026, a data tem como tema “Agenda Digital e Inteligência Artificial para Redesenhar o Turismo”, definido pela ONU Turismo. A tecnologia pode ampliar o acesso à informação, facilitar reservas e aproximar visitantes de destinos ainda pouco conhecidos. Para que essa transformação produza resultados concretos, porém, é preciso haver, na outra ponta, experiências bem estruturadas, serviços conectados, empreendedores preparados e benefícios para os territórios que recebem os turistas.
Como turistas, gostamos de viajar e conhecer lugares novos. Sair da rotina pode contribuir para o bem-estar e nos colocar em contato com outras paisagens, histórias e culturas. Ao mesmo tempo, cada escolha de viagem movimenta uma cadeia de hospedagens, restaurantes, transportes, guias, produtores e outros pequenos negócios. Quando planejado e gerido de forma responsável, o turismo fortalece a economia local e pode contribuir para conservar o patrimônio natural e cultural que sustenta o próprio destino.
Ao planejar uma viagem, precisamos decidir aonde ir, onde comer e dormir, o que comprar e quais lugares visitar. Há quem prefira contratar cada serviço separadamente e montar um itinerário sob medida. Outros viajantes buscam a praticidade de um pacote elaborado por profissionais que conhecem o destino. Existe ainda a alternativa híbrida: o visitante escolhe como chegar e onde ficar, mas contrata roteiros específicos para conhecer melhor a região. A decisão depende do perfil de cada pessoa, mas a qualidade das informações e dos serviços influencia todas essas possibilidades.
Em destinos consolidados, a quantidade de informações disponíveis facilita a elaboração de roteiros autoguiados. Já em regiões novas ou em processo de consolidação, os roteiros comercializados oferecem mais conforto e segurança, pois organizam informações, integram serviços e apresentam experiências previamente testadas e validadas.
Esse desafio está presente na Grande Reserva Mata Atlântica, destino turístico cujos primeiros passos foram dados em 2018. A iniciativa atua para estruturar roteiros e fortalecer o turismo de natureza no maior remanescente contínuo de Mata Atlântica do mundo. São cerca de 3 milhões de hectares de áreas naturais conservadas entre São Paulo, Paraná e Santa Catarina, abrangendo 61 municípios.
O território reúne parques e reservas naturais, vida selvagem, montanhas, cavernas, cachoeiras, baías, manguezais e praias, além de patrimônio cultural e histórico. Essa diversidade possibilita experiências como trilhas, canoagem, rafting, rapel, escalada, observação de aves, gastronomia e turismo de base comunitária. A região também está próxima de importantes aeroportos, como Afonso Pena, no Paraná; Guarulhos, em São Paulo; e Joinville, em Santa Catarina, o que amplia seu potencial como destino de natureza.
A existência de atrativos, mesmo excepcionais, não transforma automaticamente uma região em destino competitivo. O desenvolvimento do turismo depende da capacidade de conectar serviços, qualificar empreendedores, construir experiências coerentes, organizar a governança e aproximar a oferta do mercado. A continuidade das rotas também exige redes locais, coordenação entre os envolvidos e avaliação permanente dos produtos. É nesse espaço entre o potencial do território e sua transformação em experiências comercializáveis que atua a Grande Reserva Mata Atlântica.
Para avançar nessa consolidação, a iniciativa criou um grupo de trabalho dedicado à comercialização, com a missão de transformar os ativos da região em produtos turísticos estruturados e conectar a oferta local ao mercado.
Uma amostra dos roteiros pode ser conhecida na vitrine de vendas da iniciativa, onde parceiros da rede oferecem experiências já disponíveis para contratação. A oferta ainda pode crescer, porque há muito a ser apresentado aos visitantes. Para isso, foi iniciado um processo de roteirização com os participantes dos 18 Portais da Grande Reserva Mata Atlântica. Os Portais são territórios menores, semelhantes a arranjos produtivos locais, que representam regiões com vocações turísticas próprias e reúnem atrativos e serviços capazes de sustentar ao menos dois dias de atividades.
Nessas microrregiões, oficinas incentivam a elaboração de roteiros e nivelam conhecimentos sobre conceitos essenciais do turismo. Os participantes identificam possíveis parcerias a partir de quatro verbos centrais para a atividade: comer, dormir, comprar e visitar. Com esse diagnóstico, os membros da rede discutem oportunidades de combinar serviços e experiências que expressem o que cada localidade tem a oferecer.
O processo respeita a diversidade de uma rede com mais de mil membros, dos quais quase 60% integram o setor turístico. Há desde empreendedores em processo de formalização até grandes empresas consolidadas, com diferentes níveis de maturidade e disponibilidade para o trabalho coletivo. Por isso, o avanço ocorre conforme as prioridades, a capacidade de mobilização e o estágio de organização de cada Portal.
As oficinas já produziram resultados, como o guia de roteiros do litoral norte do Paraná, desenvolvido com participantes dos Portais Graciosa, Guarakessaba e Vale do Gigante e apresentado em rodadas de negócios durante o FIT Cataratas 2026. Outros roteiros estão em desenvolvimento e passarão por revisões e testes antes da validação pelo grupo de trabalho de comercialização. Para alinhar os produtos às melhores práticas de sustentabilidade, os participantes também devem integrar o Programa de Qualificação da Grande Reserva antes de disponibilizá-los ao público no site da iniciativa.
O processo está em desenvolvimento e pode ser ajustado conforme os aprendizados de cada etapa. A abordagem cria condições para que cada Portal avance de acordo com sua vocação, capacidade de mobilização e estágio de maturidade. Oficinas, conexões entre empreendedores, testes, qualificação e validação comercial formam uma trajetória progressiva, apoiada por uma ampla rede territorial. A estrutura comum permite que os atores locais desenvolvam, em conjunto, produtos que dificilmente conseguiriam oferecer de forma isolada.
No Dia Mundial do Turismo, esse trabalho mostra que redesenhar o setor também significa organizar o que existe no território para que visitantes encontrem experiências confiáveis e comunidades locais participem da atividade econômica. Ferramentas digitais e inteligência artificial podem ampliar a visibilidade, facilitar escolhas e conectar públicos e produtos. O valor da viagem, entretanto, nasce de roteiros consistentes, relações de confiança e benefícios compartilhados. Quanto mais estruturada estiver essa oferta, melhores serão as condições para que cada visita contribua para a conservação das áreas naturais, a valorização da cultura e a geração de renda na Grande Reserva Mata Atlântica.
Marcos Cruz é turismólogo e coordenador da Rede de Portais da Grande Reserva Mata Atlântica.
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Fonte: umsoplaneta

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