Homem encontra o antigo professor durante uma entrega de aplicativo, é reconhecido pelo sobrenome e percebe que aquele adulto ainda lembrava da redação que ele escreveu aos 12 anos

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Por Gabriel Correa — Catraca Livre

O aplicativo mostrou uma entrega numa rua que Ricardo conhecia apenas de passagem. Ele estacionou a moto, pegou o pacote e chamou pelo sobrenome indicado no pedido. O homem que abriu o portão olhou para ele com atenção e repetiu o mesmo sobrenome, como quem procura uma lembrança antiga. Era seu professor de português da época em que Ricardo tinha 12 anos. O rosto do aluno mudara; o professor demorou a reconhecê-lo. Então mencionou uma redação sobre a janela da casa da avó, escrita mais de uma década antes. Ricardo quase esqueceu a entrega: nem ele imaginava que aquele texto ainda existisse na memória de alguém.

O professor ainda lembrava de uma redação escrita pelo ex-aluno.

Como os dois se reconheceram no portão?

Ricardo confirmou o nome do pedido e aguardou enquanto o morador procurava a chave. O homem perguntou se ele havia estudado numa escola do bairro antigo. Ricardo respondeu que sim e ouviu o nome do professor: Sérgio. A surpresa veio dos dois lados. O aluno lembrava as aulas e o jeito de corrigir textos com perguntas na margem; o professor reconheceu primeiro o sobrenome, raro entre as turmas que acompanhara.

O encontro cabia em poucos minutos, porque outra entrega já aguardava. Sérgio perguntou se Ricardo ainda escrevia. Ele respondeu que fazia listas, mensagens e, de vez em quando, anotações sobre as ruas por onde passava. Achou que o professor falava por gentileza. Até que ouviu a referência à redação e percebeu que não era apenas um cumprimento automático para um antigo estudante.

Qual redação tinha ficado na memória do professor?

Naquele ano, a turma recebeu o pedido de descrever uma cena vista de uma janela. Ricardo escolhera a da casa da avó: da cozinha, ela acompanhava o movimento da rua enquanto preparava café. Ele escrevera sobre o reflexo da chuva no vidro e sobre como adivinhava a chegada dela antes de ouvir os passos. Não lembrava as frases exatas nem guardara a folha corrigida.

Sérgio explicou que o texto se destacara pela atenção aos detalhes cotidianos. Na margem, sugerira acrescentar uma cena em que a avó aparecesse, em vez de apenas descrevê-la. Ricardo lembrava da anotação como uma cobrança difícil. Naquele portão, entendeu que o professor a guardara como sinal de uma voz própria em formação. Nenhum dos dois precisava exagerar o mérito de uma tarefa escolar para reconhecer sua importância.

O reencontro despertou lembranças da infância e do interesse pela escrita.

O que a conversa fez Ricardo lembrar?

Ele contou que escrevera a redação depois de uma tarde de chuva em que não podia sair para brincar. A avó havia pedido que secasse os copos, e ele aproveitara a pausa para observar a rua. Depois da morte dela, aquela janela passara a representar uma época que parecia distante. Ouvir a cena mencionada por outra pessoa trouxe de volta detalhes que não apareciam em fotografia alguma.

Ao pensar na escola, Ricardo lembrou como o estímulo à escrita na infância pode permanecer na vida cotidiana, embora sua própria trajetória tivesse seguido outras curvas. Sérgio perguntou pelo trabalho atual sem julgamento. Ricardo explicou que fazia entregas enquanto se organizava para um curso. Não era uma conversa sobre sucesso ou fracasso, mas sobre o que cada um levara daqueles anos.

Por que o professor se lembrava do aluno?

Sérgio disse que não memorizava todas as redações. Alguns textos, porém, permaneciam associados a uma imagem muito precisa, e a janela de Ricardo era uma delas. Ele lembrava de ter usado o exemplo, sem identificar o autor, para mostrar a outra turma como um detalhe concreto pode dar vida a uma cena. Ricardo ouviu aquilo com estranhamento: seu trabalho escolar tivera um caminho desconhecido depois de voltar para casa.

Antes de se despedirem, o professor comentou que os currículos da educação básica continuavam dando espaço a experiências de linguagem e disse que, se Ricardo voltasse a escrever, valeria guardar algumas páginas. Ricardo respondeu que talvez já estivesse fazendo isso nas notas do telefone. Sérgio recebeu o pacote, agradeceu a entrega e desejou boa sorte. A conversa terminou sem troca de promessas, porque ambos precisavam seguir o dia.

O que ficou depois da entrega?

Na pausa seguinte, Ricardo abriu o aplicativo de notas e procurou uma descrição que havia escrito meses antes sobre um ponto de ônibus vazio. Leu duas linhas, achou uma palavra repetida e riu ao imaginar a antiga anotação na margem. Pela primeira vez em muito tempo, não apagou o texto por considerá-lo pequeno demais. Acrescentou a imagem de uma janela acesa do outro lado da rua.

Sérgio provavelmente continuou sua rotina depois de fechar o portão. Ricardo retomou a moto e a rota indicada no mapa. Nada no encontro mudara instantaneamente seu trabalho ou seus planos. Ainda assim, carregou consigo uma descoberta rara: alguém que o conhecera aos 12 anos lembrava de uma frase escrita num dia chuvoso, e essa lembrança tinha sobrevivido ao tempo sem que ele soubesse.

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Fonte: Catraca Livre

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