Christian Dunker: “A esquerda insultou as pessoas e unificou o inimigo”
Por Dafne Ashton — Brasil 247
247 – O psicanalista Christian Dunker afirmou, em entrevista ao programa Boa Noite 247, da TV 247, que um dos principais erros da esquerda brasileira no enfrentamento ao bolsonarismo foi transformar diferentes setores da sociedade em um único bloco de adversários políticos. Segundo ele, a generalização que associa conservadores, neopentecostais e eleitores indecisos ao fascismo contribui para fortalecer a identidade política da extrema-direita, ao mesmo tempo que dificulta o diálogo com parcelas da população que poderiam ser conquistadas pelo campo progressista.
“O que temos feito? Colocamos todo mundo no mesmo pacote”, questionou Dunker, ao analisar a maneira como o debate político brasileiro passou a ser organizado em torno de identidades coletivas e antagonismos. “Insultamos as pessoas e unificamos nosso inimigo”, afirmou.
Para o psicanalista, compreender o bolsonarismo exige reconhecer que a adesão a movimentos autoritários não depende exclusivamente de convicções ideológicas ou da avaliação racional de propostas políticas. Ela também envolve sentimentos de medo, frustração, ressentimento e desejo de pertencimento, que podem ser mobilizados por lideranças capazes de oferecer uma explicação para o sofrimento e identificar responsáveis pelas dificuldades enfrentadas por seus seguidores.
Dunker explicou que o ódio pode funcionar como um elemento de organização das relações sociais. Pessoas que experimentam insegurança ou sensação de perda de reconhecimento encontram, na identificação com um inimigo comum, uma forma de pertencimento coletivo.
Segundo ele, esse processo começa com o medo e pode se transformar em uma espécie de coragem construída pela hostilidade compartilhada. A disposição para atacar determinados grupos substitui, nesse caso, a elaboração das próprias angústias e contradições.
O psicanalista recorreu às reflexões de Wilhelm Reich, autor de Psicologia de massas do fascismo, para explicar como movimentos autoritários conseguem mobilizar indivíduos que, em outras circunstâncias, não necessariamente compartilham um projeto político fascista.
Na interpretação apresentada por Dunker, o fascismo encontra terreno para crescer entre pessoas que se sentem privadas de reconhecimento, oportunidades ou participação nas decisões da sociedade. Esse sentimento pode existir independentemente da posição econômica ocupada pelo indivíduo.
O exemplo apresentado pelo psicanalista é o de um homem que estudou, trabalhou e construiu expectativas de ascensão social, mas passou a experimentar dificuldades para encontrar emprego ou manter sua posição econômica. Diante da frustração, ele pode interpretar as transformações sociais como uma ameaça ao lugar que acreditava lhe pertencer.
Nesse contexto, discursos que responsabilizam mulheres ou outros grupos sociais pela perda de oportunidades oferecem uma explicação para experiências de sofrimento e ressentimento.
Dunker considera que esse indivíduo, que se percebe sem voz e injustiçado, constitui um dos públicos mais suscetíveis à mobilização fascista. O movimento oferece a ele não apenas um inimigo, mas também a promessa de recuperar uma posição social e uma identidade que considera ameaçadas.
O fascismo como promessa de poder
Outro aspecto destacado por Dunker é a capacidade do fascismo de produzir fantasias de transformação individual e coletiva. Segundo o psicanalista, o movimento não se sustenta apenas na repressão ou na violência, mas também na promessa de que seus seguidores poderão conquistar reconhecimento, vantagens materiais e poder.
“O fascismo é uma máquina de fazer sonhar”, afirmou.
Para explicar esse mecanismo, Dunker mencionou relatos de sua avó, que viveu na Alemanha durante o período de ascensão do nazismo. Segundo ele, parte da população aderiu ao regime porque identificou oportunidades econômicas na perseguição aos judeus.
A exclusão de professores, comerciantes e proprietários judeus permitiu que outros indivíduos ocupassem empregos, assumissem negócios e adquirissem patrimônios retirados das vítimas da perseguição.
“O fascismo é um negócio, é uma forma de eliminar pessoas e adquirir posições econômicas brutalmente”, afirmou.
Dunker observou, entretanto, que nem todos os apoiadores de um movimento autoritário conseguem obter essas vantagens. Muitos aderem porque acreditam que também poderão se beneficiar da exclusão de outros grupos.
A promessa de ascensão, nesse sentido, funciona como um mecanismo de mobilização política mesmo quando não existem condições concretas para sua realização.
Segundo o psicanalista, quando essas expectativas fracassam, os seguidores nem sempre abandonam suas convicções. Em determinadas circunstâncias, podem aprofundar sua identificação com o movimento e transferir para novos inimigos a responsabilidade pelas promessas não cumpridas.
Dunker relacionou esse funcionamento à tendência de movimentos fascistas de produzir conflitos permanentes. Ao oferecer fantasias de poder que não podem ser realizadas, essas organizações precisam continuamente renovar suas promessas e identificar obstáculos que supostamente impedem sua concretização.
Por que a esquerda não consegue dialogar com parte do eleitorado
Ao transportar essa análise para o cenário político brasileiro, Dunker questionou a estratégia de tratar todos os apoiadores do bolsonarismo como integrantes de um mesmo núcleo ideológico fascista.
Ele apresentou uma estimativa de que o contingente de pessoas efetivamente comprometidas com uma visão fascista de sociedade poderia representar cerca de 15% da população, ressalvando que se trata de uma aproximação teórica, e não de um dado de pesquisa apresentado na entrevista.
O problema, segundo ele, é que esse núcleo consegue exercer influência sobre parcelas muito maiores da sociedade, incluindo conservadores, liberais e pessoas que não necessariamente compartilham integralmente suas posições.
“O poder de captura desses 15% em relação aos conservadores, aos liberais e a um monte de gente é muito grande”, explicou.
Na avaliação de Dunker, a esquerda contribui para ampliar essa capacidade de mobilização quando deixa de reconhecer diferenças entre esses grupos e passa a tratá-los como adversários indistintos.
A utilização de insultos e classificações generalizantes pode produzir o efeito contrário ao pretendido: em vez de enfraquecer o bolsonarismo, ajuda a consolidar a identificação de pessoas que poderiam manter divergências entre si.
O psicanalista também criticou a tendência de interpretar a disputa política exclusivamente a partir do comportamento das massas nas redes sociais. Para ele, o ambiente digital favorece formas de relacionamento baseadas em identidades coletivas, nas quais o adversário deixa de ser percebido como uma pessoa e passa a representar um conjunto de características negativas.
Essa dinâmica dificulta a construção de vínculos que permitam questionar convicções e estabelecer conversas sobre experiências concretas.
O encontro pessoal como alternativa ao ódio
Dunker relatou experiências em que procurou conversar individualmente com pessoas identificadas com o bolsonarismo, estabelecendo como condição a ausência de insultos e agressões.
Segundo ele, essas conversas frequentemente produzem reações emocionais que contrastavam com a hostilidade demonstrada no ambiente coletivo.
O psicanalista observou que, quando o interlocutor deixa de representar uma categoria abstrata e passa a ser reconhecido como uma pessoa, a relação pode se transformar.
“Quando você consegue personalizar minimamente esse objeto de ódio, as coisas se transformam”, afirmou.
Essa experiência, segundo Dunker, demonstra a importância de recuperar formas de diálogo que não reproduzam a lógica de enfrentamento característica das redes digitais.
O desafio, reconheceu, está na dificuldade de reproduzir esse tipo de aproximação em uma sociedade na qual milhões de pessoas estabelecem suas relações políticas principalmente por meio de plataformas digitais.
Ainda assim, ele considera necessário deixar de acreditar que as manifestações observadas nas redes correspondem integralmente ao que acontece nas relações sociais.
Para Dunker, a comunicação política precisa reconhecer que os indivíduos possuem experiências, contradições e expectativas que não podem ser reduzidas à identidade partidária ou ao comportamento exibido nas plataformas.
As divisões no campo progressista
Ao final da entrevista, Dunker também chamou a atenção para a maneira como o campo progressista administra seus próprios conflitos.
O psicanalista mencionou o caso de Silvio Almeida para questionar a condução de acusações e disputas internas, defendendo a importância da apuração dos fatos e do respeito aos procedimentos de julgamento. As observações foram apresentadas como parte de sua crítica à fragmentação política da esquerda, sem constituir uma conclusão sobre as acusações envolvendo Almeida.
Na avaliação de Dunker, existe uma contradição entre a capacidade da extrema-direita de reunir diferentes grupos em torno de uma identidade política e a tendência do campo progressista de ampliar divergências internas.
Enquanto o bolsonarismo consegue aproximar setores com interesses e posições distintas, a esquerda enfrenta dificuldades para preservar alianças e dialogar com pessoas que não compartilham integralmente suas concepções.
A reflexão do psicanalista aponta, portanto, para um problema que ultrapassa a comunicação eleitoral. Trata-se de compreender os mecanismos emocionais que sustentam a identificação com o autoritarismo e reconhecer que a disputa política também ocorre no terreno do pertencimento, do reconhecimento e das relações pessoais.
Para Dunker, o enfrentamento ao fascismo não pode se limitar à apresentação de argumentos racionais contra suas lideranças. É necessário compreender por que determinadas pessoas encontram nesses movimentos respostas para suas frustrações e por que continuam identificadas com eles mesmo diante de evidências contrárias às suas expectativas.
Sua análise sugere que a capacidade da esquerda de ampliar o diálogo com a sociedade depende, em parte, de distinguir o núcleo ideológico da extrema-direita dos diferentes segmentos que podem ser atraídos por seu discurso.
Ao transformar todos esses setores em um único inimigo, advertiu Dunker, o campo progressista corre o risco de reforçar precisamente a unidade política que pretende combater.
Fonte: Brasil 247