Plantar, prensar e colher
Por Gabriel Alves – Diretor de Redação — Revista Pesquisa Fapesp
Nos primeiros anos da Segunda Guerra Mundial, dois laboratórios perseguiam uma pergunta que parecia pequena diante da encrenca global: de que é feita a maconha? Na Universidade de Illinois, Roger Adams (1889-1971), que chefiava o departamento de química, trabalhava a pedido do governo norte-americano. As autoridades, que haviam acabado de, na prática, proibir a planta com o Marijuana Tax Act, queriam saber exatamente o que havia dentro dela. Na Inglaterra, em Manchester, sob bombardeio, Alexander Todd (1907-1997), diretor dos laboratórios de química da universidade e futuro Nobel de Química, trabalhava com um haxixe indiano (a resina extraída das flores da cannabis, prensada em bloco) que um colega refugiado do nazismo despachara da Índia em mala diplomática. Os dois isolaram o canabidiol, o CBD, e disputaram a autoria da descoberta. Nenhum dos dois achou o que procurava: o tetra-hidrocanabinol (THC) só seria identificado em 1964, em Jerusalém, por Raphael Mechoulam (1930-2023).
Em toda a década de 1940, o PubMed, plataforma que reúne as mais importantes revistas científicas da área biomédica, registrou menos de 50 artigos com a palavra “cannabis”. Em 2006 foram 533; em 2025, mais de 4.100, recorde histórico. Boa parte dessa produção não investiga os efeitos do uso recreativo, e sim possíveis aplicações médicas — das epilepsias graves da infância aos espasmos da esclerose múltipla, passando por insônia, autismo e síndrome de Tourette. A nova trincheira, contudo, é acumular evidências de qualidade para essas e outras condições. É o que a dupla de reportagens de capa desta edição procura mostrar.
De um lado, faltam estudos maiores, mais longos e bem desenhados. Como disse à revista o professor Lucindo Quintans Júnior, da Universidade Federal de Sergipe, “o entusiasmo clínico e comercial correu mais depressa que os ensaios clínicos”.
De outro, o mercado avança descompassado: as autorizações da Anvisa para uso de canabinoides saltaram de 850, em 2015, para quase 195 mil em 2025, ano em que o setor movimentou perto de R$ 1 bilhão no país. Convivem aí dois regimes: 25 empresas detêm os 52 produtos autorizados pela agência, registro restrito à indústria farmacêutica; as associações de pacientes, 315 com cadastro ativo, fornecem a seus associados mediante decisão judicial.
Em 1832, os mistérios por trás da flora também encantavam certo naturalista inglês de 23 anos que, de passagem pela Bahia, colheu uma ervinha de beira de caminho. O espécime seguiu para a Inglaterra e nunca regressou. Mas voltou, de certa forma, e em altíssima resolução: a reportagem sobre a iniciativa Reflora conta como o Brasil vem recuperando, em imagem, a flora que saiu daqui em caixotes. Plantas prensadas e secas são o arquivo de onde a botânica tira boa parte de suas respostas — e parte importante do arquivo mora no estrangeiro. Só os Jardins Botânicos Reais de Kew, em Londres, guardam cerca de 300 mil amostras brasileiras. Desde 2010, o programa fotografa essas fichas uma a uma e as devolve a um herbário virtual hospedado no Rio de Janeiro: já são 265 mil vindas de Kew e 250 mil do Museu Nacional de História Natural em Paris. A ervinha baiana é uma delas; o coletor era Charles Darwin (1809-1882).
No Jardim Botânico do Rio, as plantas repousam em armários a 18 °C constantes. Fora dali, na lavoura, temperatura não se escolhe. Com o El Niño provavelmente da categoria “muito forte” em ação, pesquisadores redesenharam o mapa dos efeitos do fenômeno na agricultura. O resultado é uma redistribuição, e não um veredito: algumas culturas podem até se beneficiar da chuvarada, dependendo de quando ela vier, mas o tipo de solo, o momento do ciclo em que a água chega e um veranico de dez dias na hora errada embutem erro em qualquer projeção.
Mas o campo também produz o que nenhum modelo prevê. O interior guardou um instrumento que já passou pelas mãos dos jesuítas, dos tropeiros e dos astros do sertanejo de hoje: a viola, trazida no século 16 como ferramenta de catequese, foi se “acaipirando” terra adentro e virou tese de doutorado premiada e livro. Em 1929, a indústria musical achava que viola caipira não vendia. O folclorista Cornélio Pires (1884-1958) bancou a prensagem, encomendou milhares de discos e provou o contrário. Algumas colheitas demoram, outras não, mas todas dependem de alguém ter plantado (e cuidado).
Fonte: Revista Pesquisa Fapesp