Dobrar a aposta: resistir para vencer
Por Ronaldo Lima Lins — Brasil 247
Eleição não é um jogo. Jogos terminam quando o juiz apita o final da partida. Ou, no xadrez, quando um dos adversários perdeu as peças principais e o outro decreta xeque-mate. Na História, na existência humana, não é assim. A quantidade dos elementos em pauta não obedece a regras estabelecidas. Surpresas de todos os tipos alteram a estrutura das situações e o imponderável se impõe às vezes para espanto geral. Por isso, não se pode assumir vitórias antes da hora. E quem o faz paga frequentemente o preço do ridículo como ocorreu na disputa por uma prefeitura de São Paulo, com Fernando Henrique e Jânio Quadros. O primeiro, já cheio de si, sentou-se e se deixou fotografar na cadeira do alcaide, para admitir, depois, que o outro era o ganhador e assistir ao espetáculo de vê-lo borrifando o lugar com detergente para desinfetá-lo. A cena não saiu das retinas de quem a presenciou.
“O homem, meu general, é muito útil. Sabe voar e sabe matar. Mas tem um defeito: sabe pensar”. O poema de Bertold Brecht, de humor agudo e inteligente, diz tudo. Quando se trata de movimentos humanos, quem pensa melhor e com maior brilhantismo, se mostra capaz de vitórias incontestáveis. Este é também o caso de várias eleições em nossa época, um momento abundante em recursos sofisticados e de complexa articulação. Um analista arguto não deixará de notar no cenário presente a imprudência de Flávio Bolsonaro cantando vantagens antes do tempo e pisando no acelerador a ponto de se imaginar subindo a rampa em companhia do pai e planejando equipes ministeriais. A arrogância o levou a esquecer que enfrenta alguém de grande experiência, com currículo e obras a oferecer, antes que o suponham descartado. Afinal, a pequena margem de distância que obteve contra ele no primeiro turno, pode ser alcançada e superada no próximo dia 25. Decretar o encerramento da disputa a esta altura soa como imprudência.
E, ainda que alguns não acreditem, há o peso das ideias. O 01 repete velhos postulados da extrema direita: deixar a Constituição a seu gosto, privatizar a economia, boicotar o ensino universitário, desprezar as conquistas sociais e um elenco de medidas insensíveis, incluindo a extensão dos regimes de trabalho. Isto para não mencionar os cortes no sistema econômico: controle das aposentadorias e fim dos reajustes do salário mínimo. Trata-se, em resumo, do avesso do que vivemos e usufruímos na atual gestão do governo e do que promete um quarto mandato do atual presidente.
Os que integram a campanha de Lula não são tolos. É gente experiente, com grande e criativa capacidade de pensar. Nada lhes escapa, inclusive, além das impressionantes manifestações de rua, a utilização das redes sociais com o conjunto dos seus requisitos. Soma-se a isso o fato de que se revelam mestres na arte de resistir. E resistir constituiu, inúmeras vezes, a chave das conquistas impossíveis.
Fonte: Brasil 247