Comando Vermelho tem arsenal com munição desviada do Exército e de forças policiais
Por Dayane Santos — Brasil 247
247 – Munições compradas pelo Exército e por diferentes órgãos de segurança pública foram encontradas em apreensões relacionadas ao Comando Vermelho. Um levantamento do Instituto Sou da Paz, divulgada pelo Fantástico, da TV Globo, neste domingo (11), identificou que quatro em cada dez cartuchos apreendidos com integrantes da facção nos casos examinados eram de fabricação nacional.
O levantamento também constatou que parte das munições havia sido produzida pouco tempo antes de ser apreendida, levantando questionamentos sobre os caminhos percorridos por esses materiais até chegarem às mãos do crime organizado. A análise foi construída a partir do cruzamento de laudos periciais e processos judiciais, com a identificação de padrões recorrentes em diferentes estados brasileiros.
Os resultados apontam para uma dificuldade central na fiscalização: embora seja possível identificar a origem de muitos cartuchos, nem sempre há informações suficientes para reconstruir sua trajetória após a compra e a distribuição pelas instituições responsáveis.
Munições de órgãos públicos aparecem em diferentes apreensões
Um dos episódios analisados envolve uma carga de 1.804 cartuchos interceptada no Distrito Federal, em 2019, que tinha o Rio de Janeiro como destino. Entre o material apreendido, os pesquisadores identificaram lotes associados ao Exército, às polícias militares do Distrito Federal e do Rio de Janeiro, ao Fundo Estadual de Segurança de Mato Grosso e ao Ministério da Justiça.
Segundo o estudo, munições desses mesmos lotes já haviam aparecido em outras apreensões. A recorrência indica que o problema não se limita necessariamente a episódios isolados e reforça a necessidade de investigar como materiais adquiridos legalmente passam a circular fora dos canais autorizados.
A pesquisa também identificou munições pertencentes às próprias forças de segurança entre os cartuchos utilizados por criminosos em ataques contra policiais durante a megaoperação realizada no Rio de Janeiro, em 2025. O dado amplia a preocupação com a circulação ilegal de munições originalmente destinadas a instituições públicas responsáveis pela segurança.
Apreensão em Fortaleza expõe falhas na investigação
Outro caso relevante ocorreu em janeiro de 2025, em Fortaleza, no Ceará. Uma investigação policial identificou um plano atribuído ao Comando Vermelho para resgatar presos de uma unidade prisional do estado.
Durante o monitoramento de integrantes da organização criminosa, policiais penais que atuavam na área de inteligência foram surpreendidos por homens armados. Um agente morreu e outro ficou ferido. Quatro presos serão submetidos a júri popular em razão do caso.
Na ação, os policiais apreenderam 400 cartuchos de fuzil. De acordo com o Instituto Sou da Paz, fotografias do material mostravam caixas com embalagens originais de munições brasileiras. Essas informações, entretanto, não foram incorporadas ao inquérito policial, o que impediu que fosse iniciada uma tentativa de rastreamento a partir dos elementos registrados nas imagens.
O episódio evidencia como a ausência de informações relevantes nos procedimentos investigativos pode comprometer a identificação da origem de munições utilizadas pelo crime organizado. Mesmo quando o material é apreendido e existem indícios que permitiriam investigar sua procedência, a falta de documentação adequada pode dificultar o trabalho das autoridades.
Código de rastreabilidade não garante o controle da circulação
A identificação de munições nacionais é possível porque, há cerca de duas décadas, cartuchos adquiridos por forças de segurança passaram a receber códigos de rastreabilidade gravados individualmente. O sistema permite identificar a procedência do material encontrado em locais de crime e relacioná-lo aos registros de fabricação e fornecimento.
O problema está nas etapas posteriores à aquisição. Segundo a pesquisa, as instituições podem confirmar que compraram e receberam determinada quantidade de munições, mas nem sempre conseguem esclarecer como o material foi distribuído depois de chegar aos depósitos.
Essa lacuna limita a capacidade de reconstruir a cadeia de circulação dos cartuchos e identificar em que momento ocorreram eventuais desvios, furtos ou repasses irregulares. O rastreamento da origem, portanto, não significa necessariamente que seja possível determinar quem teve a posse do material ao longo de todo o percurso.
A dificuldade ganha relevância diante da presença de munições de diferentes órgãos públicos em apreensões realizadas em localidades distintas. Sem informações completas sobre a distribuição e a movimentação dos estoques, a investigação pode identificar a instituição responsável pela aquisição sem conseguir esclarecer como os cartuchos chegaram ao mercado ilegal.
Polícia Militar do DF relata revisão de procedimentos
A Polícia Militar do Distrito Federal também se manifestou sobre o controle de munições. Em nota, a corporação afirmou que revisou e aprimorou seus procedimentos internos de fiscalização, armazenamento e controle de carga.
De acordo com a instituição, as mudanças têm como objetivo fortalecer os mecanismos de acompanhamento do material sob sua responsabilidade.
A manifestação ocorre em meio às evidências de que munições associadas à corporação apareceram em apreensões de cartuchos que integravam a carga interceptada em 2019. O levantamento, entretanto, não estabelece, por si só, a responsabilidade individual de agentes ou esclarece em que circunstâncias os cartuchos foram desviados.
Fonte: Brasil 247