Por que um católico não deveria votar em Flávio
Por Acioli Cancellier de Olivo — Brasil 247
Prá começo de conversa: sou ateu e não me importo com a religião dos governantes, desde que não queiram alterar o que determina a Constituição, um Estado Laico e respeitem as religiões alheias, por mais exóticas que sejam, como a adoração ao Bule Voador.
Em criança fui criado numa família católica e nossos vizinhos eram “crentes”, forma preconceituosa para designar o que hoje formam o segmento evangélico. Meu pai me colocou em uma aula de violão com o maestro da banda e coral da Assembleia de Deus, que abriu a minha mente e meus ouvidos, depois de 3 meses: você não tem condições de aprender a tocar nenhum instrumento musical, pois não tem “ouvido”. Todavia, ele me convidou à sua igreja, onde eu ia aos cultos para ouvir a banda tocar e admirar os belíssimos hinos entoados pelo coral, Vim a saber mais tarde, que a maioria dos hinos evangélicos tem origem na Igreja Batista Norte-Americana, que era majoritariamente formada por negros, portanto, as raízes dos hinos tem matriz africana.
A discussão sobre o voto de católicos em candidatos de matriz evangélica envolve uma análise profunda de eclesiologia, teologia sacramental, história e doutrina social da Igreja, oui seja, o catolicismo. Embora a Igreja Católica não proíba o voto em candidatos de outras denominações cristãs, na minha opinião leiga, existem diversas razões que levam um católico, sob o ponto de vista estritamente religioso, a preterir um candidato evangélico em favor de uma alternativa que melhor represente a cosmovisão católica.
A primeira e mais fundamental dessas razões, para o catolicismo, a verdade revelada é preservada e interpretada por meio do Magistério da Igreja, em uma linha de sucessão apostólica ininterrupta que remonta a São Pedro, enxergando a Igreja como o Corpo Místico de Cristo, uma instituição visível e hierárquica dotada de autoridade espiritual. Por outro lado, as vertentes evangélicas, principalmente as tele-mega-igrejas, baseiam-se no livre exame da Bíblia, o que resulta em uma fragmentação de doutrinas e na ausência de uma autoridade central de magistério.
Se eu fosse um católico praticante, transferir a representação política a um candidato que rejeita a autoridade do Papa, veria como um endosso indireto a uma visão teológica que fragmenta a unidade da Igreja desejada por Cristo.
Estudei um pouco de antropologia cristã, mas nos poucos anos que pratiquei o catolicismo, sei que a vida de um católico é profundamente sacramental, como Batismo, Crisma, Eucaristia, Confissão e outros. Já o evangélico, em sua maioria, adota uma visão simbólica e não sacramental da fé. Essa divergência não é meramente litúrgica, mas molda a forma como o indivíduo enxerga o sofrimento humano, a redenção e a própria ação do Estado.
Um governante católico, idealmente formado na Doutrina Social da Igreja, entende o cuidado com os mais vulneráveis não apenas como uma ação de caridade individual ou política assistencialista, mas como uma expressão da dimensão comunitária e sacramental da fé. Por outro lado, o governante evangélico contemporâneo, frequentemente influenciado por teologias da prosperidade ou visões individualistas da salvação, pode contrastar com a visão orgânica e comunitária do catolicismo tradicional.
Uma polêmica que agitou o debate eleitoral antes do primeiro turno foi a questão da devoção e respeito à Nossa Senhora Aparecida. Para o católico a devoção mariana, na figura da Virgem Maria e o papel dos santos são pilares da piedade popular e da identidade católica. Historicamente, e no cotidiano religioso brasileiro, não são raros os episódios de tensionamento em que lideranças ou pastores evangélicos atacam ou desvalorizam as imagens e dogmas marianos, rotulando a devoção católica como idolatria. Para o eleitor católico, que coloca sua fé no centro de suas decisões, votar em um candidato que pertence a uma comunidade eclesial que hostiliza ou rejeita ativamente a Mãe de Deus e os padroeiros da nação gera um profundo desconforto espiritual e moral. Existe o receio legítimo de que o fortalecimento político de grupos evangélicos resulte na marginalização de símbolos e feriados católicos no espaço público.
Além das questões dogmáticas, a Doutrina Social da Igreja oferece um arcabouço político-filosófico, muito distinto do pragmatismo político de muitas vertentes evangélicas. Esta Doutrina baseia-se nos princípios da dignidade da pessoa humana, do bem comum, da subsidiariedade e da solidariedade, rejeitando tanto o coletivismo exacerbado quanto o individualismo liberal selvagem.
Na prática da política brasileira, muitas candidaturas evangélicas se alinham fortemente a discursos baseados na Teologia do Domínio, da Prosperidade ou em moralismos pontuais, focando quase exclusivamente em pautas de costumes e negligenciando debates estruturais sobre a justiça social, os direitos dos trabalhadores, a preservação ambiental, ponto central do magistério do Papa Francisco, como na encíclica Laudato Si’ . Para o católico atento, a redução da moral cristã a uma agenda restrita de costumes desfigura a integralidade do Evangelho defendida pela Igreja.
Ademais, a relação entre Igreja e Estado configura um divisor de águas teológico-político. O catolicismo, após séculos de maturação filosófica e impulsionado pelo Concílio Vaticano II, defende a justa autonomia das realidades terrestres e a liberdade religiosa. A Igreja Católica compreende que o Estado deve ser laico para garantir a paz e a liberdade de todos os cultos, sem que uma denominação utilize a máquina pública para se impor.
Em contrapartida, observa-se em setores do movimento evangélico, principalmente o neo-pentecostal, o avanço de um projeto de poder que visa a ocupação de espaços estatais para o favorecimento de suas próprias instituições, mídias e agendas teológicas, conhecido como reconstrucionismo cristão ou teocracia velada. Sobre teocracia evangélica: O Conto da Aia, romance de 1985 da autora canadense Margaret Atwood, nos alerta sobre os riscos de uma teocracia totalitária fundamentalista cristã, que pode derrubar governos eleitos democraticamente.
O eleitor católico, sob o ponto de vista da preservação de sua própria liberdade e da ordem social justa, pode ver nessa postura uma ameaça ao pluralismo e à harmonia inter-religiosa.
Sob a perspectiva da história e da preservação cultural, o catolicismo é a matriz formadora da identidade e da cultura brasileira. A arquitetura, as festividades, o calendário e o próprio ethos nacional estão impregnados da tradição católica. A ascensão política de um bloco evangélico com traços iconoclastas põe em risco, na visão do fiel tradicional, o patrimônio histórico e imaterial católico, que muitas vezes é alvo de tentativas de apagamento ou substituição por manifestações culturais gospel. Votar em um candidato evangélico pode significar, a longo prazo, colaborar com a desestruturação dessa hegemonia cultural católica que, para o fiel, preserva valores cristãos históricos essenciais de forma mais equilibrada e perene.
Por fim, a divisão teológica sobre a moralidade pública e o método de evangelização também influencia essa escolha. Enquanto o catolicismo privilegia uma abordagem que busca a conversão do coração e a transformação das estruturas sociais por meio do testemunho e da caridade, certas correntes evangélicas focam em um legalismo punitivo e na judicialização da moral através do aparato estatal. Essa mentalidade pode gerar uma sociedade de vigilância moralista que desrespeita o livre-arbítrio e o discernimento da consciência individual, conceitos caros à teologia moral católica desenvolvida por pensadores como São Tomás de Aquino.
Em suma, as razões que fundamentam a relutância de um católico em votar em um evangélico transcendem a mera disputa partidária. Elas tocam na essência de como cada tradição cristã compreende a salvação, a sociedade, a autoridade de Cristo na Terra e o papel do próprio ser humano no plano divino. Ao optar por não conceder o voto a um candidato evangélico, o católico busca resguardar a integridade de sua fé, a integridade da Doutrina Social da Igreja e a própria harmonia do tecido social, garantindo que a condução da sociedade não seja guiada por princípios que contrariem a tradição apostólica e o Magistério Romano.
Fonte: Brasil 247