Brasil registra um caso de violência política a cada nove horas durante campanha eleitoral
Por Planeta Ella — Mídia NINJA

Brasil registra um caso de violência política a cada nove horas durante campanha eleitoral
Misoginia, racismo e transfobia marcaram 75,7% dos ataques contra mulheres.
Planeta Ella
ELLA é uma articulação internacional que parte da cultura e da comunicação para pensar, fortalecer e coletivizar os feminismos.

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11 de outubro de 2026
12:23
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ELLA é uma articulação internacional que parte da cultura e da comunicação para pensar, fortalecer e coletivizar os feminismos.
Mulheres cisgênero e trans foram as principais vítimas de violência política durante a campanha do primeiro turno das eleições de 2026. Dos 134 episódios registrados no Brasil entre 16 de agosto e 4 de outubro, 70 atingiram mulheres, o equivalente a 52,2% do total. O levantamento revela uma ocorrência a cada nove horas e aponta que os ataques contra elas são atravessados por misoginia, racismo e transfobia.
Os dados fazem parte da quarta edição da pesquisa Violência Política e Eleitoral no Brasil, produzida pelas organizações de direitos humanos Terra de Direitos e Justiça Global e divulgada em 7 de outubro. O número de casos supera o registrado no primeiro turno de 2022, quando foram contabilizados 121 episódios.
Durante a campanha, a violência política foi cerca de cinco vezes mais frequente do que no período sem disputa eleitoral. Entre 28 de outubro de 2024 e 15 de agosto de 2026, intervalo de aproximadamente 22 meses, as organizações identificaram 354 episódios, uma média de uma ocorrência a cada 44 horas.
“Não se pode admitir a naturalização de episódios violentos que ocorrem com tamanha intensidade e frequência, cujo propósito manifesto é cercear a livre expressão de ideias e propostas de determinados representantes políticos”, afirma Gisele Barbieri, coordenadora de Incidência Política da Terra de Direitos.
Segundo ela, esse cenário de hostilidade provoca intimidação e rupturas profundas no sistema democrático, exigindo uma resposta do Estado proporcional à gravidade da situação.
Candidatas enfrentam violência desproporcional
A desigualdade de gênero fica ainda mais evidente quando considerados apenas os ataques contra pessoas com candidaturas registradas. Dos 102 episódios desse grupo, 60 atingiram mulheres, correspondentes a 58,8%. Embora representem cerca de um terço das candidaturas, elas foram vítimas em mais da metade das ocorrências dirigidas a quem disputava as eleições.
No conjunto dos 134 episódios, homens foram vítimas em 61 casos. Os três restantes tiveram como alvos sedes do PT em Macapá e Campina Grande e a equipe de campanha de uma candidata.
A proporção de episódios contra mulheres passou de 50,6% no período pré-eleitoral para 52,2% no primeiro turno. O percentual também supera os resultados de edições anteriores da pesquisa: 41,3% no período pré-eleitoral de 2020 a 2022, 38% no período eleitoral de 2022 e 38,4% entre 2022 e 2024.
A diferença aparece nas formas de violência. Entre os 97 episódios de violência simbólica, que incluem ameaças e ofensas, mulheres foram vítimas em 60 casos, ou 61,9%. Já entre os 32 episódios de violência física, agressões, atentados e assassinatos, elas foram atingidas em 21,9%.
Todas as sete ameaças de violência sexual tiveram mulheres como vítimas. Os dois assassinatos e dez dos 11 atentados atingiram homens, assim como as 12 ocorrências envolvendo armas de fogo.
Misoginia, racismo e transfobia ampliam as barreiras à participação
Dos 70 episódios contra mulheres, 53 apresentaram marcadores discriminatórios, o equivalente a 75,7%. Foram identificados machismo ou misoginia em 45 casos, racismo em nove e transfobia em cinco. As discriminações podem se sobrepor em uma mesma ocorrência.
O recorte racial também revela desigualdades. Pessoas negras, pretas e pardas, foram atingidas em 60 episódios, correspondentes a 44,8% do total. Entre as 70 ocorrências contra mulheres, 19 tiveram mulheres pretas como vítimas — mais de uma em cada quatro.
Mulheres negras foram vítimas em 24,6% de todos os episódios de violência política, embora representassem 18,2% das candidaturas. Dos 13 casos em que o racismo apareceu explicitamente como marcador de violência, oito atingiram mulheres pretas.
“Enquanto os homens são atacados por sua atuação política, mulheres, pessoas negras e pessoas trans enfrentam também o racismo, o machismo e a transfobia que estruturam a sociedade brasileira”, observa Glaucia Marinho, coordenadora da Justiça Global.
Para ela, a combinação dessas discriminações reforça as barreiras à participação política e dificulta tanto o acesso quanto a permanência desses grupos nos espaços de poder.
Ameaças foram a forma mais recorrente de violência
A pesquisa identificou 64 ameaças, 33 episódios de ofensa e 19 agressões físicas durante o primeiro turno. Também foram registrados 11 atentados, cinco casos de criminalização e dois assassinatos. As pessoas assassinadas eram um vereador e um secretário municipal.
Ao todo, 114 pessoas foram vítimas, e 11 delas foram atingidas mais de uma vez. Dos 134 episódios, 102, ou 76,1%, foram dirigidos a pessoas com candidaturas registradas.
Os outros 32 casos atingiram pessoas que não disputavam as eleições e alvos coletivos. O levantamento cita 19 vereadores, três prefeitos, um vice-prefeito e dois secretários, além de quatro casos contra dirigentes partidários e ataques contra sedes do PT e a equipe de uma candidata.
Também houve uma mudança nas esferas políticas mais atingidas. No período pré-eleitoral, 63% dos episódios envolviam agentes municipais, como vereadores e prefeitos. Durante o primeiro turno, a violência se concentrou em pessoas que disputavam ou exerciam cargos federais e estaduais.
Foram registrados 54 episódios relacionados à esfera federal, equivalentes a 40,3% do total, e 48 à esfera estadual, ou 35,8%. Outros 25 casos, correspondentes a 18,7%, atingiram pessoas vinculadas à esfera municipal.
Mais da metade dos casos ocorreu nas ruas
As ruas, atividades de campanha e eventos públicos foram locais de 71 episódios, mais da metade do total. Para Barbieri, esses dados ajudam a identificar os ambientes de maior vulnerabilidade e a formular medidas de proteção.
“Quando eleitas, essas pessoas passam a ser vítimas de violências principalmente nos seus locais de atuação, seja no parlamento ou no executivo”, aponta.
Os ambientes virtuais concentraram 31,3% dos casos durante o primeiro turno. No período pré-eleitoral, essa proporção era de 42,4%. Apesar da redução percentual, Barbieri destaca a preocupação com a circulação de conteúdos violentos e relaciona o problema à ausência de regulação das redes sociais.
“É preciso que as plataformas tenham responsabilidade sobre a circulação desses conteúdos violentos. Nas redes ou nas ruas, a violência está sendo utilizada para intimidar e impedir que determinadas candidaturas e propostas possam se expressar”, avalia.
São Paulo liderou os registros por unidade federativa, com 16 casos, seguido por Rio Grande do Norte, com 13, Minas Gerais, com 12, e Rio Grande do Sul, com dez. Na comparação regional, o Nordeste registrou 48 episódios, enquanto o Sudeste contabilizou 38.
Nenhum episódio havia resultado em punição efetiva
Em 26 casos, correspondentes a 19,4% do total, o autor identificado era um agente público. Entre eles, 14 eram parlamentares ou governantes, sete eram agentes de segurança e cinco eram outros agentes públicos.
Até o encerramento da coleta de dados, nenhum dos 134 episódios havia resultado em punição efetiva.
As atuações da Justiça Eleitoral identificadas durante a campanha, em pelo menos oito casos, se limitaram a medidas de urgência, como remoção de vídeos, suspensão de perfis e concessão de medidas protetivas. Embora possam interromper a violência em curso, essas medidas não representam, por si só, a responsabilização dos autores.
Levantamento acompanha violência política desde 2016
A pesquisa da Terra de Direitos e da Justiça Global acompanha episódios de violência política para evidenciar seus efeitos sobre a participação política, a democracia e o exercício de direitos.
Desde 2016, foram mapeados 2.071 episódios de violações contra agentes políticos e lideranças, considerando os dados divulgados em 7 de outubro de 2026.
A coleta é realizada por meio do monitoramento e da checagem diária da cobertura jornalística nacional e regional, com cruzamento de registros oficiais e denúncias públicas.
Os resultados consolidados de 2026, incluindo os episódios registrados durante o segundo turno, serão divulgados em novembro.
Fonte: Mídia NINJA
