Em 1825, plantaram uma árvore frutal da América do Sul para alimentar seus cidadãos: 200 anos depois, é uma espécie invasora que buscam eliminar com drones e insetos
Por Carlos Emanoel Freires dos Santos — Catraca Livre
A espécie invasora que hoje preocupa pesquisadores no Havaí começou como uma solução alimentar importada da América do Sul. A guayaba-morango, Psidium cattleyanum, uma árvore frutífera levada do Brasil em 1825, se espalhou por florestas tropicais e agora exige drones, insetos e controle biológico para conter sua expansão.
Como uma árvore frutífera da América do Sul virou problema no Havaí?
A árvore frutífera chegou ao arquipélago com uma finalidade simples: produzir alimento. O fruto vermelho, parecido com uma pequena goiaba, se adaptou bem ao clima úmido e às áreas de mata, mas essa adaptação saiu do controle quando a planta passou a ocupar espaços antes dominados por vegetação nativa.
Originária da América do Sul, a espécie encontrou no Havaí um ambiente sem os mesmos inimigos naturais que regulam seu crescimento em seu território de origem. Com isso, formou manchas densas, dificultou a regeneração de plantas locais e mudou a estrutura de trechos inteiros de floresta.
Drone entra no combate em áreas de mata fechada
O drone virou ferramenta de campo porque muitas áreas afetadas ficam em terrenos montanhosos, com acesso difícil para equipes a pé. Em testes feitos na Reserva Florestal de Olaʻa, o equipamento lançou pequenas unidades com insetos sobre árvores selecionadas, como detalha um estudo sobre o manejo da planta invasora.
- O método manual acertou 97,6% das aplicações, mas levou cerca de 12 minutos por árvore.
- O drone alcançou 86,6% de acerto e reduziu o tempo para 2,8 minutos por exemplar.
- Após 12 meses, 63% das árvores tratadas pelo ar tinham sido colonizadas pelo inseto usado no manejo.
Controle biológico usa inseto específico contra a expansão
O controle biológico usa o Tectococcus ovatus, um inseto originário do Brasil que se alimenta dessa planta de forma bastante específica. Ele provoca agallas nas folhas, estruturas que enfraquecem a copa e reduzem a capacidade de crescimento da árvore sem exigir corte imediato de cada exemplar.
O controle biológico foi aprovado no Havaí em 2012 e ganhou importância porque a área ocupada pela planta é enorme. Em uma zona acompanhada por pesquisadores, as agallas apareceram em 23,1% dos exemplares fotografados em 2021 e chegaram a 100% dos guayabos avaliados em 2024.
- O inseto ataca o Psidium cattleyanum, alvo central do programa.
- As unidades lançadas carregam colônias para galhos e copas.
- A propagação pode continuar depois que o organismo se estabelece na árvore.
Por que a espécie invasora avança com tanta força?
A espécie invasora cresce rápido, forma copas fechadas e compete por luz, água e nutrientes com plantas nativas. A árvore frutífera também produz frutos consumidos por animais, o que ajuda na dispersão das sementes por trilhas, encostas e bordas de floresta.
- As sementes chegam a áreas distantes por meio da fauna.
- A sombra densa reduz a germinação de espécies locais.
- O manejo terrestre fica lento em regiões sem estradas.
- A América do Sul conserva inimigos naturais que não estavam presentes no arquipélago.
O que o caso revela sobre manejo ambiental?
O avanço dessa espécie invasora mostra como uma introdução feita com intenção alimentar pode alterar ecossistemas por décadas. A combinação de drone e controle biológico não busca apenas remover árvores isoladas, mas reduzir a pressão da planta sobre a floresta nativa em escala compatível com a área ocupada.
A árvore frutífera trazida da América do Sul continua sendo o centro de uma disputa ambiental que mistura botânica, tecnologia aérea e entomologia aplicada. No Havaí, o próximo desafio é transformar resultados de campo em manejo contínuo, com monitoramento por imagem, lançamentos precisos e acompanhamento das áreas tratadas.
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Fonte: Catraca Livre