Biosocioeconomia das águas: um novo caminho para o futuro do Araguaia

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Por Redação — Jornal Opção

Biosocioeconomia das águas: um novo caminho para o futuro do Araguaia

Por: Karine Aparecida Obalhe da Silva Piorski, Gabriela dos Reis Gomes, Andreia Juliana Rodrigues, Josana de Castro Peixoto – Especial para o Jornal Opção

Refletir sobre questões complexas como as colocadas acima revela que a questão dos recursos hídricos ultrapassa os limites da gestão de um recurso natural. Ela envolve decisões sobre quais valores orientam o desenvolvimento, como os benefícios e os custos ambientais são distribuídos entre os diferentes grupos sociais e quais responsabilidades devem ser assumidas pelas instituições e pela sociedade. Assim, pensar o futuro das águas significa discutir os princípios que orientam a convivência entre economia, natureza e justiça social, abrindo espaço para abordagens capazes de integrar esses diferentes interesses.

Neste aspecto, a Economia Ecológica propõe exatamente essa reflexão ao discutir os limites e as prioridades que devem orientar a relação entre a sociedade e o meio ambiente, levando ao debate sobre aquilo que pode ser considerado ambientalmente suportável ou insuportável, socialmente justo ou injusto e humanamente aceitável ou inaceitável. A definição desses parâmetros envolve escolhas de natureza normativa e, frequentemente, requer mudanças nas instituições que organizam a vida social.

Essas instituições compreendem tanto regras formais, como leis, regulamentos e acordos, quanto normas informais, expressas em costumes, práticas e valores compartilhados. São elas que estruturam as interações sociais, conferem estabilidade às relações entre os diferentes atores e influenciam os processos de tomada de decisão. Ao mesmo tempo, sua criação, manutenção ou transformação resulta das disputas de poder entre grupos e coalizões que atuam nas diferentes arenas da sociedade.

Essa reflexão ganha urgência diante da evidência de que os limites biofísicos do planeta já foram, em grande parte, transgredidos. Muniz e Chaves (2026), apoiadas na atualização do arcabouço dos limites planetários, apontam que seis dos nove processos essenciais à estabilidade do sistema terrestre já foram ultrapassados, o que indica que a humanidade opera fora da zona considerada segura. Ao recorrerem à Economia Ecológica, as pesquisadoras reafirmam que o sistema econômico deve ser entendido como subsistema da biosfera, submetido a fronteiras físicas e energéticas, e não como esfera autônoma de expansão ilimitada. Nesse cenário, definir o que é ambientalmente suportável deixa de ser uma questão puramente técnica e passa a depender de arranjos normativos e institucionais capazes de reconhecer direitos, garantir a repartição justa de benefícios e assegurar a participação de povos e comunidades tradicionais nas decisões que os afetam, como colocam as pesquisadoras Lena Muniz e Maria Chaves.

Do mesmo modo, a discussão sobre o que é socialmente justo exige que os modelos econômicos incorporem a capacidade de os sistemas socioecológicos absorverem perturbações e se transformarem. Alguns pesquisadores argumentam que a intensificação das atividades humanas requer a consideração dos limites planetários e que a resiliência, ausente da teoria econômica convencional, deve integrar os projetos de sustentabilidade ambiental. A análise de resiliência socioambiental precisa dialogar com o bem-estar humano e com a justiça distributiva, de modo que a adaptação contínua dos sistemas ocorra de forma equitativa. Sob essa ótica, estabelecer prioridades entre crescimento, proteção ambiental e equidade é uma escolha de natureza política, e não um resultado automático de mecanismos de mercado.

Por fim, a pergunta sobre o que é humanamente aceitável também atinge o próprio conceito de sustentabilidade, que corre o risco de se esvaziar quando reduzido à preservação do capital natural. Alguns trabalhos sugerem que, no aconselhamento de política econômica, a noção corrente de sustentabilidade tende a se concentrar nessa preservação. Nessa perspectiva, o desafio é adaptar o conceito às condições do Antropoceno sem enfraquecê-lo, evitando tanto o greenwashing quanto a crença de que soluções tecnológicas bastam para resolver o problema. Essa advertência reforça que os parâmetros de suportabilidade ambiental e de aceitabilidade humana são construções normativas, que precisam ser explicitadas e debatidas pela sociedade, e não pressupostos técnicos tomados como neutros.

Essa perspectiva converge com a biosocioeconomia, um conceito emergente que propõe um modelo de desenvolvimento fundamentado na valorização da biodiversidade, dos conhecimentos tradicionais, da inovação e da inclusão social. Nessa abordagem, a utilização sustentável dos recursos biológicos deve promover, simultaneamente, a conservação dos ecossistemas, a geração de renda e o fortalecimento das comunidades locais, reconhecendo a profunda interdependência entre os sistemas ecológicos, sociais e econômicos.

É nesse ponto que a água ganha centralidade porque mais do que um recurso natural, ela constitui a base que conecta ecossistemas, atividades econômicas, culturas e modos de vida. Pensar seu futuro significa discutir não apenas sua disponibilidade, mas também a qualidade das instituições que regulam seu uso, a participação da sociedade nas decisões e a capacidade de construir uma governança que concilie conservação ambiental, justiça social e desenvolvimento econômico. Assim,  preservar a água é também fortalecer as condições para um futuro mais sustentável e inclusivo.

No Rio Araguaia, essa visão torna-se particularmente relevante porque muito além de abastecer cidades ou atender às atividades produtivas, suas águas sustentam a biodiversidade do Cerrado, impulsionam a agricultura, a pesca e o turismo, alimentam a economia regional e preservam tradições culturais que moldam a identidade das comunidades ribeirinhas, indígenas e da população local. O rio é, ao mesmo tempo, patrimônio natural, econômico, social e cultural.

A pesquisa em Aruanã – GO

É justamente essa compreensão que orienta a pesquisa intitulada “Bases biosocioeconômicas para a gestão da água em Aruanã-GO: um estudo dos atores locais”, desenvolvido por pesquisadoras da Universidade Estadual de Goiás (UEG) e UniEvangélica e associado aos diversos projetos de pesquisa do grupo na região do Araguaia. O estudo parte da bacia hidrográfica como um território vivo e dinâmico, influenciado tanto pelos ciclos naturais quanto pelas decisões humanas, e não como um simples recurso a ser administrado. Nessa perspectiva, a água deixa de ser tratada apenas como insumo e passa a ser entendida como elemento que articula ecossistemas, modos de vida e relações sociais. Por isso, a gestão hídrica precisa considerar quem vive, trabalha e decide sobre o território, e não apenas os aspectos físicos e técnicos da bacia.

Com esse propósito, a pesquisa busca compreender como diferentes grupos sociais percebem, utilizam, regulam e participam da gestão da água em Aruanã-GO. Entre eles estão estudantes, moradores urbanos, ribeirinhos, empreendedores, a concessionária de abastecimento e representantes do poder público. Para isso, o trabalho se apoia no contato direto com a população, que registra as pesquisadoras em campo coletando dados junto aos moradores. Ouvir esses atores permite identificar convergências e conflitos de interesse sobre o uso e a proteção da água, além de fornecer subsídios para uma gestão mais participativa e coerente com a realidade local.

Pesquisadoras coletando dados junto à população de Aruanã-GO

Ao reunir essas diferentes perspectivas, a pesquisa identificou caminhos para a construção de um modelo de gestão integrada fundamentado na biosocioeconomia das águas. Para isso, analisou aspectos como percepção ambiental, formas de uso dos recursos hídricos, mecanismos de regulação, conflitos de interesse e níveis de participação social. Mais do que mapear problemas, o objetivo é compreender como esses atores podem atuar de forma cooperativa na construção de soluções capazes de conciliar conservação ambiental, desenvolvimento econômico e justiça social.

Esse modelo pressupõe a articulação de diferentes instrumentos de gestão, que atuam de forma complementar sobre as dimensões ambiental, econômica, institucional e científica da água. No campo ambiental, destacam-se as ações voltadas à proteção de nascentes, à recuperação de matas ciliares e ao monitoramento da qualidade da água, as quais buscam preservar a capacidade de regulação hídrica da bacia e reduzir pressões sobre os mananciais. No campo econômico, incluem-se instrumentos como os incentivos à produção sustentável e o fortalecimento das cadeias produtivas locais, que procuram conciliar a conservação dos recursos naturais com a geração de renda, de modo que o uso adequado do território se torne também vantajoso para os atores que dele dependem.

No plano institucional, o modelo requer mecanismos que assegurem a coordenação entre os agentes e a legitimidade das decisões, como os Comitês de Bacia Hidrográfica, instâncias colegiadas de gestão previstas na Política Nacional de Recursos Hídricos (Lei nº 9.433/1997), e os planos municipais de saneamento, além da ampliação da participação social nesses espaços. Soma-se a isso a dimensão do conhecimento, que compreende a produção científica, o monitoramento participativo e a construção de indicadores capazes de traduzir a realidade local em informações úteis à tomada de decisão. Em conjunto, esses elementos fornecem as bases para políticas públicas orientadas à segurança hídrica, entendida como a garantia de acesso à água em quantidade e qualidade adequadas para o consumo humano, as atividades produtivas e a manutenção dos ecossistemas.

Outro diferencial da iniciativa é sua dimensão educativa, uma vez que a sustentabilidade não depende apenas de leis ou investimentos, mas da capacidade da sociedade de compreender que cada decisão cotidiana interfere na conservação dos ecossistemas e no futuro dos territórios. Com esse propósito, está sendo desenvolvida a Plataforma do Futuro Hídrico, um jogo educativo inspirado nos princípios da biosocioeconomia que convida estudantes, gestores e cidadãos a refletirem, de forma interativa, sobre os impactos de diferentes escolhas relacionadas ao uso da água.

Para além da produção de conhecimento científico, a pesquisa se propõe a aproximar universidade e sociedade, valorizando os saberes locais, fortalecendo processos participativos e contribuindo para uma governança das águas ancorada na cooperação, na corresponsabilidade e na justiça socioambiental. Esse compromisso adquire especial relevância em um contexto de intensificação das mudanças climáticas, de crescente pressão sobre os recursos naturais e de agravamento dos conflitos pelo uso da água. Nesse cenário, caracterizar o Rio Araguaia sob a perspectiva da biosocioeconomia implica reconhecer que a proteção de suas águas é indissociável da conservação da biodiversidade, da sustentação das atividades econômicas, da preservação da cultura e da garantia de futuro às populações que delas dependem.

Biosocioeconomia e trabalhos junto à comunidade indígena na região, valorizando o conhecimento e saberes locais

Assim, a água deixa de ser compreendida apenas como recurso a ser explorado e passa a ser concebida como o elo que articula natureza, sociedade e desenvolvimento. Essa mudança de perspectiva aponta um caminho viável para a construção de territórios mais resilientes, inclusivos e sustentáveis, nos quais o cuidado com o rio e o bem-estar das comunidades se fortalecem mutuamente.

Confira quem são as autoras desse artigo

Karine Aparecida Obalhe da Silva Piorski – Economista e professora da Universidade Estadual de Goiás (UEG) e integrante do “Coletivo de Mulheres Cientistas em Rede”. Integrante do Programa “PPBio Araguaia”.

Gabriela dos Reis Gomes – Graduanda em Farmácia pela UEG e integrante do “Coletivo de Mulheres Cientistas em Rede”

Andreia Juliana Rodrigues – Professora da UEG, pesquisadora responsável pela educação socioambiental no “PPBio Araguaia”, no INCT em Ecologia, Evolução e Conservação da Biodiversidade (EECBio), PELD Araguaia e CEHIDRA CERRADO. Coordenadora do “Coletivo de Mulheres Cientistas em Rede”.

Josana de Castro Peixoto – Professora da UEG e da Universidade Evangélica de Goiás (Unievangélica) e pesquisadora colaboradora pela educação socioambiental no “PPBio Araguaia”. Integrante do “Coletivo de Mulheres Cientistas em Rede” e do INCT em Ecologia, Evolução e Conservação da Biodiversidade (EECBio) e do Projeto “Condefé: tem cagaita e gabiroba no Cerrado” (FAPEG e Fundação O Boticário).

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Fonte: Jornal Opção

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