Entenda por que a Goiânia em meados do século 20 era melhor do que a Goiânia do século 21
Por Irapuan Costa Junior — Jornal Opção

Goiânia, anos de 1940 e 1950: Por uma dessas evocações de memória que não têm nenhuma razão de ser, e simplesmente acontecem por geração espontânea, lembrei-me da Goiânia de meus anos de segundo grau (que chamávamos ginásio mais científico ou clássico, conforme seguíssemos uma profissão ligada às ciências ou às letras).
A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) havia deixado cicatrizes no mundo todo, inclusive nesta cidade adolescente. Tenho esmaecidas lembranças de uma campanha da borracha, chefiada por meu pai, a pedido de D. Gercina, esposa do interventor Pedro Ludovico, quando o Brasil ainda lutava na Itália.
Saíamos de casa em casa com nossos pais, ainda garotos, pedindo pneus velhos para serem reciclados nos EUA e apoiarem o esforço de guerra. Não era difícil, pois eram conhecidos os poucos donos de automóveis, caminhões e motocicletas e sabíamos quais as suas casas. Até os pneus usados de nossas infantis ou juvenis bicicletas fizeram parte da patriótica remessa.
Pouco tempo depois chegavam da Europa nossos pracinhas, cercados de curiosidade, embora não gostassem muito de lembrar as passagens da Itália.
Um dos pracinhas, que foi meu professor de ciências, calava-se em meio a uma aula, e fitava cristalizado o céu, se um avião sobrevoava o colégio. Demorava alguns minutos para se recompor do trauma que trouxera na bagagem, e conseguir dar continuidade às suas explanações. As bombas dos aviões alemães ainda o ameaçavam, mesmo aqui no interior do Brasil, depois de Hitler morto e sepultado, ou melhor, queimado.
Pescávamos no Rio Meia-Ponte. A pesca era abundante — ia dos pequenos lambaris, lobós e mandis, passando pelos piaus e chegando às vezes a algum incauto dourado que os adultos mais experientes conseguiam fisgar
Sentíamos, sem bem compreender, as modificações políticas que varriam o mundo e chegavam até nós. Falava-se em democracia, Getúlio Vargas caía, e Pedro Ludovico também, com a reviravolta que parecia sacudir mais as pequenas comunidades, como Goiânia, do que as grandes cidades.

Lembro-me de tempos difíceis: meu pai perdendo o emprego no Estado, buscando outro trabalho que não surgia, minha mãe despertando pela madrugada para fazer o café do marido e dos filhos e correr ao grupo escolar onde passou a lecionar.
Teria Goiânia em 1950 mais de cinquenta mil habitantes, população máxima para que fora projetada? Certamente não.
Meia dúzia de ruas, se tanto, tinham asfalto. As abundantes chuvas de fim e começo de ano deixavam enormes poças pela cidade que iam minguando quando vinham os veranicos ou as estiagens.
Pescávamos com nossos pais no Meia-Ponte (como era longe do centro!), e a pesca, que ajudava na mesa, era abundante. Ia dos pequenos lambaris, lobós e mandis, passando pelos piaus e chegando às vezes a algum incauto dourado que os adultos mais experientes conseguiam fisgar. Os lobós eram muito resistentes e chegavam vivos em casa. Abandonávamos alguns nas poças d´água da rua, para escondidos, vermos os ciclistas (quase todo mundo usava bicicletas) intrigados com aqueles peixinhos que nadavam ali, e sem entender como tinham se urbanizado.
A Mulher-da-Arara, que costumava pedir nas casas seu almoço e jantar, estranhava a todos, e brindava os seus benfeitores, terminadas as refeições, com os mais cabeludos e sonoros palavrões que a língua portuguesa abrigou
Tipos estranhos de rua havia muitos, e os garotos de minha geração hão de prestar contas no juízo final por tê-los tanto azucrinado: a Mulher-da-Arara, que perambulava pela cidade levando na cabeça uma trouxa e sobre ela uma enorme arara Canindé, mansíssima, conversadeira. E de lado um vira-lata que confraternizava com a arara sempre que a trinca parava, por um motivo qualquer. Cão e pássaro nunca se estranhavam, e brincavam um com o outro.
Já a Mulher-da-Arara, que costumava pedir nas casas seu almoço e jantar, estranhava a todos, e brindava os seus benfeitores, terminadas as refeições, com os mais cabeludos e sonoros palavrões que a língua portuguesa abrigou. O que para nós, a garotada, não era motivo de nenhum constrangimento, tanto que, se necessário fosse, fazíamos, tão discretamente quanto possível, a provocação inicial, que abria as comportas do reservatório de nomes feios. Claro, sem que nossas mães percebessem, o que sem dúvida redundaria em sonoras e educadoras chineladas (que nunca fizeram mal a ninguém).

Havia o Baianinho, calvo, baixinho, que ficava o dia todo no coreto da Praça Cívica. Falava sem parar coisas sem nexo, mas dele era preciso guardar prudente distância. Provocado, era certeiro no arremesso de pedregulhos que abundavam no cascalho das ruas e avenidas. Muitos de nós pagamos o desaforo de gritar pelo Baianinho com uma dolorosa pedrada nas costelas.
O Conserta-Mundo era um preto magro, de quase dois metros de altura, que nunca pronunciava palavra. Apenas cantava baixinho uma indefinível e interminável melopeia. Comia quando lhe davam algo, mas não pedia, ao contrário dos outros. Passava o dia a amarrar cordões nos postes, fazer tranças com cordas nos troncos das árvores ou construir pequenos muros com restos de tijolos ou pedras. Também conseguia pregos velhos e pedaços de madeira, que pregava cuidadosamente nos postes (não existiam ainda os postes de concreto). Na sua loucura, era apaixonado pela simetria. Ah! E o famoso Burro-Preto.
O Jóquei Clube tinha uma sessão dançante, onde era obrigatório o uso de nossas melhores roupas. Era também onde se realizavam os bailes de carnaval da cidade, a que não deixava de comparecer o governador do Estado
Tipos que se dissolveram quando a cidade cresceu e virou metrópole. Os cines Goiânia, Santa Maria e Casablanca exibiam os filmes de caubói que não podíamos perder (principalmente se o mocinho era o Tom Mix ou Roy Rogers, com seus revólveres que nunca descarregavam) e eram frequentados pelas belas moças da cidade, que após as sessões passeavam pelo trecho da Avenida Goiás que vai da Anhanguera até a Rua 3.
As jovens passeavam e nós, parados, as observávamos, sem troca de palavras, embora um olhar diferente fosse — ou pudesse ser — o sinal para um começo de namoro. Namoro que teria prosseguimento numa sessão de cinema, sempre com um irmão ou irmã da moça fazendo companhia. Muitos casamentos da minha geração começaram assim.
O Jóquei Clube tinha, nas manhãs de domingo, uma sessão dançante, onde era obrigatório o uso de nossas melhores roupas. Era também onde se realizavam os bailes de carnaval da cidade, a que não deixava de comparecer o governador no cargo.
Havia os bares: a Fonte Expressa e o Serra Dourada, onde os sorvetes eram os melhores.
Ladrão nessa época só havia um, o Boca-Larga, que tinha nome até ilustre: Alemburgo Maria de Jesus. O fato de ser único tornava o serviço da polícia absolutamente sem graça (que saudades do tempo do Boca-Larga!).
Professores como Genesi Castro e Silva, Luiz de Faria, Genesco Bretas, Egidio Turchi, Augusto Cesar Curado, Baltazar dos Reis, João Jacinto de Almeida etc. eram competentes e exigentes. Consigo ler em francês até hoje
Os colégios secundários, principalmente o Lyceu (escrevia-se assim mesmo) e o Atheneu (também era assim que se grafava) eram excelentes. E os currículos, carregadíssimos.
Professores como Genesi Castro e Silva, Luiz de Faria, Genesco Bretas, Egidio Turchi, Augusto Cesar Curado, Baltazar dos Reis, João Jacinto de Almeida etc. eram competentes e exigentes.
Consigo ler regularmente em francês até hoje, só com os ensinamentos do ginásio e agradeço a Genesi por ter tido a um só tempo a didática que tornou fácil o aprendizado e a severidade que me fazia ler Chateaubriand e Victor Hugo no original, como lição de casa, aos doze, treze anos.
Teriam meus pais (e os de meus colegas) lido o De Ofiicis? Se não, foi como se tivessem. Ensinavam-nos, antes de tudo a honestidade, fazendo ver que, para ser honesto, é preciso adquirir sabedoria, ser justo, ter coragem e temperança, tal como queria Cícero de seu filho Marco.
A cidade se estendeu pelos campos onde catávamos gabirobas, caçávamos perdizes e vez por outra nos assustava o chocalho de uma cascavel irritada.
Crescendo, Goiânia perdeu a inocência de cidadezinha onde todos se conheciam e confraternizavam. Tornou-se uma adulta complexa, difícil de entender, e tão grande que não encontramos mais nela, e com a mesma facilidade, aquele desvelo materno, ou o aprendizado que ensinava pelo exemplo, bem como a honestidade, a sabedoria, a justiça, a temperança, tudo enfim que nos educava e provocava nossos risos fáceis de juventude sadia. Melhor, muito melhor era então.
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Fonte: Jornal Opção