No 2º Turno: Lula ou o abismo bolsonarista
Por Elisabeth Lopes — Brasil 247
O resultado do primeiro turno da eleição revelou uma faceta trágica e perigosa de parcela significativa dos brasileiros. Ficou exposta a cegueira voluntária, a submissão cega e a adesão passiva de parte de eleitores capturada por bolhas de desinformação, disposta a votar contra os próprios direitos e a entregar o destino do país a um projeto autoritário que não atende a seus próprios interesses.
Trata-se de uma parcela da população anestesiada e manipulada por algoritmos e pela desinformação articulada, impulsionada pelas Big Techs, que monetizam o ódio e o alarde nas redes sociais, em convergência com setores da mídia corporativa. Mecanismos que contribuem para preservar os privilégios dos segmentos hegemônicos, desmantelar direitos sociais e legitimar a submissão do país aos interesses econômicos de um império em agonia, sob a liderança de um presidente rechaçado pela a maioria da população norte-americana. A rejeição popular a Trump evidencia as incongruências de seu projeto de poder. Seu índice de desaprovação está entre 65% e 67%. Este dado denuncia o desgaste de uma política baseada na prepotência, no autoritarismo, na transferência dos custos de suas decisões para as maiorias e na velha pretensão de transformar os países da América Latina em seus territórios subalternos.
Neste sentido, eleger Flávio Bolsonaro significará entregar o país diretamente às mãos de Trump. A concretização dessa submissão deixaria marcas profundas e duradouras, comprometendo a autonomia do Brasil em todas as esferas e abrindo caminho para uma dependência estrutural cuja reversão imporia enormes dificuldades às próximas gerações.
Votar em um candidato obscuro sob vários aspectos pessoais e políticos, mentiroso contumaz, cujas promessas se sustentam no cinismo e na falsificação da verdade, é endossar a própria ruína e assinar a sentença do retrocesso do país. É escolher a farsa em detrimento dos fatos e entregar o Estado de Direito a quem faz da mentira sistemática o seu método de atuação política. Quem se deixa enganar pela ilusão de renovação, seja a classe média munida de ignorância e arrogância pelo falso pertencimento ao núcleo dos privilegiados, seja a parcela empobrecida e cooptada pelo ressentimento, que repete de modo atônito acusações vazias contra o presidente Lula, pagará essa conta na própria carne, sacrificando o futuro da democracia em nome de uma mudança torpe e catastrófica.
Conforme análises do cenário eleitoral divulgadas por veículos como a revista Carta Capital, o apoio das pequenas cidades e do interior do país foi determinante para que Flávio Bolsonaro (PL) mantivesse a liderança no primeiro turno das eleições presidenciais de 2026. Nas cidades do interior de diversos estados, a menor adesão eleitoral ao presidente Lula encontra sua principal explicação na dinâmica comportamental da classe média baixa, denominada classe C, um contingente populacional que ascendeu da pobreza nas últimas décadas graças às políticas públicas de transferência de renda, valorização do salário mínimo e expansão do crédito promovidas pelos próprios governos progressistas.
Esse fenômeno social expõe o processo de consolidação de uma nova subjetividade de classe. Ao migrar da vulnerabilidade para a classe média baixa, o indivíduo altera sua régua de comparação e seu horizonte de expectativas. Abandona a pauta da mera subsistência e passa a demandar bens e serviços tipicamente associados à autonomia individual. Ocorre, contudo, um descompasso de percepção, pois ao estabilizar sua posição material, essa parcela da população tende a adotar um discurso meritocrático, enxergando sua trajetória como mérito estritamente individual e dissociado do suporte estatal inicial que lhe foi proporcionado. Como resultado, passa a ressentir-se quando os governos mantêm o foco prioritário no combate à extrema pobreza e na redução das desigualdades na base da pirâmide. Essa classe ignora veementemente que a ampliação da base de consumo e a inclusão social dos estratos mais baixos são viabilizadores essenciais para o crescimento econômico coletivo sustentável, dinamizando o mercado e expandindo as próprias oportunidades de progresso social para todos.
Essa lógica de distorção da percepção social não se restringe à classe média baixa. Ela também alcança parcelas da população mais pobre e setores da classe média economicamente mais favorecida, iludidos pela promessa de ascensão social e pela crença de que seus interesses se aproximam dos das elites. Nessa perspectiva, o esquema tecno-fascista continuará a explorar essas aspirações, levando parte dos mais pobres a se aliar aos próprios opressores e alimentando, em setores da classe média, a falsa percepção de superioridade social. Julgam-se, assim, acima daqueles que permanecem na base da pirâmide social porque conquistaram, a duras penas, uma boa moradia em um bairro distante da periferia pobre; um segundo imóvel, financiado em 35 anos, para as férias; um ou dois carros, pagos em inúmeras prestações; viagens ao exterior, financiadas por várias parcelas no cartão de crédito; a matrícula quase impagável dos filhos em escolas privadas; e a possibilidade de prescindir do SUS, embora dependam de um plano de saúde caríssimo, com cobertura limitada, que não raro falha justamente quando mais se precisa dele.
Por incrível que possa parecer, esse conjunto de conquistas materiais da classe média alimenta a triste ilusão de que estão perenemente acima daqueles que figuram nas estatísticas de menor poder aquisitivo do que eles. Entretanto, basta perderem seus bons empregos na iniciativa privada, ou verem suas remunerações nas empresas públicas minguarem pela corrosão de seus proventos e de suas aposentadorias, para voltarem a uma condição difícil de ostentação. Uma ilusão que ignora a própria vulnerabilidade diante de um sistema movido pela ganância insaciável do capital, particularmente perverso em países como o Brasil, que, apesar de sua posição entre as maiores economias do mundo, ainda convive com profundas desigualdades sociais.
Esse autoengano de superioridade os impede de reconhecer que também estão suscetíveis às desigualdades do sistema, como ao plano econômico ultraliberal proposto por Flávio Bolsonaro, caso seja eleito. Plano elaborado à semelhança do desastre promovido por Javier Milei na Argentina, que afundou aquele país na fome, no desemprego e na miséria. Um modelo que só beneficia o 1% mais rico da população. Vale destacar que o programa econômico de Milei ampliou a jornada diária de trabalho de 8 para até 12 horas via banco de horas, fracionou de forma abjeta as férias em períodos irrelevantes de até 7 dias e aumentou abusivamente o período de experiência no emprego. Alterou o cálculo de indenizações trabalhistas para baratear a demissão e desproteger quem produz a riqueza do país. Implementou restrições severas à mobilização dos trabalhadores, exigindo o funcionamento de até 75% dos serviços sob o pretexto de “essencialidade”. Vetou a política de reajustes dignos nos benefícios previdenciários, precarizando ao máximo as aposentadorias, medida que levou alguns idosos ao suicídio pela miséria e pela fome a que foram submetidos depois de anos de trabalho. Aniquilou ministérios e secretarias voltadas à proteção de vulneráveis, às políticas para mulheres, à diversidade e ao combate às desigualdades.
Inspirada nesse modelo econômico, a proposta de Flávio Bolsonaro para o Brasil poderá comprometer conquistas sociais e trabalhistas históricas, construídas ao longo de décadas de luta dos trabalhadores. A gravidade do momento exige que cada brasileiro encare a realidade sem panos quentes. Seu projeto de governo, para além do risco de estagnação econômica, aponta para o desmonte de direitos sociais e o enfraquecimento das políticas de proteção aos trabalhadores. Sua candidatura tem como um de seus eixos o aparelhamento das instituições para atender aos interesses do bolsonarismo (livrar seu pai da cadeia) e viabilizar a implementação de seu projeto ultraliberal de governo.
Não há margem para dúvidas ou ingenuidade diante do abismo que se abre à frente dos brasileiros. Caso Flávio chegue à presidência, terá um Congresso dominado pela extrema direita bolsonarista e poderá aprofundar o controle político sobre o Judiciário, por meio da indicação de quatro ou cinco novos ministros ao STF, alinhados a ele. Com os três Poderes submetidos a um projeto autoritário, o Brasil correrá o risco de ver suas instituições democráticas esvaziadas por dentro, sob o aval das urnas, uma tirania legitimada pelo voto de uma maioria eleitoral que, sem compreender plenamente as consequências de sua escolha, poderá contribuir para destruir o futuro do país e dos brasileiros.
A escolha que se impõe no dia 25 de outubro, quando nos depararmos novamente com a urna eleitoral, traduz a fronteira final entre a preservação da democracia e o seu colapso definitivo no Brasil. Nesta semana, o extremista de direita Flávio Bolsonaro, ao estilo de seu pai, anunciou em alto e bom som, do alto de sua prepotência, por já se considerar presidente antes mesmo da votação do segundo turno, que quer mudar a Constituição Cidadã de 1988. De seu pedestal fascista em Goiânia (GO), após receber o apoio oficial do reacionário Ronaldo Caiado para o segundo turno, declarou: “O Brasil já me deu um Congresso muito mais à direita do que é hoje. Com maioria no Senado para fazer o presidente do Senado e presidente da Câmara, para a gente mudar a Constituição, para a gente redemocratizar esse país, para as instituições voltarem a respeitar a Constituição.”
Essa declaração de que pretende “redemocratizar o país” por meio de mudanças na Constituição revela uma profunda incongruência e um grave risco à nossa estabilidade institucional. Chega a ser um ultraje ver Flávio Bolsonaro arvorar-se no papel de “redemocratizador” de um país que ainda vive em democracia, a despeito das sucessivas tentativas de seu próprio pai de golpear o Estado Democrático de Direito. Quem é Flávio Bolsonaro para ditar o que é democracia? Sob o pretexto dissimulado de “reordenar os Poderes”, o que o herdeiro do golpismo realmente propõe é a erosão das garantias republicanas, o estrangulamento do Supremo Tribunal Federal e o atordoamento das instituições para impor sua prática autoritária. Por meio do falso pretexto de defender a democracia, tenta contornar as cláusulas pétreas da Carta de 1988 para subjugar as instituições e subordinar a ordem constitucional aos seus próprios interesses políticos.
Entretanto, diferente da simples aprovação de emendas, a substituição integral da Constituição de 1988 por uma nova Carta enfrenta obstáculos jurídicos. O texto atual não autoriza nenhuma autoridade a convocar uma nova Assembleia Constituinte, nem concede esse poder ao presidente. Além disso, as reformas feitas pelo Congresso por meio de PEC são limitadas pelas cláusulas pétreas da própria Carta. Como a criação de uma Constituição exige o poder constituinte originário, que zera a ordem jurídica anterior, convocar uma Constituinte por meio de uma PEC para contornar esses limites é uma manobra altamente controvertida e sem amparo constitucional.
Contudo, em caso de vitória de Flávio Bolsonaro, o novo governo já contaria com uma expressiva bancada de extrema direita no Congresso Nacional, além da capacidade de cooptar o Centrão. É necessário ressaltar a desqualificação da bancada que foi eleita e reeleita para a Câmara e Senado, a exemplo do deputado eleito Lucas Pavanato (PL) que se referiu à oposição como “minoria” e que seria colocada “no devido lugar”, da deputada Julia Zanatta (PL) que comemorou sua reeleição com um chicote nas mãos lembrando os feitores da escravatura, da olavista eleita Eduarda Campopiano (PL), que nega o feminicídio e do perigoso disseminador de mentiras grosseiras nas redes, o reeleito Nikolas Ferreira (PL). Esses nomes ocuparão as cadeiras no Legislativo com poder real de legislar, orçar e fiscalizar. Suas visões obtusas, autoritárias, truculentas e negacionistas representam um risco concreto de regressão institucional, ameaçando direitos fundamentais e a própria estabilidade democrática.
Nessa assustadora composição, Flávio ainda contará com a possibilidade de reconfigurar o Supremo Tribunal Federal, seja pelo impeachment de ministros, seja pelas aposentadorias previstas, o que lhe abriria margem para indicar aliados ideológicos à Corte. Em um cenário de exceção democrática, o controle simultâneo do Legislativo e da Suprema Corte criaria as condições políticas para operar alterações profundas no ordenamento jurídico do país.
Esse panorama de regressão social ganha contornos concretos diante das diretrizes econômicas anunciadas pela candidatura de extrema direita. O plano sinalizado pela equipe de Flávio Bolsonaro prevê rigorosos cortes e contingenciamentos, na ordem de R$ 250 bilhões. Na prática, a proposta de flexibilização ou desvinculação dos pisos constitucionais da saúde e da educação, associada a mudanças no financiamento da previdência, ameaça diretamente a universalidade dos serviços públicos. Estão em risco o financiamento do SUS, o custeio de escolas e universidades federais e a sustentabilidade da proteção social, restringindo as possibilidades de mobilidade social e comprometendo as perspectivas de melhoria das condições de vida da população mais vulnerável.
O país vive, portanto, um risco profundo e iminente de desmantelamento de direitos sociais e de cortes generalizados em áreas essenciais, como saúde, educação, trabalho. São conquistas históricas, consolidadas à custa da intensa mobilização dos movimentos sociais e da ação de governos progressistas de esquerda, frequentemente em meio à forte resistência dos segmentos mais privilegiados da sociedade, que historicamente não toleram a ascensão das classes subalternas a condições mais dignas de vida e agora enxergam a oportunidade de desmontá-las.
Fonte: Brasil 247