As vinhas que desafiaram o tempo
Por Leonardo Miazzo — Carta Capital
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Ideias e memórias e de um jornalista apaixonado pelos vinhos e a gastronomia
De 007 a vinhedos centenários que escaparam da filoxera, uma tradicional maison de Champagne conta uma história de Champagne
Em Pauillac, um dos principais terroirs de Bordeaux, uma menina guardava rótulos. A família morava de frente para uma das maiores propriedades da região. O pai trabalhava no Château Mouton Rothschild, que desde 1945 encomenda a cada safra uma ilustração a um artista a ser colocada no rótulo de cada safra engarrafada. Miró, Chagall, Braque, Picasso e Francis Bacon já tiveram obras expostas nas garrafas do château. Morgane Renaud colecionava os rótulos. Em Bordeaux, aprendeu cedo que a obsessão pelos detalhes cria vinhos diferenciados.
Com vinho nas veias desde pequena, arranjou um emprego na Millésima, um negociante que vende vinhos de Bordeaux para o mundo. Aquele universo chamava a sua atenção, mas era grande demais: o sistema de venda de Bordeaux envolve vendedores e compradores do mundo inteiro. Vieram a vontade de trabalhar numa região menor e mais artesanal e a paixão pela Champagne.
Há dois anos e meio ela trabalha para a Bollinger, uma das mais famosas casas de champagne, fundada em 1829, fornecedora da Casa Real britânica e de alguns filmes do agente secreto com licença para matar. Numa conversa de uma hora em São Paulo, antes de evento da importadora Mistral, contou onde estaciona o carro: ao lado de um dos dois vinhedos murados, os clos, de onde sai a Vieilles Vignes Françaises, o champanhe mais raro da casa e um dos mais raros do mundo, o Vieilles Vignes Françaises, feito de Pinot Noir plantado sobre as próprias raízes, sem o enxerto americano que salvou a Europa da filoxera, uma praga que quase dizimou milhares de parreiras.
O nome diz quase tudo: vinhas velhas francesas. Quase toda videira plantada hoje na Europa é uma planta montada. A parte de cima, que dá a uva, é europeia; a raiz é de origem americana. A troca foi imposta por um pulgão quase invisível a olho nu, a filoxera, que chegou à Inglaterra em 1863 com mudas trazidas da América e, na mesma década, apareceu no sul da França. O inseto vive na raiz, crava ali o sugador e provoca inchaços que matam a planta em poucos anos. As videiras americanas evoluíram ao lado dele e aguentam o ataque; as europeias, não. A saída foi enxertar a uva europeia sobre raiz de origem americana.
Na Champagne, a praga foi identificada em agosto de 1890. Em 1911, os focos somavam 6.500 hectares, mais da metade das vinhas que ainda não tinham sido enxertadas. O replantio mudou a cara da região. Até ali, as videiras cresciam “en foule“, em multidão, sem fileiras, e se multiplicavam por mergulhia: o agricultor dobrava um ramo ainda preso à planta, enterrava-o, e dali nascia uma videira nova. O vinhedo replantado ganhou fileiras e arames, por onde passava um cavalo puxando o arado. Rendeu mais uva com menos trabalho. Na Bollinger, a troca por raízes americanas levou mais de vinte anos, segundo a casa.
Dois pedaços de terra ficaram de fora desse rearranjo. Somam cerca de 3.100 metros quadrados, menos da metade de um campo de futebol. Ali as videiras seguem sobre as próprias raízes e plantadas como antes de 1890. A cada ano, os ramos que deram fruto são dobrados e enterrados, com três brotos de fora; no ano seguinte, sobem como plantas novas, descreveu o crítico britânico Jamie Goode, que visitou as parcelas. Cada planta nova é cópia da anterior, e a vinha se renova sem nunca ser arrancada. O resultado é um mato de cerca de 30 mil pés por hectare, contra uma média de 8 mil na região, segundo Tom Stevenson, na World of Fine Wine . Sem fileiras, não há por onde passar trator. A terra é trabalhada à mão, com ajuda de um cavalo. No relato de Goode, um hectare comum pede 500 horas de trabalho; as parcelas muradas, 1.500. Morgane admite que a produção é pequena: entre 700 e 2 mil garrafas por safra.
Ninguém sabe ao certo por que a filoxera poupou esse pedaço de terra. “É um mistério”, disse a Goode o viticultor da casa, Gilles Descortes. A Bollinger aposta nos muros, que “parecem proteger” as vinhas. Stevenson lembra que o inseto se dá mal em solo muito arenoso, como o da região. Havia uma terceira em Bouzy. A filoxera apareceu ali em 1998, e 2004 foi a última safra em que suas uvas entraram na garrafa, segundo Stevenson. Morgane diz que a casa faz tudo para que as outras duas não sigam o mesmo caminho. Na produção desse rótulo, o artesanato mantém a tradição do século XIX.
A Bollinger se apresenta como a menor das grandes casas de Champagne e como a casa do Pinot Noir, a uva tinta que responde por 60% do Special Cuvée, champagne de entrada. A série PN, 100% Pinot Noir, põe no rótulo uma vila e um ano. A mesma uva tem na casa um endereço mais antigo. A Côte aux Enfants, encosta de 4 hectares, estava dividida entre mais de 50 donos quando Jacques Bollinger, neto do fundador e marido de Lily, começou a comprá-la. Reuniu as parcelas entre 1926 e 1934.
A encosta já foi chamada de “Côte aux Enfers”, a encosta do inferno, por ser muito íngreme; o nome atual viria das crianças, as únicas que subiam por ela sem esforço, segundo a revista World of Fine Wine . Do lado sul sai um tinto sem bolhas, feito à moda da Borgonha, com cachos inteiros, e engarrafado só nas safras que a casa considera excepcionais. Uma dose de 5% vai para o champanhe rosé safrado. Do lado noroeste, mais fresco, sai desde a safra 2012 um champanhe, lançado em 2022.
A história de quase 200 anos traz outros trunfos. Repousam cerca de um milhão de garrafas magnums de reserva, garrafas de 1,5 litro com safras antigas. Morgane as compara ao tempero de um cozinheiro: entram em pequena dose na champagne de entrada da casa. Estima-se que algo de 5% a 10% da mistura.
A história da vinícola está marcada por uma mulher, algo comum na região . Lily Bollinger assumiu a casa em 1941, com a morte do marido, Jacques, e a dirigiu por trinta anos. Na Ocupação, com falta de gente e de equipamento, percorria os vinhedos de bicicleta, conta a casa. Manteve a fermentação em barricas de carvalho quando o método já parecia ultrapassado.
Em 1967 pôs à venda uma ideia sua, o R.D., de “récemment dégorgé“, recém-degolado. Todo champanhe ganha as bolhas numa segunda fermentação dentro da garrafa e passa um tempo em contato com as leveduras mortas; depois o depósito é retirado e a garrafa vai para a venda. A regra da região exige no mínimo 15 meses de adega para os champanhes sem safra e três anos para os safrados. Lily esticou o prazo para mais de uma década e só mandava retirar o depósito perto da venda.
O primeiro R.D. foi o da safra 1952, lançado quinze anos depois, segundo o crítico Charles Curtis, da revista Decanter. Em 1969, ela decidiu fazer a primeira Vieilles Vignes Françaises. Morgane conta que Lily gostava de acompanhar seus champanhes com tournedo Rossini, o medalhão de filé com foie gras e trufa. Em 1961, ao Daily Mail , deu a frase pela qual é lembrada: bebia champanhe quando estava feliz e quando estava triste, às vezes sozinha, e em companhia por obrigação; fora isso, nunca tocava nele, “a menos que esteja com sede”.
A champagne ainda faz parte da história de James Bond e de Ian Fleming. O vínculo formal veio depois de um encontro, em 1978, entre Christian Bizot, sobrinho de Lily, e o produtor Albert Broccoli. A Fortune registrou em 2019 que nenhum dinheiro mudou de mãos. Morgane acrescenta que também não houve contrato: foi um aperto de mãos. Em fevereiro de 2025, a Amazon, de Jeff Bezzos, assumiu o controle criativo da franquia, antes exercido pela família Broccoli. O próximo filme terá direção de Denis Villeneuve e ainda não tem ator anunciado. A Bollinger, diz Morgane, negocia sua presença e espera, “como o mundo inteiro”, para ver o que vem.
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Fonte: Carta Capital