Por Urariano Mota — Brasil 247

Mesmo cenário de antes dos episódios anteriores. Escritório com imagens da Casa Branca. Bandeiras dos Estados Unidos e do Brasil. General Bozo com estrelas, boné e faixa verde-amarela onde se lê “Pátria da Milícia Ilimitada”.

Personagens: General Bozo, Cavalo, Burro, Pessoas vestidas com fantasias de animais, Repórter e Fotógrafo.

Repórter – General… Desculpe. Grande presidente: agora estão dizendo que o senhor mandou queimar a Universidade Federal de Pernambuco.

General Bozo – Eu?! Tudo que é bom agora dizem que fui eu.

Burro – Não é, presidente?

Cavalo – Foram os responsáveis por sua vitória?

General Bozo – O responsável por meus votos sou eu. Quase, porque sem a ajuda do meu presidente Trump eu estava fodido. Como ia conseguir tantos votos sem dólares?

Repórter – Foram muitos dólares, presidente?

General Bozo – Sim. Mas pra quantidade de votos que eu tive, se fosse comprar um por um, só a maior fortuna do mundo podia pagar.

Repórter – Quantos bilhões de dólares? Quantos trilhões?

General Bozo – Tá querendo saber demais. Mas saiba que muita gente se vende baratinho. Aqui, quanto você recebeu por esta entrevista?

Repórter – Eu? É o meu patrão quem me paga.

General Bozo – Mas quem paga o seu patrão é Trump. Se ele fosse pagar tudo aqui, ele ia ter que parar a guerra no Irã.

Repórter – Então, como se explica?

General Bozo – Tem gente que se vende sem eu pagar. Muitos pobres votam em mim sem que eu pague a eles.

Repórter – Como, presidente?

General Bozo – Eles acreditam no que eu falo. O Brasil é terra de cabeça de escravo, sabia? Todo pobre pensa que vai virar senhor. E Lula divulga que é a favor dos pobres… cagão. Ninguém quer ser pobre, ninguém se acha pobre. Logo, se Lula é a favor dos pobres, todos que se acham melhores que isso ficam comigo. Votam em mim os ricos de quem sabe um dia talvez. (Gargalha)

Burro zurra. Cavalo relincha.

Vozes – Que inteligência!

General Bozo – Eu sou modesto. Nem tudo que é bom foi feito por mim.

Repórter – Botar fogo nas universidades é uma coisa boa?

General Bozo – Claro! Mas eu não fui lá no Recife pra botar fogo na Universidade, entende?

Repórter – O senhor não foi. Mandou seus terroristas tocarem fogo?

General Bozo – Alto lá! Quem é você?

Repórter – Perdão, General. Algum vírus comunista entrou na minha garganta.

General Bozo – Ah, mate esse vírus ou mato você. O que aconteceu: os meus patriotas foram para a universidade e tocaram fogo.

Repórter – Então o senhor mandou os seus patriotas?

General Bozo – Claro! Claro como o fogo na noite. O fogo é belo. Eu mandei. Mas os meus patriotas têm liberdade de cometer qualquer coisa, qualquer crime. Eles ligam pra mim: “Presidente, fazemos?”. Eu respondo: “Façam agora mesmo”. Eles fazem.

Burro e Cavalo juntos: – Autoridade é autoridade.

General Bozo (orgulhoso) – Eu mando matar, eles matam. Eu mando incendiar, eles incendeiam. Mas não sou eu que boto o fogo e atiro.

Repórter – São os patriotas.

General Bozo – Olha, na verdade, não são nem os meus patriotas. São os que morrem e se queimam os culpados.

Repórter – Os que morrem cometem suicídio, presidente?

General Bozo – Sim! O grande Cabo Anselmo, que entregou Soledad grávida para a morte, já respondeu por mim. E como ele, eu digo: não sou eu que mando matar. É a vida deles e delas que é culpada. Eles próprios são os culpados. Não provocam a nossa fúria? Não querem a igualdade social? Então não reclamem. Eles são os responsáveis pelo fim das suas vidas.

Vozes – Que inteligência!

Repórter – Mas se uma denúncia contra o senhor cair no Supremo Tribunal Federal ou no Tribunal Superior Eleitoral?

General Bozo (gargalha) – Contra mim?

Vozes – Esse repórter é do contra?

General Bozo – Eu tenho os meus cupinchas lá. Eles não deixam qualquer denúncia contra mim avançar. (E se vira exibindo o traseiro) Em mim nada pega!

Repórter – Presidente, e se a imprensa de esquerda denunciar um crime patriota, isso não pode ir longe?

General Bozo – Essa imprensa de esquerda não é a Rede Globo. Ela não é O Globo, a Folha de S.Paulo. A grande que é grande está ao meu lado. E a televisão, que faz a cabeça do povo, é nossa.

Repórter – Presidente, de vez em quando, uma denúncia consegue aparecer na televisão…

General Bozo – Quando cresce alguma coisa contra mim, eu respondo torcendo a acusação para o outro lado. Me acusam de roubo? Respondo, Lula é ladrão! Nem preciso provar, acreditam de primeira. A televisão exibe um tempo maior para o meu ataque. É bem simples.

Repórter – O senhor não tem medo de nada, não é?

General Bozo – Não. Sou valente.

Burro – Que homem!

General Bozo – E vou lhe dar uma lição. Eu vou lhe contar uma coisa que não lhe disseram no curso de jornalismo.

Repórter – Fale, presidente. Eu sou todo ouvidos.

Burro ergue as orelhas – Eu também.

General Bozo – Olhe as prisões. Olhe os presídios. Quem está lá? São os negros, os pobres e os miseráveis. (E vira o traseiro e passeia soberbo com as pernas a balançar) Em mim, nada pega! Eu jamais serei preso. A minha herança de sangue é de elite.

Vozes – Que inteligência!

Repórter – Perdão, senhor presidente. Mas existem hoje alguns militares presos.

General Bozo – Isso vai acabar quando eu tomar posse. Ou talvez até antes, os meus ministros na justiça já estão agindo. O repórter sabe qual é a regra de pensamento no Exército? Esta aqui: “Faça-se um rigoroso inquérito e puna-se o soldado”. (Gargalha)

Vozes – Que inteligência!

General Bozo – Eu não sou soldado. Eu sou o comando. Eu tenho a força de Trump! O Brasil para os Estados Unidos!

Animais urram e batem as patas.

Súbito, batem à porta.

Burro – Quem é?

Voz – É a Polícia Federal!

General Bozo – E eu perdi a eleição? Eu vou prender a polícia!

Zurros, relinchos, agitação.

(Final da peça, por enquanto)

Fonte: Brasil 247

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