Todos carregamos um idoso dentro de nós: China aposta no Festival do Duplo Nove
Por Fernando Capotondo — Brasil 247
Se não estivesse tão escuro
Na esquina logo adiante
Ou simplesmente, se todos
Compreendêssemos que todos
Carregamos um velho dentro de nós
(Llegar a viejo, Joan Manuel Serrat)
Um celular que toca, mas ninguém atende. Uma visita adiada para um fim de semana que nunca chega. Uma caminhada para a qual jamais se encontra o momento certo. Uma filha que, enquanto trabalha, limita-se a enviar um emoji pelo WeChat, quando, do outro lado, alguém esperava ouvir sua voz. São situações cada vez mais comuns nas relações com os idosos na China, que uma campanha de “micro-piedade filial” pretende colocar no centro do debate de centenas de milhões de famílias.
A iniciativa faz parte do Mês do Respeito aos Idosos, celebrado durante todo o mês de outubro e que tem no tradicional Festival do Duplo Nove sua data mais emblemática. Neste ano, a programação dá ênfase à proteção dos direitos e à segurança dos idosos, duas questões que vão muito além da assistência financeira ou da pergunta sobre quem cuidará dos pais quando eles já não conseguirem viver de maneira independente.
O governo observa que existem formas de negligência dentro das famílias que, embora difíceis de medir, acabam afetando centenas de milhões de pessoas, considerando a dimensão populacional da China. Os números falam por si. No final de 2025, o país contabilizava 323,38 milhões de habitantes com 60 anos ou mais, o equivalente a 23% da população. A previsão é que esse contingente ultrapasse os 400 milhões em apenas uma década.
Ao longo de 2026, o objetivo de melhorar a qualidade de vida dos idosos se traduziu em uma série de políticas concretas, como o pagamento de subsídios mensais de 800 yuans a cerca de 2 milhões de pessoas com deficiência e o fornecimento diário de refeições a mais de 4 milhões de pessoas atendidas em 82 mil refeitórios distribuídos pelo país. A essas medidas somam-se a ampliação dos chamados “círculos de vida de 15 minutos” e os avanços graduais para aproximar os idosos das novas tecnologias.
Visitar um idoso que mora sozinho, ajudá-lo a prevenir quedas, ensiná-lo a utilizar um telefone celular ou acompanhá-lo diante de uma dúvida jurídica estão entre as atividades previstas para outubro pelo Comitê Nacional Chinês sobre o Envelhecimento (CNCA). O órgão lançou campanhas como “Desfrutando de uma velhice feliz”, “A felicidade bate à porta, o acolhimento chega aos lares” e “Campanha Nacional de Educação Jurídica para Idosos”.
Tudo isso acontece em uma sociedade que envelhece rapidamente. A expectativa de vida chegou a 79,25 anos no final de 2025 e, segundo o 15º Plano Quinquenal, deverá alcançar os 80 anos em 2030. Cinco anos não são nada; mas o aumento previsto é significativo.
Em outros países, o debate sobre o envelhecimento tem prioridades diferentes, com milhões de aposentados que mal conseguem chegar à metade do mês com seus rendimentos insuficientes. Na China, por sua vez, surgem outros problemas característicos de uma sociedade que vive cada vez mais e se digitaliza em velocidade acelerada.
Nesse contexto, o CNCA alerta que a digitalização dos pagamentos e dos serviços administrativos facilitou a vida cotidiana dos idosos, mas também criou novas oportunidades para aqueles que procuram enganá-los.
Os 551 casos de captação ilegal de recursos e os 6.847 golpes identificados em 2025 acenderam novos sinais de alerta e levaram ao reforço da assistência jurídica gratuita, da educação para prevenção de fraudes e da divulgação de casos relacionados à publicidade enganosa de produtos de saúde, viagens de baixo custo utilizadas como porta de entrada para negócios fraudulentos, investimentos ilegais e comercialização de obras de arte falsificadas.
O telefone que antes podia servir para reduzir a distância entre filhos e pais também pode se transformar em uma porta de entrada para golpes, destaca o órgão vinculado ao Conselho de Estado chinês.
Uma tradição renovada
O respeito aos idosos tem raízes milenares na China. A piedade filial (xiào), associada ao cuidado e ao respeito pelos pais, ocupa um lugar central na tradição confucionista e, durante séculos, constituiu uma das bases das relações familiares. O Festival do Duplo Nove, também conhecido como Chongyang, faz parte dessa história.
A preocupação atual em proteger os idosos de golpes encontra uma curiosa relação com as origens do festival, celebrado neste ano no dia 18. Segundo a tradição, o nono dia do nono mês do calendário lunar era considerado um momento de excesso de energia yang e, portanto, potencialmente perigoso. Para afastar os males, as pessoas subiam a lugares elevados, carregavam ramos de corniso e realizavam diferentes rituais de proteção.
Em 1989, o Festival do Duplo Nove foi oficialmente designado como o Dia de Respeito aos Idosos. Ao longo do tempo, incluindo o momento atual, a celebração preservou seus símbolos mais tradicionais, mas seu significado foi se ampliando à medida que a sociedade começou a envelhecer e, naturalmente, a se transformar. Os antigos perigos associados à data deram lugar a preocupações muito mais cotidianas e complexas de resolver, como a solidão e o distanciamento entre pais e filhos.
De fato, um dos dilemas enfrentados pelos idosos de hoje é que eles vivem mais, mas não necessariamente contam com mais companhia. Algumas famílias estão separadas por milhares de quilômetros; outras vivem igualmente distantes, mesmo morando na mesma cidade.
A migração para os grandes centros urbanos transformou, ao longo de décadas, a estrutura de muitas famílias e fez com que inúmeros idosos passassem a viver muito longe dos filhos.
Em 2013, a China procurou enfrentar o problema com uma reforma da Lei de Proteção dos Direitos e Interesses dos Idosos, que estabeleceu a obrigação de os filhos adultos manterem contato e visitarem regularmente os pais, além de atenderem às suas necessidades econômicas e afetivas. Visto de fora, no mínimo parece complicado tentar regulamentar os vínculos familiares.
Nesse cenário, a política do filho único, abolida há apenas uma década, acrescentou outro elemento à equação. Durante anos, muitas famílias foram estruturadas em torno de um único descendente, que poderia acabar assumindo a responsabilidade de cuidar dos pais e, eventualmente, dos avós. Dificilmente uma única pessoa conseguiria dar conta de tamanha responsabilidade. Uma pessoa só não foi suficiente para todos. O milagre chinês também não.
Nesse cenário, a política do filho único, abolida há apenas uma década, acrescentou outro elemento à equação. Durante anos, muitas famílias foram estruturadas em torno de um único descendente, que poderia acabar cuidando dos pais e, eventualmente, dos avós. Uma pessoa só não foi suficiente para todos. O milagre chinês também não.
Enquanto uma campanha nacional ensina os idosos a desconfiar de um link suspeito ou de um investimento bom demais para ser verdade, outra lembra aos filhos algo muito mais antigo e muito mais simples: que telefonem. Que apareçam. Que diminuam um pouco o ritmo. Todos carregamos um velho dentro de nós.
Fonte: Brasil 247