Nobel da Paz 2026 vai para Navi Pillay, jurista que definiu estupro como genocídio em Ruanda
Por Tathyane Melo — Jornal Opção

O Comitê Norueguês do Nobel anunciou, nesta sexta-feira, 10, em Oslo, o prêmio do Prêmio Nobel da Paz de 2026 à jurista sul-africana Navanethem “Navi” Pillay, de 85 anos. Reconhecida por sua atuação na defesa dos direitos humanos e por sua contribuição à construção de uma ordem jurídica global mais abrangente, Pillay foi laureada “por sua coragem e integridade excepcionais em sua atuação jurídica e por seus esforços para promover a paz e o direito internacional”, conforme declarou o presidente do comitê, Jørgen Watne Frydnes.
Ao longo de sua trajetória, a magistrada acumulou feitos que a colocaram no centro de alguns dos mais importantes julgamentos internacionais das últimas décadas. Ainda durante o Apartheid, garantiu que Nelson Mandela tivesse acesso a um advogado quando ele estava preso. Mais tarde, em 1995, após o fim do regime segregacionista, Mandela a nomeou para a Suprema Corte da África do Sul, tornando-a a primeira mulher não branca a integrar o mais alto tribunal do país.
Mandela também a convidou para atuar como juíza no Tribunal Penal Internacional para Ruanda, onde trabalhou por oito anos, quatro deles como presidente. Foi nessa corte que Pillay presidiu o julgamento histórico de 1998 que definiu o estupro e a violência sexual como atos de genocídio, estabelecendo que “a violência sexual sistemática foi utilizada como uma ferramenta para destruir, no todo ou em parte, o grupo étnico Tutsi.”
Além do tribunal para Ruanda, criado para julgar os responsáveis pelo genocídio de 1994 naquele país africano, Pillay integrou o Tribunal Penal Internacional (TPI), corte independente que julga crimes contra a humanidade e crimes de guerra, e a Corte Internacional de Justiça (CIJ), principal órgão judicial da Organização das Nações Unidas (ONU), responsável por resolver disputas entre Estados e preservar o direito internacional. Posteriormente, presidiu o comitê contratado pela ONU que determinou que Israel cometeu genocídio em Gaza.
Entre 2008 e 2014, ocupou o cargo de Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos, principal autoridade da instituição dedicada a monitorar violações cometidas por governos em todo o mundo. Nomeada em 28 de julho de 2008, permaneceu no posto até setembro de 2014 e, nesse período, ganhou projeção internacional ao liderar a agenda de direitos humanos da organização. A passagem pelo posto é apontada como parte do percurso profissional que a colocou no centro de debates globais sobre responsabilização e proteção de civis.
“O compromisso de Navi Pillay com os princípios jurídicos universais e sua firme bússola moral são constantes ao longo de sua extensa carreira. Nascida em uma família de origem tâmil indiana, durante o apartheid, em Durban, na África do Sul, Pillay tornou-se advogada e pioneira no campo jurídico, enfrentando a profunda discriminação estrutural, a segregação e a exclusão”, afirmou Frydnes.
Pillay se torna a 21ª mulher laureada com o Nobel da Paz, de um total de 144 vencedores. A jurista ainda não havia sido informada sobre sua vitória porque o comitê não conseguiu contato com ela, segundo Frydnes. “Se você [Pillay] vir um número norueguês ligando, por favor atenda”, brincou ele.
Além da medalha de ouro com o perfil de Alfred Nobel, fundador do prêmio, Pillay receberá 12 milhões de coroas suecas, equivalente a cerca de R$ 6 milhões. Ao todo, 287 candidatos foram indicados neste ano, 208 pessoas e 79 organizações. Contudo, ninguém sabe quem são, pois a lista de indicados é mantida em sigilo por 50 anos dentro de um cofre no porão do Instituto Nobel da Noruega, em Oslo. O Comitê Nobel Norueguês, formado por cinco pessoas nomeadas pelo Parlamento da Noruega, escolhe o prêmio, sem vínculo com o governo norueguês. Seus membros são, frequentemente, políticos aposentados.
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Fonte: Jornal Opção