Vergonha e culpa na política: carta aberta a João Moreira Salles
Por Gabriel Andrade — Carta Capital
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Ao contrário de você, que sempre olhou para o resto de nós desde o topo da pirâmide social, onde goza de infinitos privilégios, eu sempre estive na base
Caro João,
Li com atenção seu texto na revista piauí, de sua propriedade. Ele nos chega com 10 anos de atraso. Você poderia ter se manifestado quando Dilma sofreu o golpe e Bolsonaro dedicou seu voto ao torturador Brilhante Ustra. E chega também com um apagamento que põe abaixo o bom-mocismo do “macho hétero adulto branco e rico sempre no comando”, por melhores que sejam suas intenções: você ignora meu ato de resistência naquela noite tenebrosa em que, providencialmente, se calou, esperando uma década para se manifestar em sua revista para intelectuais de consciência culpada.
Ao contrário de você, que sempre olhou para o resto de nós desde o topo da pirâmide social, onde goza de infinitos privilégios, eu sempre estive na base. Vivi privações e misérias que você nem pode imaginar e superei inúmeros obstáculos para migrar até a classe média e adquirir um capital simbólico que sua classe não gostaria que eu tivesse. Logo, não posso deixar que o “branco salvador” me apague da história. Contudo, seu artigo não é de todo descartável. Há nele uma distinção particularmente pertinente ao que estou pensando: a diferença entre “acreditar” e “compreender”. Seu alvo não são os eleitores que eventualmente desconheçam os fatos sobre Flávio Bolsonaro, mas setores da elite econômica que conhecem o histórico político e familiar dos Bolsonaro e, ainda assim, optam por se aproximar de sua candidatura.
É justamente daí que parto para pensar o quanto culpa e vergonha, mobilizadas pela engrenagem das big techs, vêm impactando os processos decisórios desde a primeira eleição de Donald Trump, marco da nova ascensão da extrema-direita no mundo após a Segunda Guerra Mundial. Em 2018, o triunfo da extrema-direita no Brasil produziu um choque, mas aconteceu como sequência das eleições estadunidenses e com os mesmos métodos, embora os dispositivos não fossem idênticos: o WhatsApp teve aqui uma importância muito maior. No último dia 4, o resultado se repetiu e as pessoas ficaram espantadas uma vez mais, como se tivessem perdido a memória recente.
Venho insistindo nisso a partir de minha pesquisa de doutorado: há uma convergência transnacional de técnicas de comunicação política, adaptadas às arquiteturas tecnológicas, culturas políticas e ecologias midiáticas de cada país.
A literatura sobre desinformação e comunicação política já demonstrou bastante coisa sobre medo, indignação, raiva, polarização, conspiração, urgência e ameaça. Proponho acrescentar outra dimensão: a exploração política de culpa e vergonha como matérias-primas da subjetivação eleitoral.
Porque medo e raiva podem produzir um inimigo. Culpa e vergonha podem produzir um sujeito.
Esse sujeito pode ser interpelado por uma narrativa que lhe diga: “você fracassou porque o mundo lhe foi roubado; tem vergonha daquilo em que sua família se transformou; perdeu seu lugar; foi humilhado; é culpado por ter acreditado nas pessoas erradas. Mas ainda há uma possibilidade de redenção”. Narrativa que está na boca de coachs e outros trambiqueiros, como Daniel Vorcaro, Flavio Bolsonaro e os pastores da Igreja Lagoinha et caterva.
As novas tecnologias da subjetividade, materializadas nas mídias sociais e em sua lógica algorítmica, podem explorar culpa e vergonha para interferir em eleições e outros processos decisórios em favor de candidatos e partidos cuja comunicação interpela esses sentimentos por meio de slogans e promessas de redenção, mesmo que suas condutas sejam as mais deploráveis.
As mídias sociais não são apenas meios de comunicação, mas ambientes de produção e modulação do caráter ou índole dos eleitores. A plataformização, a extração compulsória de nossos dados, os sistemas de recomendação, a publicidade direcionada e a economia da atenção permitem segmentar e personalizar mensagens em escalas muito difíceis na comunicação de massa tradicional. Por isso mesmo, ainda que sua comunicação difamatória contra Lula ainda tenha algum peso na decisão do eleitorado, a Rede Globo vem perdendo relevância eleição após eleição. As big techs são mais eficazes em sua propaganda negativa que exploram ódio e medo, mas também culpa e vergonha, como estou tentando demonstrar aqui.
Essa maior eficácia da propaganda negativa direcionada pelas big techs a partir dos dados que ela extrai dos eleitores, em comparação com aquela que fazia a televisão, explica também o fracasso das pesquisas de intenção de votos quando são abertas as urnas. Os institutos insistem numa metodologia que não leva em conta a volatilidade do eleitor conectado em redes de desinformação. Uma campanha digital que interpele medo, ódio, vergonha e culpa a duas semanas das eleições pode derrubar o mais sólido dos candidatos em pesquisa de intenções de voto. Isto aconteceu em 2018. Por que os dirigentes dos partidos de esquerda se esqueceram disto? Vergonhoso.
Em Sartre, a vergonha nasce quando me descubro visto pelo outro. O olhar do outro me transforma em objeto e me faz experimentar a distância entre aquilo que imagino ser e aquilo que sou para aquele olhar. A vergonha, portanto, não é apenas “eu diante de mim”, mas eu diante de mim através do outro.
Nem toda vergonha é individualmente produzida, portanto. Podemos sentir vergonha da pobreza, da cor da pele, do corpo, do sotaque, da sexualidade, da origem social ou do trabalho que exercemos — não porque haja algo moralmente errado em nós, mas porque a sociedade transformou determinada característica em motivo de desvalorização.
Podemos sentir vergonha daquilo que somos ou daquilo que fizeram de nós. A vergonha pode ser produzida pelo poder. Famílias, escolas, religiões, Estados, classes sociais e comunidades podem utilizar a vergonha como mecanismo disciplinar, fazendo sujeitos carregarem como defeito pessoal aquilo que é, na verdade, desigualdade social ou norma de dominação. A vergonha pode ser, assim, uma tecnologia social de poder.
A comunicação política da direita e da extrema-direita nas mídias sociais captura esses afetos e os reorganiza narrativamente, oferecendo um responsável e uma saída. A promessa eleitoral deixa de ser um projeto claro de país por meio de políticas — como o faz Lula — para ser apenas uma promessa ilusória de redenção subjetiva para culpas e vergonhas, que é o que fizeram os candidatos do Partido Liberal, muitos deles criminosos abomináveis com Deus na boca e arma na mão.
É nesse ponto que vejo a aproximação entre big techs, neoliberalismo, igrejas neopentecostais e extrema-direita. O modo de operação das igrejas neopentecostais, explorando comercialmente culpa e vergonha, fortalece a comunicação política de candidatos ligados diretamente a elas ou apoiados por elas, por mais criminosos que sejam, como os casos dos candidatos do PL.
Nos EUA como no Brasil, o que impediu a continuação de Trump e Bolsonaro no poder e produziu uma breve pausa em sua política fascista e de inimizade foi a pandemia de Covid-19. Em campanhas eleitorais nas quais tecnologias de produção do caráter estão do lado de candidatos que buscam interpelar vergonha e culpa por meio de uma comunicação orientada pela mineração dos dados dos eleitores extraídos pelas big techs, não poderia faltar, óbvio, o conluio com as igrejas neopentecostais que já exploram esses sentimentos.
O ex-deputado federal Jean Wyllys durante a votação do impeachment de Dilma. Foto: Marcelo Camargo/Câmara dos Deputados
A campanha do PL — orientada meses antes pelas big techs estadunidenses envolvidas no projeto neocolonial de Donald Trump — pôde oferecer não um programa de governo, mas uma narrativa de restauração do eu. Daí uma conduta pública deplorável como a de Flávio Bolsonaro coexistir com uma comunicação redentora. Isto não é visto como contradição para o eleitor.
João, é também por isso que me preocupa a impotência das esquerdas diante desse novo dispositivo além de sua contaminação pela racionalidade neoliberal nefasta. Faltam a elas desde 2016 estratégias inteligentes que levem em conta os impactos das big techs nas vidas e no caráter dos eleitores e pensem as campanhas coletivamente. Sobram a deriva narcísica de candidatos e candidatas interessados mais em recordes de votação pessoal do que na ampliação de uma bancada progressista no Parlamento e o fogo amigo utilizado para esse fim.
Minha campanha, por exemplo, teve pouquíssimos recursos: o PT priorizou seus medalhões. E o partido, submetido ao darwinismo social (a lei dos que mandam) escondeu a campanha do eleitorado paulista: duas ou três inserções de TV e rádio insuficientes, e o material físico só chegou às vésperas das eleições e sem gente para distribuí-lo. Ainda assim, tive cerca de 20 mil votos. Como esperar que uma estupidez dessas não vá derrubar o desempenho das esquerdas como um todo?
Mas o que me preocupa mesmo é a vitória estrondosa da direita e da extrema-direita e a possibilidade de Flávio Bolsonaro ser presidente e destruir de vez a democracia e o Brasil. E é claro que este horror possível está ligado ao que o PT fez comigo e com outros candidatos. Assim como a perda de cadeiras por parte do PSOL está ligada à deriva narcísica de candidatos que queriam ser recorde de votação, ignorando as questões coletivas.
Do lado dos eleitores de esquerda, campeia a sedução pela lacração e pela performance algorítmica , uma vez que eles também estão impactados pelas big techs um messianismo que alimenta aquela deriva narcísica de que já tratei. O fato de o PT ter concentrado mais uma vez em Lula sem articular estrategicamente as campanhas majoritárias com as proporcionais é a prova mesma de que o maior partido de esquerda da América Latina está perdido no século XX.
Talvez seja esse o ponto em que nossa responsabilidade se encontre. Não basta compreender o que aconteceu com os outros; é preciso compreender o que fizemos e o que deixamos de fazer. Ambos precisamos assumir nossa parcela de culpa e nos envergonhar de nossa falta de memória e de nossos erros numa eleição movida por ambos os sentimentos.
É por isso, João, que escrevo esta carta: não para disputar com você o direito à culpa ou à vergonha, mas para lembrar que elas também têm uma história, uma política e um lugar na disputa pelo poder. E que, antes de falar em redenção, talvez seja preciso olhar para aquilo que fizemos uns aos outros.
A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.
Jean Wyllys
Jornalista e professor
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Fonte: Carta Capital